Esses novos paradigmas se traduzem
no culto ao corpo, à aparência, ao poder econômico. Cartão de
crédito, se você não tem não é nada. Carro veloz leva você mais
rápido ( para a morte física ) a matar seu vizinho de inveja.
Ser independente, pode significar viver com os pais, usar o dinheiro
deles mas, a mensagem tem que ser firme ao dizer que o jovem deve
ter sua própria vida e nada a responder aos pais. Família é importante
para alguns fabricantes de produtos consumidos na Noite de Natal.
Dos tempos em que os filhos esperavam
a bênção e a permissão dos pais, acreditavam que todo sucesso
da empreitada de vida pessoal estaria diretamente ligado à concordância
dos pais, já vai longe. Acreditavam que o apoio dos pais funcionaria
como uma energia imprescindível. E funcionava, não por medo mas
por convicção do amor da quase "divindade materna e paterna".
Um reconhecimento explícito, indubitável, do amor e da confiabilidade
da mãe, principalmente.
Os pais "antigos" tinham menos conhecimento,
menos escolaridade apresentavam mais sabedoria. A mãe antiga deixava
fluir mais sua intuição tanto ao reconhecer a limitação humana
de um filho e assim oferecer-lhe mais estímulo como ao constatar
mais arrojo em outro e/ou em outros e por isso estabeleciam mais
limites. Paradoxalmente irá nos parecer que mais do que ninguém,
ela sabia que o mais arrojado nem sempre era o que tinha espírito
( personalidade ou caráter ) mais definido, mais forte, portanto.
A proximidade com os filhos possibilitava
esse "conhecimento". Qual dos filhos era capaz do quê, de praticar
que tipos de "artes". Até hoje, as mães mais preocupadas
e conscientes de que são as primeiras educadoras, estão sempre
atentas. Qualquer mãe "inteira" sabe quem deixou o copo sujo em
cima da pia. Qual deles deixa de checar as portas antes de dormir.
Quem é "mestre" em não apagar as luzes de um aposento. Qual deles
deixa que o outro pague o pato. E o que é capaz de deixar que
outra pessoa pague o pato por ele, esse deve ser preocupação o
alvo da preocupação, centro de mais atenção, porque
ela já percebeu a falha de caráter.
A maioria dos pais não mais
se dedicam ao exercício de atenção deixando passar todas
as oportunidades de "perceberem" seus filhos. Para compensar,
assume-lhe as vontades, compram o tempo e a dedicação. Quantidade
desnecessária e desaconcelhável de brinquedos, roupas são assinaturas
de que os pais sabem que estão falhando; ficam sem coragem para
impor limites, provocar frutrações através do estabelecimento
desses limites, e, deles tirar material para ensinar a lidar com
o desejo não-satisfeito como uma ferramenta construtiva. Ao fugir
do árduo trabalho de educar, de preparar os filhos para protegerem-se
contra eles próprios, os pais acabam por incluírem-se no rol de
vítimas futuras.
Ao falar dos pais como vítimas, não
se deve pensar em pais assassinados fisicamente, mas também. País
vítimas podem ser representados pelo ouvir pequenas mentiras,
falas rudes que comunicam algum desacerto da relação de uma ou
de ambas as partes como reação. Pais são assassinados ao descobrir
filhos viciados, pais são assassinados ao ouvirem mentiras, pais
são assassinados quando não conseguem pagar a consulta do médico
para seus filhos, ou comprar o tênis de griffe. Pais são assassinados
ao verem seus filhos na cadeia, no banditismo. Pais são assassinados
quando descobrem que não querem enxergar nada daquilo em que os
filhos se transformaram ao transgredirem às leis mais elementares:
a lei do amor filial. A comunicação da dor do crime da sociedade
que sofre age e reage autofagicamente, dilacerando seu tecido
ralo, onde não mais se teceu uma malha fina como reforço.
Reação, como é entendida, é uma ação-resposta
que tende a anular a ação agressora. Seria uma reação comportamental
em face à ameaça. Uma resistência natural à agressão, por oposição.
O parricida e/ou matricida reage, portanto, a que?
