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Sobe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comunicação do Crime


Berta Ataíde
Domínio Feminino
25, Novembro/2002

 

Os meios de comunicação, na exaltação aos anunciantes, dirigiram sua programação para crianças e jovens, induzindo mudanças paradigmáticas, de forma sutil do comportamento social. Estimulando o consumismo a uma exacerbação do sexo, priorizando a dependência do ter e do aparentar. Tempo todo repetindo que você será mais e melhor do que seu amigo e vizinho se tiver um produto cobiçado por eles.

Esses novos paradigmas se traduzem no culto ao corpo, à aparência, ao poder econômico. Cartão de crédito, se você não tem não é nada. Carro veloz leva você mais rápido ( para a morte física ) a matar seu vizinho de inveja. Ser independente, pode significar viver com os pais, usar o dinheiro deles mas, a mensagem tem que ser firme ao dizer que o jovem deve ter sua própria vida e nada a responder aos pais. Família é importante para alguns fabricantes de produtos consumidos na Noite de Natal.

Dos tempos em que os filhos esperavam a bênção e a permissão dos pais, acreditavam que todo sucesso da empreitada de vida pessoal estaria diretamente ligado à concordância dos pais, já vai longe. Acreditavam que o apoio dos pais funcionaria como uma energia imprescindível. E funcionava, não por medo mas por convicção do amor da quase "divindade materna e paterna". Um reconhecimento explícito, indubitável, do amor e da confiabilidade da mãe, principalmente.

Os pais "antigos" tinham menos conhecimento, menos escolaridade apresentavam mais sabedoria. A mãe antiga deixava fluir mais sua intuição tanto ao reconhecer a limitação humana de um filho e assim oferecer-lhe mais estímulo como ao constatar mais arrojo em outro e/ou em outros e por isso estabeleciam mais limites. Paradoxalmente irá nos parecer que mais do que ninguém, ela sabia que o mais arrojado nem sempre era o que tinha espírito ( personalidade ou caráter ) mais definido, mais forte, portanto.

A proximidade com os filhos possibilitava esse "conhecimento". Qual dos filhos era capaz do quê, de praticar que tipos de "artes". Até hoje, as mães mais preocupadas e conscientes de que são as primeiras educadoras, estão sempre atentas. Qualquer mãe "inteira" sabe quem deixou o copo sujo em cima da pia. Qual deles deixa de checar as portas antes de dormir. Quem é "mestre" em não apagar as luzes de um aposento. Qual deles deixa que o outro pague o pato. E o que é capaz de deixar que outra pessoa pague o pato por ele, esse deve ser preocupação o alvo da preocupação, centro de mais atenção, porque ela já percebeu a falha de caráter.

A maioria dos pais — não mais se dedicam ao exercício de atenção — deixando passar todas as oportunidades de "perceberem" seus filhos. Para compensar, assume-lhe as vontades, compram o tempo e a dedicação. Quantidade desnecessária e desaconcelhável de brinquedos, roupas são assinaturas de que os pais sabem que estão falhando; ficam sem coragem para impor limites, provocar frutrações através do estabelecimento desses limites, e, deles tirar material para ensinar a lidar com o desejo não-satisfeito como uma ferramenta construtiva. Ao fugir do árduo trabalho de educar, de preparar os filhos para protegerem-se contra eles próprios, os pais acabam por incluírem-se no rol de vítimas futuras.

Ao falar dos pais como vítimas, não se deve pensar em pais assassinados fisicamente, mas também. País vítimas podem ser representados pelo ouvir pequenas mentiras, falas rudes que comunicam algum desacerto da relação de uma ou de ambas as partes como reação. Pais são assassinados ao descobrir filhos viciados, pais são assassinados ao ouvirem mentiras, pais são assassinados quando não conseguem pagar a consulta do médico para seus filhos, ou comprar o tênis de griffe. Pais são assassinados ao verem seus filhos na cadeia, no banditismo. Pais são assassinados quando descobrem que não querem enxergar nada daquilo em que os filhos se transformaram ao transgredirem às leis mais elementares: a lei do amor filial. A comunicação da dor do crime da sociedade que sofre age e reage autofagicamente, dilacerando seu tecido ralo, onde não mais se teceu uma malha fina como reforço.

