| Com certeza,
que há um bom motivo para que a sra. Eunice Rosa esteja aqui, como representante
do Servidor Público. Aconteceu
num mês de Agosto de 199..(?), logo no início do primeiro governo
do Presidente Fernando Henrique Cardoso. Havia
lido num jornal uma notícia de rodapé, sobre um bom capital que
estava sendo liberado pelo BNDES, para uma empresa multinacional. Uma linha polpuda
para não gerar nada que justificasse tanto dinheiro, enquanto eu e 99,99%
dos empresários brasileiros, pequenos como eu, ficavam à míngua,
sobrevivendo apenas aos minutos presentes. Minha
dignidade me impedia de ficar quieta. Bom, vale ressaltar que a nota de rodapé,
lida no jornal, já estava em seu segundo dia de publicação.
Acostumada com notícia, desconfiei dos objetivos. Se era para ver se alguém
se indignava, já havia acontecido. E saibam que, notas de rodapé
dizem, muitas vezes, coisas mais importantes que as manchetes. E aquela era uma
nota importante, com certeza, alguém queria dizer mais do que constava
no espaço. Àquela
época não se usava e-mensagens e sim fax. Sentei-me ao computador
e escrevi uma carta terrível ao Presidente da República. Telefonei
e pedi a alguém que recebesse o meu fax e o encaminhasse para o Presidente.
A carta chegou ao destino e depois tomou um caminho longo, até que, um
dia, vieram os primeiros resultados. Contatos, respostas e a coisa foi seguindo.
Enquanto isso eu movia-me mexendo Céus e Terra. Bom
é dizer que, o produto que minha empresa fabrica não é lá
muito consumido no Brasil. Meio artigo de luxo, embora pudesse resolver um tanto
dos nossos problemas mais graves. O segmento de mercado no qual eu atuava e, menos
agora, sempre preocupado com o imediato. Natural. Mas eu lutava em busca de uma
linha de crédito especial, não daquele tipo " a fundo perdido"
de acordo com nossa cultura empresarial, que pudese servir a todos. Fiz
contato com o Ministro Executivo da pasta a qual está ligado meu ramo de
atividade, enquanto por outro lado, pesquisava respostas e soluções
para apresentar ao " ministro ". Foi
exatamente aqui, nesse pedaço, que entrou a Sra. Eunice. Bom, ainda era
mês de Agosto, quando resolvi telefonar para o BNDES em busca de informações
que jamais chegavam aos cidadãos normais e mortais. Ao meu telefonema atendeu-me
uma senhora jovem a quem eu disse que queria falar com o presidente do BNDES.
Sabia eu, o nome da pessoa importante a quem eu deveria fazer as tais perguntas
para informar-me. Diante
do meu " desejo " de falar com o p-r-e-s-i-d-e-n-t-e do B-N-D-E-S, o
leitor pode imaginar que eu não sairia impune. Aconteceu de ouvir o famoso
" quem desejaria falar " ( se pudesse falar? ) . Identifiquei-me, apenas
com o nome mas não houve maneira de eu satisfazer os procedimentos. Ai,
eu me enfureci. Disse-lhe que meu nome não fazia nenhuma diferença,
mas que a minha cidadania, o número da minha identidade era tudo que eu
aceitava indentificar e disparei a cuspir números. Antes,
certifiquei-me de que estava falando para o Triângulo das Bermudas.
Enquanto me contorcia
na minha cadeira anti-anatômica, rodante, catava minha pequena sacola onde
guardo título de eleitor, CPF, essas coisas sem a menor utilidade. Estiquei-me
toda e alcancei a maledeta. Tudo isso em frações de segundos, o
suficiente enquanto dizia o número da minha identidade do Instituto Félix
Pacheco, que por sorte sei de cor. Com o cartão, inútil do CPF na
mão já podia ler a maravilha. Ai, desandei a falar sobre a minha
importância: dava meu sangue para pagar todo aquele luxo dos Triângulo
das Bermudas - como é conhecido o triângulo formado pelo extinto
BNH, BNDES e PETROBRÁS- fazia parte de uma classe que sustenta qualquer
economia nas costas, em qualquer lugar do mundo e por aí foi o discurso
furibundo. A
pobre moça que me atendia, deve ter pensado que deixaram todo o pessoal
do Pinel informado do telefone da Presidência do BNDES e me passou para
outra pessoa, uma senhora, doce e paciente com bêbados, crianças,
loucos e incautos. Ela informou-me da impossibilidade de falar com o presidente
dela, naquele momento, mas que iria me passar para um Diretor que poderia me dar
todas as informações das quais eu precisava. Não precisa
dizer que não fiquei tão-satisfeita, mas já era alguma coisa.
