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    O professor doutrinador
    e o educador pluralista

 

     Catarina Landim e Fábio San Juan
     04, Junhol/2008

 

 

Parece descabido, numa época que não quer ser ingênua, pretender que a educação seja neutra, apartidária, sem ideologias ou mesmo pluralista. O senso comum, hoje, quer acreditar que é ingênuo achar que qualquer pessoa, falando de qualquer lugar, possa ter boas intenções, que não esteja escondendo algo, que não possa estar com intenções ocultas, num maquiavelismo geral.
É o que a resposta pronta, automática, que é atirada da ponta da língua daqueles que se pretendem conscientes, resume: "não existe postura apartidária; quem diz que não se importa com política já assume uma postura política".

Ou seja, é um alienado.

Esse modo de ver as coisas parte de uma concepção de mundo em que não é possível confiar no vizinho. Todos são egoístas e querem somente explorar uns aos outros. Disso decorre naturalmente que todos são maquiavélicos e que não se pode confiar em ninguém, e, já que todo mundo está interessado em passar a perna no outro, é lógico que eu tenho que passar a perna nos outros primeiro para não ficar em desvantagem...

É impossível se construir uma sociedade nestes termos. É impossível educar para construir quem não confia no próximo..

O educador tem obrigação de promover um ambiente de ensino em que seja estimulada a confiança mútua. Em que se ensine o respeito pelo modo de pensar do Outro. Isto não quer dizer que se deva concordar com tudo que o Outro diga, mas que se dê espaço para que cada um defenda seus argumentos. Inclusive para que a visão de mundo de cada um fique mais refinada com o confronto das idéias, que vão se sofisticando nesta arena que deve ser pública e sem receios de se mostrar.
Essas idéias devem ser discutidas em público, com espaço para que as pessoas se convençam e adotem as que achar melhor pela força dos argumentos, cada um a partir de sua consciência, sem constrangimentos, sem o uso da força..

Essa liberdade de se colocar os argumentos em público, para que se possa confrontar idéias, para que elas melhorem, para que sejam tomadas as decisões coletivas, a partir das idéias que são gestadas pelo indivíduo, é o que se chama democracia..

É contraditório à natureza da educação que se pretende pluralista oferecer uma única resposta às questões humanas. É preciso que o educador tenha uma formação que lhe possibilite apresentar ao aluno várias formas de pensar, seja mostrando através de exemplos históricos como o mesmo problema foi resolvido de maneiras diferentes ao longo dos tempos, seja mostrando soluções diferentes existentes na atualidade.

Ou, ao menos, mesmo admitindo, de forma honesta, que a maneira que o próprio educador pensa é a maneira que ele está expondo o assunto, mas que não é a única.

A doutrinação, que é o contrário da educação pluralista por apresentar um modo de pensar como o único possível e verdadeiro, é a forma criminosa que os que se chamam professores defendem todos os dias nas salas de aula de todo o Brasil, apresentando de forma desonesta aos seus alunos uma única forma "válida" de entender o mundo, geralmente as ideologias de esquerda, marxistas, mas também outras ideologias, embora com menor freqüência.

Essa forma única e "verdadeira", que "revela os podres do mundo", que "tira a máscara dos poderosos e dos exploradores", a forma, enfim, que o professor doutrinador acredita e que ele não admite ser apenas mais uma forma de ver o mundo, reflete o egoísmo desses profissionais. O aluno sempre dependerá do professor, pois ele sempre será sua referência pois este não ensina a pensar de forma autônoma, mas autômata; o aluno repete frases feitas, e não chega às suas próprias conclusões.

O educador pluralista pensa primeiro no aluno, e sempre parte do princípio que o educando não só é capaz de pensar por si mesmo e chegar às suas próprias conclusões, mas que também pode superar o mestre.

É um crime engessar a criança, o adolescente e mesmo o adulto em um estado mental em que se estimule o rancor, o ódio, e mesmo a violência como únicos meios para que se resolvam problemas.

O esquerdismo baseia-se na violência, ao menos o esquerdismo baseado no marxismo, que é o predominante hoje. Seu fundador, Karl Marx, para ficar no que é mais conhecido, advogava a revolução armada do proletariado para a tomada do poder e a construção de uma sociedade socialista. Essa solução pelas armas passa longe da democracia, que tem como princípio o debate público, o convencimento por argumentos e a tomada de decisões pela discussão e não pela força.