Reação, como é entendida, é uma ação-resposta que tende a anular a ação agressora. Seria uma reação comportamental em face à ameaça. Uma resistência natural à agressão, por oposição. O parricida e/ou matricida reage, portanto, a que?

Os índices de parricidas, matricidas, fraticidas, tem-se elevado. Como os suicidados, jovens enviam suas mensagem codificadas, como é codificada a linguagem deles. O que eles estão comunicando aos pais, à sociedade? O que eles querem comunicar aos seus pares, também jovens? Pai e mãe não mais representam ícones da moralidade, da confiabilidade, do espelho onde os jovem possam mirar-se?

Se Peirce entendeu que um ícone só existe na consciência, mesmo se por comodidade se estende o nome de ícone a objetos externos que produzem um ícone na consciência, talvez por aí entenda-se que em nossos dias, pai e mãe, família, não têm essa representação por não serem mais sequer uma imagem mental que os pais suscitaram em outros tempos que antecederam os tempos "pós-modernos". Como queiram.

Os mais recentes e hediondos crimes, têm dado aparência da falência total da autoridade materna e paterna, do desvio ou perda de valor da instituição familiar. ( Contundo tem sido mais fácil às autoridades especializadas em comportamento, lançarem mão do rápido e eficiente "psicopata" ) . Em podendo os pais casarem-se quando, quantas vezes e com quem desejam, sem que sejam permitido aos filhos, emitir suas opiniões, os jovens estariam protestando contra o apagamento de si mesmos?

Os casos que a mídia fez ecoar, nenhum deles foi dito se eram filhos de pais recasados. Portanto, não inserimos diretamente dentro do contexto. Contudo, indiretamente, como reflexo das dores de outros jovens, codificadas e repassadas em conversas e queixas, alguém poderá estar tomando as dores por aqueles que não se manifestam por motivos desconhecidos.

O interdito tem feições do amor. A proibição de o jovem fazer sua escolha afetiva. Escolher seu namorado ou sua namorada. Esta parece que tem sido a metamensagem. Esta é a fala explicativa. Pensando que o hoje jovem, na infância, não teve opção quanto à qualidade do amor recebido dos pais ( mãe, principalmente ), jovem adulto, ele poderá fazê-lo, poderá correr os mesmos riscos de antes, da infância.

Coisa intrigante é se nos lembrarmos de como reagiram alguns personagens literários e históricos. O exemplo shakespereano de Romeu e Julieta onde os amantes matam a si mesmos ao invés de matarem os pais, diante da interdição.

Na literatura brasileira, não como personagem apenas, temos um exemplo em Augusto dos Anjos. Fato não revelado publicamente. Augusto dos Anjos teria sofrido a perda da amada, uma jovem, filha de empregados da fazenda dos pais. A jovem foi morta pela família do poeta e enterrada na própria fazenda. Isto teria feito de Augusto dos Anjos o poeta maldito. Augusto dos Anjos teria provocado seu suicídio de forma inconsciente ao desnutrir-se e expor-se à doenças até que contraiu tuberculose — doença comum na época ( está voltando hoje ) — provocando sua própria morte, ao invés de matar os pais.

Crime da Rua Cuba

Assim nomeado pelo endereço onde aconteceu o crime. O jovem estudante, hoje advogado, Jorge Delmanto Bouchabki, de 28 anos, o Jorginho, principal suspeito pelas mortes dos pais, o advogado Jorge Toufic Bouchabki e a professora Maria Cecília Delmanto Bouchabki, em 1988.

A Justiça considerou pela segunda vez que o advogado Jorge Delmanto Bouchabki, o Jorginho, não matou seus pais no dia 24 de dezembro de 1988. O juiz João Carlos Sá Moreira de Oliveira entendeu que são insuficientes as provas colhidas contra Jorginho nos últimos três meses. O crime prescreve à meia-noite da sexta-feira 21. Em São Paulo, na quinta-feira 20.