Os índices de parricidas, matricidas,
fraticidas, tem-se elevado. Como os suicidados, jovens enviam
suas mensagem codificadas, como é codificada a linguagem deles.
O que eles estão comunicando aos pais, à sociedade? O que eles
querem comunicar aos seus pares, também jovens? Pai e mãe não
mais representam ícones da moralidade, da confiabilidade, do espelho
onde os jovem possam mirar-se?
Se Peirce entendeu que um ícone só
existe na consciência, mesmo se por comodidade se estende o nome
de ícone a objetos externos que produzem um ícone na consciência,
talvez por aí entenda-se que em nossos dias, pai e mãe, família,
não têm essa representação por não serem mais sequer uma imagem
mental que os pais suscitaram em outros tempos que antecederam
os tempos "pós-modernos". Como queiram.
Os mais recentes e hediondos crimes,
têm dado aparência da falência total da autoridade materna e paterna,
do desvio ou perda de valor da instituição familiar. ( Contundo
tem sido mais fácil às autoridades especializadas
em comportamento, lançarem mão do rápido
e eficiente "psicopata" ) . Em podendo os pais casarem-se
quando, quantas vezes e com quem desejam, sem que sejam permitido
aos filhos, emitir suas opiniões, os jovens estariam protestando
contra o apagamento de si mesmos?
Os casos que a mídia fez ecoar, nenhum
deles foi dito se eram filhos de pais recasados. Portanto, não
inserimos diretamente dentro do contexto. Contudo, indiretamente,
como reflexo das dores de outros jovens, codificadas e repassadas
em conversas e queixas, alguém poderá estar tomando as dores por
aqueles que não se manifestam por motivos desconhecidos.
O interdito tem feições do amor. A
proibição de o jovem fazer sua escolha afetiva. Escolher seu namorado
ou sua namorada. Esta parece que tem sido a metamensagem. Esta
é a fala explicativa. Pensando que o hoje jovem, na infância,
não teve opção quanto à qualidade do amor recebido dos pais (
mãe, principalmente ), jovem adulto, ele poderá fazê-lo, poderá
correr os mesmos riscos de antes, da infância.
Coisa intrigante é se nos lembrarmos
de como reagiram alguns personagens literários e históricos. O
exemplo shakespereano de Romeu e Julieta onde os amantes matam
a si mesmos ao invés de matarem os pais, diante da interdição.
Na literatura brasileira, não como
personagem apenas, temos um exemplo em Augusto dos Anjos. Fato
não revelado publicamente. Augusto dos Anjos teria sofrido a perda
da amada, uma jovem, filha de empregados da fazenda dos pais.
A jovem foi morta pela família do poeta e enterrada na própria
fazenda. Isto teria feito de Augusto dos Anjos o poeta maldito.
Augusto dos Anjos teria provocado seu suicídio de forma inconsciente
ao desnutrir-se e expor-se à doenças até que contraiu tuberculose
doença comum na época ( está voltando hoje ) provocando
sua própria morte, ao invés de matar os pais.
Crime
da Rua Cuba
Assim nomeado pelo endereço onde aconteceu
o crime. O jovem estudante, hoje advogado, Jorge Delmanto Bouchabki,
de 28 anos, o Jorginho, principal suspeito pelas mortes dos pais,
o advogado Jorge Toufic Bouchabki e a professora Maria Cecília
Delmanto Bouchabki, em 1988.
A Justiça considerou pela segunda vez
que o advogado Jorge Delmanto Bouchabki, o Jorginho, não matou
seus pais no dia 24 de dezembro de 1988. O juiz João Carlos Sá
Moreira de Oliveira entendeu que são insuficientes as provas colhidas
contra Jorginho nos últimos três meses. O crime prescreve à meia-noite
da sexta-feira 21. Em São Paulo, na quinta-feira 20.