Encontrar um funcionário público consciente e disponível
para servir ao contribuinte, era sinal de que alguma coisa havia de errado, ou
de muito verdadeiro. Ainda
neste mesmo dia, entre emocionada e estarrecida, fiz um fax para a Sra. Eunice
dizendo o quanto ela foi importante, com a prestimosidade, seriedade com que fui
atendida. Disse-lhe sobre o que nós, cidadãos ( eles também
são ) esperamos deles e que raramente encontramos quem se aproxime do ideal
de servidor público e venha em socorro do tonto do cidadão. Verdadeiramente
eu me senti importante. Dona Eunice Rosa me fez sentir que o Brasil, ainda, um
dia, poderia ser diferente. Precisamos apenas de mais Sras. Eunices Rosa no funcionalismo
público. Bastou-me número de identidade, CPF e falta de medo de
me impor em nome do meu direito de contribuinte e cidadã. Era o mínimo
que eu poderia dizer àquela senhora, para que o estímulo servisse
para outros perdidos como eu. E mais, para que ela tivesse a certeza de que ela
era importante para todo cidadão, pois naquele momento, ela representava
o Poder Público, o Estado e a própria Instituição
Financeira Estatal. Confesso que aquele dia, foi um dia verdadeiramente especial.
Após o meu
agradecimento, no dia seguinte, fiz contato com o tal Diretor da Carteira de Crédito
não-sei-lá-das quantas. Sujeito elegante, mas tão elegante
que fazia questão de me manter a quilômetros de distância,
tal a formalidade e impessoalidade impressa no tom da voz. Claro, ele não
deveria querer intimidades com esses contribuintes que se acham cidadãos,
ora! Até porque ele correria o risco de me ter telefonando outra vez e
mais outra, até que me pensasse íntima do BNDES e, pior, com direitos.
Aquele senhor é um sábio. Ele estava certíssimo. Voltei
a falar com a Sra. Eunice que me forneceu mais caminhos para buscar respostas.
Às vezes, eu tinha a sensação de que ela pensava que eu era
louca de jogar pedras, tal a delicadeza com que ela falava. De jogar pedras, não.
Ainda não. Passados
alguns dias em silêncio, outra vez, estava telefonando para a Dona Eunice.
Ela estava de férias. Aí, eu disse que queria falar com o Presidente
e dei o nome do moço. Não houve muita demora e afinal ele veio ao
telefone. Conversamos e eu - gentilmente o ajudei -. oferecendo algumas informações
para que ele pudesse viabilizar uma linha de crédito; sugeri formas especiais
de garantia, spread dos bancos e muitos etceteras. Fui de grande valia, para aquele
gentil senhor. O pior, é que eu desconfiava que ele me levava a sério,
tal o respeito e o tempo disponibilizado para nossa conversa ao telefone.
As coisas foram tomando
rumo, o Secretário Ministro fez contato comigo e sugeriu que eu reunisse
meus pares para uma reunião inédita: Estado, Governo querendo conversar.
Isso no Brasil! Aconteceu. Meu medo era o Presidente Fernando Henrique não
ser reeleito e o projeto ir por água abaixo. Ele foi reeleito. Mais tempo
e afinal saiu a famigerada Linha de Crédito Especial. Só que agora
a minha empresa já está morta e o remédio não me serve
mais. Isso é que é futuro. O dinheiro está lá, mas
a minha empresa não pode nem babar de vontade. Desejo, sinceramente, que
alguma coisa tenha servido para meus pares e para o povo brasileiro. Morri
na praia! OBS
- Estou me lembrando de quando o Presidente do BNDES atendeu o telefone; poderia
tratar-se de um funcionário comum, fingindo ser o tal presidente. Poderia,
mas não era. Era o próprio. Quando eu digo o Presidente do BNDES,
não estou me referindo àquele que é indicado por ministros
e deputados e aprovado pelo Presidente da República; refiro-me ao sujeito
que toca o barco, funcionário de carreira que conhece sua Instituição
e a ama. A pessoa competente que está ali por concurso e muita dedicação.
Foi esse homem com quem falei e que só vim a conhecer, num rápido
contato, há muito pouco tempo. Maria
da Penha Veira |