Desarmamento
infantil e androginia
Dr. Heitor De Paola (*)
21,
Abril/2005
Resumo:
Além de médicos semideuses que
dizem o que podemos fazer ou comer de “saudável”, temos
também a re-engenharia do sexo masculino na etapa fundamental
da formação do ser humano, a infância.
O fato de que
os homens e as mulheres são diferentes ofende as sensibilidades
dos modernistas. As feministas deveriam mesmo é processar
Deus por dar às mulheres seios, vaginas e um instinto
maternal e por dar aos homens pênis, testosterona, ética
de guerreiro e uma inclinação natural de servir (e proteger
o que costumava ser chamado de o sexo mais frágil). Por
isso, fingimos que os homens e as mulheres são produtos
substituíveis — que qualquer coisa que ele possa fazer,
ela pode fazer melhor — ou então bem do mesmo jeito.
Dan Feder
Contrary to what
many feminists argue today, (…) boys are not deformed
by society’s conditioning. They do not need to be rescued.
They are not pathological. They are not seething with
repressed sentiments or imprisoned in “straitjackets”
of masculinity. Being a boy is not a defect in need of
a cure.
Christina Hoff Sommers,
Autora do livro The War Against Boys.
Se as campanhas
pelo desarmamento dos cidadãos de bem são relativamente
recentes, as que defendem o desarmamento infantil já existem
há décadas. Explicando o que entendo por “desarmamento infantil”:
a idéia obtusa e psicologicamente fajuta de que “crianças
não devem brincar com armas”. Já houve campanhas de boicote
contra indústrias que fabricam armas de brinquedo, tentativas
de proibição legal de tais brinquedos, até mesmo campanhas
para a meninada entregar suas armas para serem destruídas
– vi uma vez uma cena pungente de meninos tristíssimos e
mamães exultantes estimuladas por alguma ONG da chamada
“cultura da Paz”, enquanto seus “perigosíssimos” brinquedos
eram destruídos por um trator. Toda esta idéia se baseava
num lamarckismo ultrapassado que diz que impeça as crianças
de brincar com armas e, em uma ou duas gerações não haverá
mais violência armada no mundo, pois criança que brinca
com armas desenvolve uma cultura de violência. Disse lamarckismo
como poderia dizer behaviorismo de Skinner ou, reflexologia
pavloviana, em que se ensinam crianças como os cães, cujas
reações não vão muito além do reflexo condicionado.
Só que as crianças
possuem um aparelho mental altamente sofisticado que é capaz
de distinguir entre brincadeira e realidade melhor do que
a maioria dos educadores modernos. Se eles brincam no playground,
p. ex., de personificar o rei-leão, isto não significa que
algum dia vão sair caçando antílopes só com as mãos – ou
que se brincam de polícia e ladrão, que vão enfrentar um
bandido de verdade com armas de brinquedo ou vão assaltar
alguém. Quem perdeu o senso da realidade não foram as crianças
mas os formuladores das modernas técnicas educacionais.
Um estudo realizado em Rochester, NY, pelo Escritório de
Justiça Juvenil e Prevenção da Delinqüência dos EUA (http://www.ncjrs.org/pdffiles/urdel.pdf)
provou mais longe ainda: entre as crianças do primeiro e
segundo grau que tiveram acesso a armas de fogo de verdade,
através de seus pais, nenhuma veio a cometer crimes com
armas de fogo, além de se beneficiarem por terem aprendido
precocemente a lidar com instrumentos tão perigosos.
*****
Mas antes de
prosseguir é preciso situar o tema num contexto mais amplo,
o da evolução – ou involução? - do sistema educacional.
Até poucas décadas atrás a educação era meramente informativa.
Os pais punham os filhos na escola para que estes fossem
informados daquilo que eles próprios não eram capazes, mas
estes retinham total ou parcialmente o poder na formação
de seus filhos. Parcial no caso dos pais religiosos que
delegavam à escola parte de seu poder formativo no que se
refere à religião e à moral. Total, no caso de pais que
optavam por ensino público ou privado laico. A escola restringia-se
à área intelectual. Aos poucos, num movimento paralelo entre
a onipotência da casta professoral e gerações de pais inseguros
de suas próprias crenças – cuja formação, por sua vez, já
fora insegura – e ávidos por abrirem mão do peso de darem
formação a seus filhos, foi-se estabelecendo a crença de
que a escola, além de informar, tinha também um papel formativo.
Mais e mais a casta professoral foi assumindo arrogantemente
o papel de semideuses na vida das crianças, freqüentemente
competindo com os próprios pais. Falo aqui exclusivamente
de países com um certo grau de liberdade e democracia; nas
ditaduras é muito pior: o Estado onipotente educa as crianças
para serem escravas da ideologia totalitária. Mas mesmo
as democracias mais perfeitas não são invulneráveis às sutis
atitudes ditatoriais dos mestres sobre as crianças – que
se encontram num estado altamente sugestionável – principalmente
quando em casa não encontram o que precisam para sua formação.