Este crime que até hoje não apresentou
o verdadeiro culpado, continua insolúvel mas foi transformado
em livro e serviu como base para filme. Mais
sobre O Crime da Rua Cuba
Mortes
e mistério no reino da Himalaia
Uma
briga em família

Condenado à Liberdade
Filho será denunciado pelo crime
da Rua Cuba
Será a segunda denúncia contra Jorge
Delmanto Bouchabki pela morte dos pais em 1988
RENATO LOMBARDI
A promotora Eliana Passarelli, do Tribunal
do Júri de Pinheiros, deve denunciar amanhã o advogado Jorge Delmanto
Bouchabki, de 28 anos, o Jorginho, como principal suspeito pelas
mortes dos pais, o advogado Jorge Toufic Bouchabki e a professora
Maria Cecília Delmanto Bouchabki, em 1988. ARQUIVADO o caso da
rua Cuba. A Justiça considerou pela segunda vez que o advogado
Jorge Delmanto Bouchabki, o Jorginho, não matou seus pais no dia
24 de dezembro de 1988. O juiz João Carlos Sá Moreira de Oliveira
entendeu que são insuficientes as provas colhidas contra Jorginho
nos últimos três meses. O crime prescreve à meia-noite da sexta-feira
21. Em São Paulo, na quinta-feira 20.
Será a segunda denúncia contra Jorginho.
Na primeira, apresentada em 1989 pelo atual procurador-geral de
Justiça, Luiz Antônio Guimarães Marrey, o juiz Linneu Rodrigues
de Carvalho Sobrinho, da Vara do Júri de Pinheiros, não concordou
em mandar Jorginho a julgamento por entender que não havia provas
no processo, apenas indícios.
Em sua sentença de impronúncia, ele
afirmou que o caso poderia ser reaberto se aparecesse um fato
novo. O casal foi assassinado a tiros na madrugada de 23 de dezembro
de 1988, na casa da Rua Cuba, 109, Jardim América, zona sul da
capital.
A decisão da promotora em reabrir o
caso e preparar a denúncia tem como base novas provas que estão
em 210 páginas anexadas ao processo e, principalmente, o depoimento
da ex-empregada doméstica do casal Olinda Oliveira da Silva ao
Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), prestado
no fim de abril.
Ela teria presenciado uma discussão
entre Jorginho e a mãe, que era contrária ao namoro do rapaz com
Flávia Cardoso Soares. Olinda teria visto o rapaz, na sala da
casa, enfrentar Maria Cecília e ser em seguida agredido por ela
com um taco de bilhar nas costas. Segundo a ex-funcionária, Jorginho
gritou que não deixaria a namorada em hipótese nenhuma e a mãe
iria arrepender-se por aquele gesto.
As novas investigações do crime da
Rua Cuba foram reabertas em absoluto sigilo. A promotora informou
que está fazendo sua parte. Assim que chegou ao Tribunal do Júri
de Pinheiros, no ano passado, examinou o processo e encontrou
muita coisa ainda por ser feita. "Estou fazendo a minha parte",
afirmou Eliana. "Caberá à Justiça aceitar ou não a denúncia."
Omissão - Interrogada pelo delegado
Luiz Carlos Ferreira Sato, Olinda deu detalhes que omitira nos
depoimentos prestados à polícia e à Justiça quando do assassinato
e um ano depois, na fase do processo no Tribunal do Júri de Pinheiros.
Segundo Olinda, na noite que antecedeu o crime, Maria Cecília
e Jorginho, o filho mais velho, discutiram.
A mãe reclamava que o rapaz não havia
montado a bicicleta da irmã, que seria o presente de Natal. Mas
o motivo maior foi o namoro de Jorginho. A mãe teria determinado
o rompimento definitivo com Flávia. A discussão teria ocorrido
na sala, na presença de Olinda.
A ex-empregada afirmou que Maria Cecília
deu prazo até o dia de Natal para o término do namoro. Olinda
disse ao delegado Sato e à promotora Eliana ter visto a professora
aplicar um golpe tão forte que o taco de bilhar se quebrou nas
costas de Jorginho.
Ainda segundo a empregada, em seu novo
depoimento, o rapaz respondeu que ficaria com a namorada "de qualquer
maneira". Em seguida, ameaçou a mãe.