Este crime que até hoje não apresentou o verdadeiro culpado, continua insolúvel mas foi transformado em livro e serviu como base para filme. Mais sobre O Crime da Rua Cuba

Condenado à Liberdade

Mortes e mistério no reino da Himalaia

Uma briga em família

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Condenado à Liberdade

Filho será denunciado pelo crime da Rua Cuba

Será a segunda denúncia contra Jorge Delmanto Bouchabki pela morte dos pais em 1988

RENATO LOMBARDI

A promotora Eliana Passarelli, do Tribunal do Júri de Pinheiros, deve denunciar amanhã o advogado Jorge Delmanto Bouchabki, de 28 anos, o Jorginho, como principal suspeito pelas mortes dos pais, o advogado Jorge Toufic Bouchabki e a professora Maria Cecília Delmanto Bouchabki, em 1988. ARQUIVADO o caso da rua Cuba. A Justiça considerou pela segunda vez que o advogado Jorge Delmanto Bouchabki, o Jorginho, não matou seus pais no dia 24 de dezembro de 1988. O juiz João Carlos Sá Moreira de Oliveira entendeu que são insuficientes as provas colhidas contra Jorginho nos últimos três meses. O crime prescreve à meia-noite da sexta-feira 21. Em São Paulo, na quinta-feira 20.

Será a segunda denúncia contra Jorginho. Na primeira, apresentada em 1989 pelo atual procurador-geral de Justiça, Luiz Antônio Guimarães Marrey, o juiz Linneu Rodrigues de Carvalho Sobrinho, da Vara do Júri de Pinheiros, não concordou em mandar Jorginho a julgamento por entender que não havia provas no processo, apenas indícios.

Em sua sentença de impronúncia, ele afirmou que o caso poderia ser reaberto se aparecesse um fato novo. O casal foi assassinado a tiros na madrugada de 23 de dezembro de 1988, na casa da Rua Cuba, 109, Jardim América, zona sul da capital.

A decisão da promotora em reabrir o caso e preparar a denúncia tem como base novas provas que estão em 210 páginas anexadas ao processo e, principalmente, o depoimento da ex-empregada doméstica do casal Olinda Oliveira da Silva ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), prestado no fim de abril.

Ela teria presenciado uma discussão entre Jorginho e a mãe, que era contrária ao namoro do rapaz com Flávia Cardoso Soares. Olinda teria visto o rapaz, na sala da casa, enfrentar Maria Cecília e ser em seguida agredido por ela com um taco de bilhar nas costas. Segundo a ex-funcionária, Jorginho gritou que não deixaria a namorada em hipótese nenhuma e a mãe iria arrepender-se por aquele gesto.

As novas investigações do crime da Rua Cuba foram reabertas em absoluto sigilo. A promotora informou que está fazendo sua parte. Assim que chegou ao Tribunal do Júri de Pinheiros, no ano passado, examinou o processo e encontrou muita coisa ainda por ser feita. "Estou fazendo a minha parte", afirmou Eliana. "Caberá à Justiça aceitar ou não a denúncia."

Omissão - Interrogada pelo delegado Luiz Carlos Ferreira Sato, Olinda deu detalhes que omitira nos depoimentos prestados à polícia e à Justiça quando do assassinato e um ano depois, na fase do processo no Tribunal do Júri de Pinheiros. Segundo Olinda, na noite que antecedeu o crime, Maria Cecília e Jorginho, o filho mais velho, discutiram.

A mãe reclamava que o rapaz não havia montado a bicicleta da irmã, que seria o presente de Natal. Mas o motivo maior foi o namoro de Jorginho. A mãe teria determinado o rompimento definitivo com Flávia. A discussão teria ocorrido na sala, na presença de Olinda.

A ex-empregada afirmou que Maria Cecília deu prazo até o dia de Natal para o término do namoro. Olinda disse ao delegado Sato e à promotora Eliana ter visto a professora aplicar um golpe tão forte que o taco de bilhar se quebrou nas costas de Jorginho.

