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WTC
11 de Setembro de 2001

 

Rio de Janeiro, 27 de Setembro de 2001

Querida amiga,

 

Naquela manhã tenebrosa de 11 de Setembro/2001, por ter ido dormir muito tarde, trabalhando feito louca, ou seja, às 7:00h da manhã, acordei às 17:00 ( cinco da tarde ). O Zé, meu marido chegou logo em seguida, em tempo de me pegar fazendo as primeiras abluções — lavando o rosto, essas coisas — e sabe o que ele me disse, antes mesmo de me beijar?

— O mundo está acabando. Você não sabia?!

Até aqui eu estou contando, porque na hora fiquei zangada pensando que ele estava dizendo isso porque eu estava levantando àquela hora. Aos poucos ele foi me contanto sobre os ataques terrorista à minha preciosa Nova Yorque. Ele sabe o quanto amo o cheiro da manhã em NY. Cheiro de frituras doces e salgadas, misturando-se com perfume de frutas...e o buliço das ruas e avenidas. Mesmo em Long Island, com aquele jeito bucólico de São Conrado em garrafa maior.

Depois que ele me contou mais ou menos os acontecimentos, corri para a TV, liguei o rádio na CBN e fiquei olhando para a tela, e ouvindo o rádio, tudo de uma só vez, vendo e revendo o horror.

Dos nossos filhos, só o mais novo estava em casa. Ficamos, o Zé, nosso filhos e eu, lá só olhando para a tela da TV olhando os alucinados dos boeings entrando e explodindo nas torres. Não sei depois de quanto tempo comecei a me sentir dormente por dentro. Seca, depois que todas as lágrimas ( ainda bem que os homens da religião islâmica reconhece que a natureza da mulher permite que ela chore, pois se assim não fosse, eles iriam precisar de muitas bombas para nos matar a todas pela fraqueza ) parecia que haviam se esgotado. Nós todos - os três - começamos a sentir uma espécie de sufocação.

Uma angústia, que dava a impressão de você querer telefonar para todo mundo ou ir para a Avenida Airton Sena e lá encontrar todo o pessoal da Barra, São Conrado, Jacarepagua...todo mundo, mesmo que não se conhecessem. Podia ser o Largo do Machado, qualquer lugar onde tivesse muita gente pra trocar as dores. Era uma dor muito intensa, difícil de suportar sem alguém do lado.

Meu Deus, vi corpos brancos ( deviam estar vestidos de branco, ou talvez refletissem toda a luz natural e das labaredas ) flutuando no ar até alcançar o chão, e me lembrei do incêndio do Joelma, lá em São Paulo, quando o Zé, que naquela época trabalhava no Citybank e ia para uma reunião no Joelma mesmo ( ele cancelou a viagem, por obra do Todo Poderoso, as Forças do Universo ). Mais uma vez repetiam as cenas dos aviões sendo arremessados contra as Torres. Contra uma, depois contra a outra. A fumaça, os rostos das pessoas nas ruas..tenho certeza de que muitas chegaram a pensar que era tomada de cena para filme. Muitos que já estavam com a ficha na cabeça, tinham as feições de quem estava em estado de choque.

Os prédios "implodindo". Hittler não teria conseguido fazer um trabalho mais terrível. Sem recorrer aos problemas políticos, enquanto chorava, eu pensava que há gente que constroi e gente que destroi. Fiquei pensando em todos os meus amigos que moram nos locais dos holocaustos. Mesmo os que moram distante, noutros estados e cidades. Mas, se eles estivessem em NY. Essa angústia me roia por dentro.

Lá pras tantas, eu queria mais era sair porta a fora. Meu filho disse, "mãe, eu não agüento e vou dar um rolé". O Zé e eu telefonamos pro Jarbas e fomos nos encontrar no Baixo Gávea. Mas o ar, o tempo tinha gosto e cheiro de sangue. Uma brutal sensação de impotência e ao mesmo tempo, total descrença na verdadeira essência humana.

Claro que fico feliz em saber que você não foi vítima fatal. Não se feriu físicamente. Sei também, que você sofreu tanto ou mais que eu. Mas não é só isso. Sabe, assim, quantos se foram levados pela inveja, ódio e lavagem cerebral de doentes irrecuperáveis. Sei, o mundo não é justo, a vida tem suas próprias leis mas, só dá para aceitá-las quando naturais.

Antes que eu me esqueça, é importante que você aí, vá ajudando aos americanos não deixarem que a dor imensa que eles estão sentindo os façam agir com descontrole. Nada que, nem de leve se pareça com os animais como os +#%$^ que cometeram esse ato perverso. Você vive aí no país deles, usufruindo de uma vida que você sabe, não poderia estar tendo se morasse no Brasil. Penso que você vai concordar que esta é a melhor maneira de agradecê-los pela hospitalidade.

Querida, esperamos vê-la muito em breve, de volta ao seus domínios e ao Domínio Feminino.

Um beijo grande.

Bina

PS: quando responder essa carta mande para o endereço abaixo, ok?

dominiofeminino@Gmail.com

 

 

                    

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