O delegado perguntou por que Olinda
omitiu estes detalhes quando ouvida pelo delegado José Augusto
Veloso Sampaio e pelo promotor Luiz Antônio Guimarães Marrey,
responsáveis pela investigação. Ela informou que a família "pediu
para não dizer nada".
Em 1989, Olinda afirmou que nos quatro
meses em que trabalhou na casa da Rua Cuba o relacionamento de
Jorginho com os pais era muito bom.
Encontro - Ela revelou ainda que, na
manhã de 24 de dezembro - dia em que os corpos foram encontrados
-, Jorginho logo cedo, pelo interfone, pediu a ela que Marinete,
a outra empregada, acordasse sua irmã Graziela, que seria levada
pela avó e pela tia ao cabeleireiro.
Na volta de Graziela à casa, às 10
horas, decidiram acordar o casal. Olinda bateu na porta do quarto
e tocou o interfone. Como não houve resposta, ela conseguiu chegar
até a sacada do sobrado com uma escada e viu o casal na cama coberto
com um lençol.
Ontem, a promotora trancou-se em sua
sala, no Fórum de Pinheiros, para concluir a denúncia. Sato foi
proibido por seus superiores de falar sobre as novas apurações.
Marrey disse que não fala sobre o assunto "em hipótese nenhuma".
O delegado Sampaio, que trabalha na Delegacia de Polícia de Peruíbe,
também.
O advogado José Carlos Dias, que defendeu
Jorginho, pretende esperar a decisão da promotora para pronunciar-se.
www.estado.estadao.com.br/edicao/
pano/99/05/18/cid583.html
Sobe
Mortes e mistério
no reino da Himalaia
PARAÍSO SANGRENTO: único reino do
mundo regido pelo hinduísmo, o Nepal perde sua condição de Shangri-lá
ao se tornar palco de uma tragédia à altura de Shakespeare
O príncipe herdeiro do Nepal assassina
os pais e mais sete membros da família e se mata. O tio assumiu
o trono, mas a população acredita em conspiração.
Por Silvio Queiroz
É bem possível que Shakespeare tenha
vindo à mente conturbada de Dipendra, príncipe herdeiro do Nepal,
na noite de loucura (e bebedeira) em que assassinou os pais, o
rei Birendra e a rainha Aiswarya, o irmão mais novo, príncipe
Nirajan, e outros sete parentes. Foi o final trágico de um jantar
em família no palácio real da exótica Katmandu, aos pés do Himalaia
- cenário que aos olhos do Ocidente remete sempre à mítica Shangri-lá
do Horizonte Perdido de Frank Capra. Enredo com sotaque britânico,
como o de clássicos que Dipendra terá certamente estudado em Eton,
a escola da nata da elite inglesa, incluídos os netos da rainha
Elizabeth II, William (que um dia poderá ser rei) e Harry. Também
Dipendra formou-se lá para ser o rei do distante Nepal. Na noite
de 1.º de junho, alguma reminiscência sheakespereana terá assaltado
o príncipe quando ele decidiu voltar ao salão, fardado e de arma
em punho, ao invés de deitar-se para curar a embriaguez confessa.
Para isso o tinham levado aos aposentos. Mas seu texto era outro:
voltou e executou da família quantos pôde. Por fim, apontou a
arma para si mesmo. Falhou apenas no último ato, talvez por falta
de ensaiar a cena. Que acabou salva dois dias depois, quando o
príncipe assassino-suicida morreu no hospital - aos 30 anos, mas
não sem antes ter sido rei, em coma. Rei morto, rei posto, e a
coroa acabou na cabeça de Gyanendra, irmão do falecido rei, até
então uma carta fora do baralho no jogo palaciano. Só a tragédia
pôde mudar seu destino, uma tragédia da qual o impopular príncipe-irmão
estava convenientemente distante, um dos poucos membros da família
real que não estavam entre os 20 convivas no jantar de 1.º de
junho. Mas fantasmas ainda o assombram, no palácio e fora dele
- outra reminiscência shakespereana? Porque, embora não estudem
em Eton, nem provavelmente tenham noções de teatro clássico, os
empobrecidos súditos nepaleses têm sua própria versão para o regicídio.