Enquanto a casa permite uma formação individual e conseqüentemente
plural, a escola só pode dar uma formação coletiva, uniformizada.
Com a entrada em cena no século passado das teorias coletivistas
e igualitárias, esta tendência cristalizou-se numa ideologia
que nada fica a dever à escravidão totalitária dos países
comunistas – mesmo que os mestres, conscientemente, se digam
ou mesmo adotem posturas liberais em suas vidas pessoais,
mediante uma dissonância cognitiva que resulta da corrupção
mental que as ideologias promovem.
Finalmente, o
golpe de misericórdia, o desastre final. O desenvolvimento
da psicologia e sua aplicação à educação através da psicologia
educacional e da psicopedagogia levaram as escolas a se
tornarem, além de formativas, terapêuticas! Ou melhor dito,
arrogantemente pseudo-terapêuticas. O método educacional
mais adequado para se desenvolver esta seqüência (informação
à formação à terapia) é o construtivista, inventado por
Maria Montessori e utilizado desde 1907. Em suas próprias
palavras: educação não é o que o professor dá, mas um processo
natural espontâneo levado a efeito pelo indivíduo, não através
de escutar palavras mas de experiências no ambiente. (...)
A tarefa do professor é preparar uma série de motivos culturais
num ambiente especialmente preparado (...) Os professores
humanos só podem ajudar o grande trabalho que está sendo
feito, como servos ajudam seu senhor (...) Assim poderão
testemunhar o desvelar da alma humana e o surgimento de
um Novo Homem (...). Não por coincidência Montessori era
médica psiquiatra. O Programa de Educação Infantil baseado
no construtivismo estrutura-se no conceito de educação integral
(cuidar e educar), visando o desenvolvimento da criança
na sua totalidade: cognitivo, psicomotor, físico, social,
intelectual, afetivo. A psicologia escolar tem como objetivo
assessorar o trabalho pedagógico. Na escola montessoriana,
a criança encontra um ambiente preparado para o seu aprendizado,
o que permite a autoconstrução de seu desenvolvimento cognitivo
e psicomotor. Quando isso não acontece, o professor funciona
como um investigador para saber o que há de errado, tendo
o acompanhamento do psicólogo na busca de “soluções".
Mas o construtivismo
não passa de uma falácia, uma utopia. Mesmo sem ter sido
esta a intenção de sua criadora, foi e continua sendo um
meio fértil para a introdução das ideologias coletivistas
e a preparação, entre outras coisas, de um mundo andrógino
e portanto anódino. Pois o tal ambiente preparado pode ser
preparado para qualquer coisa e utiliza-se a noção de autoconstrução
para esvaziar a mente dos alunos dos valores que traz de
casa e “construir os seus”. Ora, isto é uma impossibilidade,
a criança aprende inicialmente imitando; só posteriormente
irá fazendo suas próprias opções e criando outras. O que
ocorre é uma verdadeira lavagem cerebral, bem ao gosto dos
sistemas totalitários. Pode-se, então, introduzir qualquer
coisa como se fosse “construção” ou “criação” da própria
criança, aumentando falsamente a auto-estima. Nada mais
eficaz do que o doutrinado acreditar que inventou a doutrina.
Os métodos para isto são bem conhecidos: mastering learning
(dominando o aprendizado), técnica que usa modificações
comportamentais para mudar crenças, atitudes, valores; o
estudante deve “dominar” o que aprende até acreditar que
é seu e passar a novas “aquisições”, sucessivamente; cooperative
learning (aprendizado coletivo), ensino não mais individualizado
mas através de grupos nos quais os mais capazes e/ou mais
estudiosos “puxam” os demais e o grupo recebe uma nota comum,
eliminando a competitividade e o individualismo e estimulando
a cooperação – certamente ao promover o coletivismo acaba
baixando o nível de aprendizado, nivelando por baixo; consensus
building (construindo o consenso), sendo que o “consenso”
é sempre ditado pelos mestres e suas ideologias, embora
com a aparência de “criação do grupo”, mudando crenças através
da pressão para se conformar com o pensamento grupal (é
uma forte tendência das ideologias coletivistas resolver
tudo pelo consenso, execrando o método de votação pelas
maiorias); e finalmente, conflict resolution (resolução
de conflitos) e é aí que entram os onipotentes psicólogos
educacionais e psicopedagogos utilizando técnicas psicológicas
para manipular os sistemas de crenças e valores da criança,
“negociando” antigos valores absolutos aprendidos em casa
por soluções de compromisso, o mais das vezes levando à
mesma dissonância cognitiva de que estão tomados. O aluno
que não se conforma e tem idéias próprias e as defende,
está errado e precisa terapia para se adaptar ao pensamento
grupal, que não passa da ideologia dos mestres e psicólogos!
É a psicologia a serviço da plastificação deformadora, a
antítese de qualquer processo terapêutico sério! É por isto
que já se esboça uma reação nos EUA e na Inglaterra: o retorno
ao homeschooling, aprender em casa com mestres escolhidos
pelos pais e por eles monitorados.