Ainda segundo a empregada, em seu novo depoimento, o rapaz respondeu que ficaria com a namorada "de qualquer maneira". Em seguida, ameaçou a mãe.

O delegado perguntou por que Olinda omitiu estes detalhes quando ouvida pelo delegado José Augusto Veloso Sampaio e pelo promotor Luiz Antônio Guimarães Marrey, responsáveis pela investigação. Ela informou que a família "pediu para não dizer nada".

Em 1989, Olinda afirmou que nos quatro meses em que trabalhou na casa da Rua Cuba o relacionamento de Jorginho com os pais era muito bom.

Encontro - Ela revelou ainda que, na manhã de 24 de dezembro - dia em que os corpos foram encontrados -, Jorginho logo cedo, pelo interfone, pediu a ela que Marinete, a outra empregada, acordasse sua irmã Graziela, que seria levada pela avó e pela tia ao cabeleireiro.

Na volta de Graziela à casa, às 10 horas, decidiram acordar o casal. Olinda bateu na porta do quarto e tocou o interfone. Como não houve resposta, ela conseguiu chegar até a sacada do sobrado com uma escada e viu o casal na cama coberto com um lençol.

Ontem, a promotora trancou-se em sua sala, no Fórum de Pinheiros, para concluir a denúncia. Sato foi proibido por seus superiores de falar sobre as novas apurações. Marrey disse que não fala sobre o assunto "em hipótese nenhuma". O delegado Sampaio, que trabalha na Delegacia de Polícia de Peruíbe, também.

O advogado José Carlos Dias, que defendeu Jorginho, pretende esperar a decisão da promotora para pronunciar-se.

www.estado.estadao.com.br/edicao/ pano/99/05/18/cid583.html

Sobe

 

 

 

Mortes e mistério no reino da Himalaia

PARAÍSO SANGRENTO: único reino do mundo regido pelo hinduísmo, o Nepal perde sua condição de Shangri-lá ao se tornar palco de uma tragédia à altura de Shakespeare

O príncipe herdeiro do Nepal assassina os pais e mais sete membros da família e se mata. O tio assumiu o trono, mas a população acredita em conspiração.