Nela, morrem um rei amado e bondoso, que há dez anos abdicou dos
poderes absolutos para sufocar um levante popular sem banho de
sangue, submetendo-se a um regime constitucional, e seu filho
e herdeiro igualmente amado. Sobe ao trono o tio vilão, adversário
da reforma parlamentarista, que leva de contrabando para a posição
central da dinastia um filho que, aos olhos do povo, é quem tem
o phisique du rôle para o papel reservado ao primo Dipendra na
versão oficial. Paras, o novo príncipe herdeiro, é o beberrão
contumaz, truculento e arruaceiro, mais impopular até que o pai.
Entre outras façanhas, porque atropelou e matou o cantor mais
popular do país. Mas no único relato feito até aqui por uma testemunha
ocular do massacre no palácio real, Paras emerge como herói. Teria
sido ele quem protegeu com o próprio corpo os demais sobreviventes
do massacre que, como o próprio príncipe, saíram ilesos da balaceira.
Difícil de acreditar, mais ainda de aceitar, para muitos dos súditos
que, na manhã seguinte à tragédia, foram para a frente do palácio,
em Katmandu, exigir explicações. Eles protestaram por dois dias
seguidos, até serem demovidos pelo Exército, que jogou duro amparado
por lei marcial - e matou ao menos dois manifestantes. Até então,
o silêncio oficial era completo em meio a uma tempestade de rumores,
que tinham como centro uma áspera discussão do embriagado Dipendra
com os pais. A pivô da trama seria uma bela jovem de origem indiana,
Devyani Rana, filha de influente parlamentar e neta de marajá
- dos autênticos, ou seja, um potestado indiano. O herdeiro teria
escolhido Devyani para um dia ser sua rainha, mas a mãe não a
aceitava. Enlouquecido de paixão, irredutível no compromisso com
a jovem e ameaçado de ser deserdado - sempre segundo as versões
que vazam do palácio desde a noite fatídica -, Dipendra teria
chegado já embriagado ao palácio real, por volta das 20h20. Foi
minutos mais tarde que a única testemunha a fazer um depoimento
público, o capitão médico Rajiv Shahi, genro do príncipe Dhirendra
(o outro irmão do falecido rei), diz ter ajudado o príncipe Nirajan
a levar do salão para seus aposentos o irmão mais velho, tão embriagado
que caíra seguidamente. Paras, segundo o relato, estava junto.
Shahi, que descreveu os acontecimentos com o rigor técnico e a
linguagem precisa de médico e oficial, não se preocupou em explicar
como o cambaleante príncipe teria sido capaz, minutos mais tarde,
de fuzilar nove pessoas com tiros certeiros, usando três armas
diferentes, inclusive um fuzil automático M-16. Tudo em minuto
e meio, segundo o médico, que estava em um aposento contíguo àquele
onde o rei Birendra recebeu os primeiro tiros. "De início, pensei
que fosse alguém tocando pranka", relembrou Shahi. "Aí, ouvi gritos
e alguém dizendo que Sua Falecida Majestade havia sido baleado.
Como médico, corri para socorrê-lo. Tirei o paletó e tentei estancar
o sangue que jorrava do pescoço". O capitão-médico, cujo casamento
com a filha do príncipe Dhirendra lhe abriu as portas do palácio,
contou ter visto o príncipe herdeiro transitar entre os aposentos
enquanto atirava. O primeiro que tentou contê-lo foi abatido ali
mesmo aos pés do rei: Dhirendra. "Depois, ele começou a atirar
sem critério em cada um que se aproximasse", continua o depoimento.
Dipendra teria em seguida caçado a mãe, nos jardins. Foi onde
- sempre segundo Shahi - o "até então herdeiro" teria executado
o irmão mais novo, Nirajan, que se teria interposto entre ele
e a mãe. "Depois, ouvi mais tiros e alguém mais disse que o então
herdeiro havia se matado. Foi ele que assassinou Sua Majestade.