O continuador de Marx mais eficaz, quanto a métodos para se atingir a sociedade socialista, é Antonio Gramsci, que defende que o poder deve ser tomado por dentro, e não por fora. A famosa expressão "corroer o sistema por dentro" resume suas idéias. Para isso, ele defende que deve-se doutrinar as pessoas com a ideologia marxista através da mídia, das artes e do ensino público e privado.

Ambos os métodos, seja pelas armas, seja pela doutrinação, são uma violência pois usam a força e não levam em conta a autonomia e a capacidade de escolher de cada indivíduo, tratando a sociedade como incompetente e "alienada", tendo que ser guiada pelos líderes "iluminados" da revolução socialista.

A época da vida em que os alunos estão mais vulneráveis à doutrinação é a adolescência. As ideologias de esquerda, principalmente as marxistas, aproveitam-se da sede adolescente de querer respostas prontas e fáceis para entender o mundo, para se comportar, para pensar. Quer soluções fáceis porque precisa da segurança de um esquema simples, direto, objetivo, e que afasta a complexidade inerente à realidade.

Não é possível conformar a realidade em uma teoria simplista. Mesmo as teorias mais complexas admitem sua incompletude. Mas um conjunto de soluções simplistas, como a cultura marxista se apresenta (tanto nas versões diluídas do chamado comunismo de cursinho ou o esquerdismo de Movimento Estudantil, como os que se pretendem mais intelectualizados como o defendido por uma Marilena Chauí, por exemplo), é um prato cheio para o adolescente, que se abstém de pensar, e que decora uma coleção de frases feitas e rancores embalados prontos para consumo, como ódio aos Estados Unidos, à Rede Globo e a qualquer empresário, que para eles é o explorador do Homem pelo Homem, para explicar o mundo.

Outro fator que atrai o adolescente é o coletivismo dessa doutrina. O adolescente anda em grupos porque é inseguro, precisa juntar-se a outras vozes para ter coragem, não possui ainda uma voz própria para se manifestar. Os doutrinadores aproveitam esse momento delicado da vida para oferecer ao adolescente uma âncora eficaz, de uma ideologia totalizante e que resolve todos os problemas da Humanidade… no futuro, prometendo-lhe um paraíso socialista, desde que os "inimigos do povo" sejam exterminados ou ao menos ridicularizados. O adolescente vira mais uma voz na multidão, clamando por justiça e virando areia para aumentar a massa de manobra.

O educador que pretende defender os ideais da democracia, do pluralismo, da tolerância, da confiança mútua entre as pessoas, do diálogo, deve estimular no aluno o desenvolvimento de sua autonomia como indivíduo. Deve proporcionar o ambiente e os meios para que haja debate, e para que o debate seja mais construtivo e tente vislumbrar a complexidade do mundo cada vez mais, estimular o amor ao conhecimento, aos livros, à conversa, à pesquisa. Deve ensinar (sim, ensinar) que a teoria é só um meio para que se melhore a prática, e que as duas coisas não estão dissociadas, como querem fazer crer os "ignorantes por opção", que fazem pouco dos livros (que segundo eles "não fazem parte da vida": ora, fazem sim), da cultura adquirida na escola e nos livros, de qualquer conhecimento que não seja adquirido pela experiência direta.

O educador é o maior responsável pela formação do indivíduo pois ele tem um poder enorme em suas mãos: passa um longo tempo com o aluno, apresenta-lhe o mundo de forma diferente que a família lhe apresentou. É seu dever formar cidadãos conscientes, pensantes, questionadores (e não "críticos" da forma que quer a ideologia esquerdista, que confunde pensamento crítico com botar defeito em tudo que é "capitalista, burguês e norte-americano / globalizado"), e não autômatos, robôs que possuem uma resposta pronta, automática, para cada demanda da vida. Precisamos pensar todos juntos, para tomar decisões para toda a sociedade, e não esperar respostas "iluminadas" dos líderes da revolução que virá para instaurar um novo paraíso na Terra, mesmo que esse paraíso seja a Utopia.

Comentário de Catarina Landim e Fábio San Juan à entrevista com Miguel Nagib, coordenador do site Escola sem Partido. (http://www.portaberta.net/blog/?cat=12)..

 

 

                    

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