Por Silvio Queiroz

É bem possível que Shakespeare tenha vindo à mente conturbada de Dipendra, príncipe herdeiro do Nepal, na noite de loucura (e bebedeira) em que assassinou os pais, o rei Birendra e a rainha Aiswarya, o irmão mais novo, príncipe Nirajan, e outros sete parentes. Foi o final trágico de um jantar em família no palácio real da exótica Katmandu, aos pés do Himalaia - cenário que aos olhos do Ocidente remete sempre à mítica Shangri-lá do Horizonte Perdido de Frank Capra. Enredo com sotaque britânico, como o de clássicos que Dipendra terá certamente estudado em Eton, a escola da nata da elite inglesa, incluídos os netos da rainha Elizabeth II, William (que um dia poderá ser rei) e Harry. Também Dipendra formou-se lá para ser o rei do distante Nepal. Na noite de 1.º de junho, alguma reminiscência sheakespereana terá assaltado o príncipe quando ele decidiu voltar ao salão, fardado e de arma em punho, ao invés de deitar-se para curar a embriaguez confessa. Para isso o tinham levado aos aposentos. Mas seu texto era outro: voltou e executou da família quantos pôde. Por fim, apontou a arma para si mesmo. Falhou apenas no último ato, talvez por falta de ensaiar a cena. Que acabou salva dois dias depois, quando o príncipe assassino-suicida morreu no hospital - aos 30 anos, mas não sem antes ter sido rei, em coma. Rei morto, rei posto, e a coroa acabou na cabeça de Gyanendra, irmão do falecido rei, até então uma carta fora do baralho no jogo palaciano. Só a tragédia pôde mudar seu destino, uma tragédia da qual o impopular príncipe-irmão estava convenientemente distante, um dos poucos membros da família real que não estavam entre os 20 convivas no jantar de 1.º de junho. Mas fantasmas ainda o assombram, no palácio e fora dele - outra reminiscência shakespereana? Porque, embora não estudem em Eton, nem provavelmente tenham noções de teatro clássico, os empobrecidos súditos nepaleses têm sua própria versão para o regicídio. Nela, morrem um rei amado e bondoso, que há dez anos abdicou dos poderes absolutos para sufocar um levante popular sem banho de sangue, submetendo-se a um regime constitucional, e seu filho e herdeiro igualmente amado. Sobe ao trono o tio vilão, adversário da reforma parlamentarista, que leva de contrabando para a posição central da dinastia um filho que, aos olhos do povo, é quem tem o phisique du rôle para o papel reservado ao primo Dipendra na versão oficial. Paras, o novo príncipe herdeiro, é o beberrão contumaz, truculento e arruaceiro, mais impopular até que o pai. Entre outras façanhas, porque atropelou e matou o cantor mais popular do país. Mas no único relato feito até aqui por uma testemunha ocular do massacre no palácio real, Paras emerge como herói. Teria sido ele quem protegeu com o próprio corpo os demais sobreviventes do massacre que, como o próprio príncipe, saíram ilesos da balaceira. Difícil de acreditar, mais ainda de aceitar, para muitos dos súditos que, na manhã seguinte à tragédia, foram para a frente do palácio, em Katmandu, exigir explicações. Eles protestaram por dois dias seguidos, até serem demovidos pelo Exército, que jogou duro amparado por lei marcial - e matou ao menos dois manifestantes. Até então, o silêncio oficial era completo em meio a uma tempestade de rumores, que tinham como centro uma áspera discussão do embriagado Dipendra com os pais. A pivô da trama seria uma bela jovem de origem indiana, Devyani Rana, filha de influente parlamentar e neta de marajá - dos autênticos, ou seja, um potestado indiano. O herdeiro teria escolhido Devyani para um dia ser sua rainha, mas a mãe não a aceitava. Enlouquecido de paixão, irredutível no compromisso com a jovem e ameaçado de ser deserdado - sempre segundo as versões que vazam do palácio desde a noite fatídica -, Dipendra teria chegado já embriagado ao palácio real, por volta das 20h20. Foi minutos mais tarde que a única testemunha a fazer um depoimento público, o capitão médico Rajiv Shahi, genro do príncipe Dhirendra (o outro irmão do falecido rei), diz ter ajudado o príncipe Nirajan a levar do salão para seus aposentos o irmão mais velho, tão embriagado que caíra seguidamente. Paras, segundo o relato, estava junto. Shahi, que descreveu os acontecimentos com o rigor técnico e a linguagem precisa de médico e oficial, não se preocupou em explicar como o cambaleante príncipe teria sido capaz, minutos mais tarde, de fuzilar nove pessoas com tiros certeiros, usando três armas diferentes, inclusive um fuzil automático M-16. Tudo em minuto e meio, segundo o médico, que estava em um aposento contíguo àquele onde o rei Birendra recebeu os primeiro tiros. "De início, pensei que fosse alguém tocando pranka", relembrou Shahi. "Aí, ouvi gritos e alguém dizendo que Sua Falecida Majestade havia sido baleado. Como médico, corri para socorrê-lo. Tirei o paletó e tentei estancar o sangue que jorrava do pescoço". O capitão-médico, cujo casamento com a filha do príncipe Dhirendra lhe abriu as portas do palácio, contou ter visto o príncipe herdeiro transitar entre os aposentos enquanto atirava. O primeiro que tentou contê-lo foi abatido ali mesmo aos pés do rei: Dhirendra. "Depois, ele começou a atirar sem critério em cada um que se aproximasse", continua o depoimento. Dipendra teria em seguida caçado a mãe, nos jardins. Foi onde - sempre segundo Shahi - o "até então herdeiro" teria executado o irmão mais novo, Nirajan, que se teria interposto entre ele e a mãe. "Depois, ouvi mais tiros e alguém mais disse que o então herdeiro havia se matado. Foi ele que assassinou Sua Majestade. E ninguém que toque no rei continua a ser o que era depois disso: agora, Dipendra se tornou apenas um assassino". Tanto quanto o teor do relato é conveniente para o novo monarca e seu filho playboy, o momento em que apareceu foi providencial. E suspeito, para os não poucos insatisfeitos. Na quinta-feira, os nepaleses liam aturdidos os jornais, que pela primeira vez falavam com abertura sobre os acontecimentos - com exceção da publicação de um artigo sobre o assunto, escrito por um líder (clandestino) da obscura guerrilha maoísta que promove uma "guerra popular" em pleno Himalaia, ousadia que custou a prisão de um de seus donos. No mesmo dia, começavam os trabalhos de uma comissão designada pelo novo rei para investigar a chacina: dois deputados, sem auxílio de legistas, o que provocou protestos da oposição comunista, uma espécie de versão moderada e institucional da rebelião maoísta. "Pode escrever: 95% dos nepaleses não vão acreditar nisso", garantia aos jornalistas ocidentais um dos muitos incrédulos imersos nos últimos dias em rodinhas conspirativas nas ruelas do setor histórico de Katmandu. "E os guardas, onde estavam?", questionou outro súdito, inconformado com a idéia de que "o amado príncipe" possa ter matado os próprios pais, algo tanto mais estranho no único reino do mundo regido pelo hinduísmo. Mais estranho que tudo, porém, parecia o fato de o príncipe Dipendra, um destro notório, ter se suicidado com um tiro na têmpora esquerda - o que seria natural para um atirador canhoto. Como parecia incongruente a descrição do irmão mais novo, o príncipe Nirajan, sendo fuzilado quando se colocou à frente da mãe para protegê-la do primogênito parricida - isso porque o jovem príncipe teria recebido o tiro pelas costas.