E ninguém que toque no rei continua a ser o que era depois disso:
agora, Dipendra se tornou apenas um assassino". Tanto quanto o
teor do relato é conveniente para o novo monarca e seu filho playboy,
o momento em que apareceu foi providencial. E suspeito, para os
não poucos insatisfeitos. Na quinta-feira, os nepaleses liam aturdidos
os jornais, que pela primeira vez falavam com abertura sobre os
acontecimentos - com exceção da publicação de um artigo sobre
o assunto, escrito por um líder (clandestino) da obscura guerrilha
maoísta que promove uma "guerra popular" em pleno Himalaia, ousadia
que custou a prisão de um de seus donos. No mesmo dia, começavam
os trabalhos de uma comissão designada pelo novo rei para investigar
a chacina: dois deputados, sem auxílio de legistas, o que provocou
protestos da oposição comunista, uma espécie de versão moderada
e institucional da rebelião maoísta. "Pode escrever: 95% dos nepaleses
não vão acreditar nisso", garantia aos jornalistas ocidentais
um dos muitos incrédulos imersos nos últimos dias em rodinhas
conspirativas nas ruelas do setor histórico de Katmandu. "E os
guardas, onde estavam?", questionou outro súdito, inconformado
com a idéia de que "o amado príncipe" possa ter matado os próprios
pais, algo tanto mais estranho no único reino do mundo regido
pelo hinduísmo. Mais estranho que tudo, porém, parecia o fato
de o príncipe Dipendra, um destro notório, ter se suicidado com
um tiro na têmpora esquerda - o que seria natural para um atirador
canhoto. Como parecia incongruente a descrição do irmão mais novo,
o príncipe Nirajan, sendo fuzilado quando se colocou à frente
da mãe para protegê-la do primogênito parricida - isso porque
o jovem príncipe teria recebido o tiro pelas costas.
www.jt.estadao.com.br/suplementos/
domi/2001/06/10/domi005.html
Sobe
Uma briga em família
terminou em tragédia na tarde de
quinta-feira, no município de Guatambu, no Meio-oeste do Estado.
O menor V.A., 16, matou o próprio pai, Arquilino Ársego, 49, com
uma paulada na cabeça. O fato aconteceu na propriedade da família,
na comunidade de Linha Patussi, logo depois do meio dia. O incidente
chocou a população do pequeno município, que tem pouco mais de
quatro mil habitantes. O menor, que está arrependido e inconformado,
foi isolado do restante família por motivo de segurança. Segundo
a Polícia Militar, que foi chamada pelo menor logo depois do incidente,
a briga começou com uma discussão fútil. Arquilino Ársego, que
era bem visto na comunidade onde morava, um pouco alterado por
causa da bebida, teria atirado um prato no menor. V.A., revoltado
com a atitude do pai, teria revidado com o primeiro objeto que
encontrou: um pedaço de madeira do tipo que é picado para ser
colocado no fogo. O menor atirou o pedaço de lenha, que atingiu
em cheio a cabeça do pai, causando-lhe traumatismo craniano. Quando
percebeu que o ferimento era sério e que o pai poderia morrer,
V.A. saiu desesperado de casa à procura de ajuda e chamou a polícia.
Atendido por um vizinho, ele conseguiu levar Arquilino até a unidade
do Corpo de Bombeiros do bairro Efapi, em Chapecó. O pai recebeu
os primeiros socorros e logo em seguida foi levado ao Hospital
Regional do Oeste, em Chapecó, onde passou por cirurgia, mas acabou
morrendo, na madrugada de ontem. Depois de encaminhar o pai ao
hospital, o menor procurou a polícia e relatou o ocorrido. Quando
alguns familiares ficaram sabendo da briga, tentaram agredir o
menor, que foi levado a um local seguro e isolado por sugestão
da polícia e com o consentimento da mãe. Como V.A. se apresentou
e chamou a polícia para contar o que aconteceu, ele não deve ser
preso. Mesmo assim a polícia informou que ele será processado
e deve permanecer à disposição da Justiça. O sepultamento de Arquilino
Ársego deve acontecer na manhã de hoje, na comunidade onde reside
a família.
www.an.com.br/2001/jul/28/0pol.htm