***
Já é tempo de
retomarmos o tema original, deixando para outra oportunidade
a continuação de tão fascinante estudo. A experiência britânica
sugere que os meninos respondem melhor às formas tradicionais
de ensino e são os que pagam mais caro pelos novos modismos
educacionais, principalmente o desestímulo à competitividade
e a abolição do antigo sistema de avaliação individual.
Janet Daley, do Daily Telegraph diz: “Um mundo no qual ninguém
pode ser chamado (individualmente) de vencedor e não existem
perdedores, não exerce nenhuma atração para a mente dos
meninos”. E este é um dos objetivos que se pretende alcançar
através das técnicas faladas acima: eliminar ou diminuir
ao máximo as características masculinas que são o grande
óbice ao avanço do coletivismo. As mulheres, mais passivas
e receptivas, são mais adaptáveis a valores tais como cooperação
e dar de si mesmas o máximo para outrem – nisto reside a
característica maternal. Os interesses, preferências e comportamentos
característicos de machos e fêmeas são biologicamente diferentes
e, por conseguinte, as diferenças de estilo emocional também.
Mas as modernas teorias sócio-psicológicas – que orientam
a psicopedagogia – estatuem que as diferenças são oriundas
de condicionamento social imposto por uma cultura patriarcal
para subjugar as mulheres. Na verdade, estas dúvidas é que
vêm sendo “plantadas” por condicionamento, desde a segunda
metade do século passado, pois até ontem se sabia que as
diferenças entre meninos e meninas vão muito além dos caracteres
sexuais secundários físicos.
De maneira geral,
os homens são mais reservados quanto às suas expressões
emocionais, não têm nenhum interesse em “discutir relações”
ou em se abrir. O uso de turmas mistas tem servido ao propósito
de humilhar os meninos, dizendo a eles que eles devem, como
as meninas, serem mais abertos às experiências emocionais.
As técnicas acima apontadas são utilizadas, principalmente
o conflict resolution, para caracterizar a reserva natural
dos meninos como “algo que não vai bem”, no fundo que é
uma patologia que os homens não sejam como as mulheres.
Na Inglaterra já toma corpo a tendência a retornar às turmas
separadas por sexo com diferentes métodos pedagógicos. Mas
isto não interessa aos grupos feministas e gays que pressionam
no sentido de eliminar estas óbvias diferenças e para tanto
inventaram até um neologismo que vem se espalhando como
metástases cancerosas: o sexo está morto, viva o gênero!
Este absurdo invadiu até as mais vetustas associações psiquiátricas
e psicanalíticas que rapidamente aboliram a abominável palavra
sexo pelo neologismo politicamente correto. Ora, tratam-se
meninos e meninas como se fossem automóveis e cadeiras que
pertencem – aí sim – a gêneros distintos.
Tenta-se fabricar
um mundo futuro de andrógenes – seres nem homem nem mulher
– mas não às custas de renúncias por parte de ambos os sexos
mas de abolição das características psicológicas masculinas,
patologizando-as. Além da medicalização da Sociedade – com
médicos semideuses que dizem o que podemos fazer ou comer
de “saudável” - que atinge ambos os sexos, temos a psicologização
que age como uma re-engenharia do sexo masculino nesta etapa
fundamental da formação do ser humano, a infância. Outra
sandice politicamente correta é convencer os homens de que
não são as mulheres que engravidam, mas o casal: estamos
grávidos, uma rematada tolice que faz enorme sucesso – mesmo
que o cara nem saiba se o filho é dele, um dos maiores pesos
da condição masculina! Mas esta é uma das mais sutis expressões
da androginia: um ser psicologicamente híbrido, que contrasta
com as formas mais cruas e mais fáceis de rejeição, como
o travestismo, o transformismo, a “transexualidade”, tão
em voga. O Brasil, como não poderia deixar de ser, além
de um aplicado imitador de bobagens alheias, inova sempre
para pior: já circula um folder do Programa Nacional sobre
a AIDS do Ministério da Saúde – mas com a indefectível chancela
da OMS - denominado “O Travesti e o Educador – Respeito
também se aprende na escola”, com regras para orientar os
mestres a como se comportarem com travestis, e as escolas
a respeito de novas instalações sanitárias.
Ora, por que
proibir os meninos de brincarem com armas? Porque desde
tempos imemoriais são os homens os encarregados da caça,
da defesa da família e do território e as brincadeiras infantis
com armas são treinamentos seríssimos para exercer esta
função, enquanto as meninas brincam de bonecas, também preparando
sua futura função maternal. Proíbam-se os meninos de brincar
de polícia e ladrão e teremos futuramente uma sociedade
adulta amorfa e indefesa e massa de manobra fácil para totalitários
e tiranos. Não por condicionamento lamarckiano mas por pura
e simples falta de treinamento. Ao não permitir o treinamento
mais importante – a brincadeira infantil – consegue-se abolir
o adestramento necessário para a defesa. A melhor ditadura
é aquela em que os oprimidos pensam que são eles que mandam
e aceitam tudo passivamente.
Originalmente, este
artigo foi publicado no Mídia Sem Máscara
www.midiasemmascara.org