www.jt.estadao.com.br/suplementos/ domi/2001/06/10/domi005.html

 

Sobe

 

 

 

Uma briga em família

terminou em tragédia na tarde de quinta-feira, no município de Guatambu, no Meio-oeste do Estado. O menor V.A., 16, matou o próprio pai, Arquilino Ársego, 49, com uma paulada na cabeça. O fato aconteceu na propriedade da família, na comunidade de Linha Patussi, logo depois do meio dia. O incidente chocou a população do pequeno município, que tem pouco mais de quatro mil habitantes. O menor, que está arrependido e inconformado, foi isolado do restante família por motivo de segurança. Segundo a Polícia Militar, que foi chamada pelo menor logo depois do incidente, a briga começou com uma discussão fútil. Arquilino Ársego, que era bem visto na comunidade onde morava, um pouco alterado por causa da bebida, teria atirado um prato no menor. V.A., revoltado com a atitude do pai, teria revidado com o primeiro objeto que encontrou: um pedaço de madeira do tipo que é picado para ser colocado no fogo. O menor atirou o pedaço de lenha, que atingiu em cheio a cabeça do pai, causando-lhe traumatismo craniano. Quando percebeu que o ferimento era sério e que o pai poderia morrer, V.A. saiu desesperado de casa à procura de ajuda e chamou a polícia. Atendido por um vizinho, ele conseguiu levar Arquilino até a unidade do Corpo de Bombeiros do bairro Efapi, em Chapecó. O pai recebeu os primeiros socorros e logo em seguida foi levado ao Hospital Regional do Oeste, em Chapecó, onde passou por cirurgia, mas acabou morrendo, na madrugada de ontem. Depois de encaminhar o pai ao hospital, o menor procurou a polícia e relatou o ocorrido. Quando alguns familiares ficaram sabendo da briga, tentaram agredir o menor, que foi levado a um local seguro e isolado por sugestão da polícia e com o consentimento da mãe. Como V.A. se apresentou e chamou a polícia para contar o que aconteceu, ele não deve ser preso. Mesmo assim a polícia informou que ele será processado e deve permanecer à disposição da Justiça. O sepultamento de Arquilino Ársego deve acontecer na manhã de hoje, na comunidade onde reside a família.

www.an.com.br/2001/jul/28/0pol.htm

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