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Entrevista
com o poeta
Roberto
Bittencourt
Em
23, Junho/2001
Pai também sente a síndrome do
ninho vazio
Ao necessitar
criar neologismo para uso próprio — pãe
—, Roberto Bittencourt corrobora a negação que
nossa cultura impõe ao sentir masculino/paterno. Desumanos
paradigmas sociais, inclusive.
A abertura
dessa oportunidade para uma discussão desses paradigmas,
esbarram sempre no medo da perda do controle do uso do poder.
O receio da fragilização masculina.
A mulher/mãe
pode assumir, nesse aspecto, mais essa função
de intermediadora ou mediadora ou conciliadora, para ajudar
a compor acordos relacionais pai e filho(s). Da mesma maneira
que o homem/pai deveria proceder, sem necessidade do uso do
poder autoritário.
Em tempos
de emancipação e independência feminina,
novos acordos que reinventem atitudes e posturas familiares
passam a ser urgentes, por força do distanciamento físico
entre mãe e filhos em função da profissão
e das necessidades modernas.
A figura
do pai já não é mais a função
do simples provedor material único e detentor do poder
central. Ele passa a exercer a função de provedor
de afeto, cuidados direto para com os filhos. Começam
aqui as descobertas cheias de perplexidade. Esse homem perplexo
com a profusão de novos sentimentos, desconhecidos para
outras gerações, tenta desesperadamente aprender
como lidar com as emoções que funcionam , ainda,
como ameaças.
DF —Pai sente a síndrome
do "ninho vazio" ?
Roberto
— Existem pais que podem ser chamados de "pãe" - pai
que é uma "mãe — protetor, benevolente, carinhoso,
compreensivo.
De qualquer
forma o mais importante a considerar na "sindrome do ninho vazio"
é o papel "mãe" definido pela cultura, isto é,
"mãe" é aquela que deve ser a responsável
pelos cuidados da ninhada e que, com a independência/partida
do filho, perde sua função social, sua identidade.
Além disso, ambos, pai e mãe, são os representantes
da lei e da moral que devem ser impostas ao filho, ou seja, os
principais agentes transmissores da cultura de geração
após geração, papel que desempenhamos sem
contestar. Por isso os jovens, ainda não totalmente condicionados
pela cultura, podem desconstruir os valores da ordem social que
seus pais conservadores querem lhes impor. A "Sindrome do Ninho
Vazio" é um sintoma resultante da cultura que nos condiciona
e não faz parte das necessidades psíquicas naturais
nem do homem nem da mulher. É anti-natural o desejo de
conservar o filho no "ninho" para sempre apenas para atender uma
demanda psiquica artificialmente criada pela cultura que fixou
os comportamentos da função "mãe" e da função
"pai", aliás, muito bem especificados.
DF
— Quando e como foi que você se deu conta de que seu filho
era um homem e não mais uma criança?
Roberto
— Quando minha as "minhas verdades" começaram
a ser questionadas.
DF — Quais foram os "sintomas"
com relação ao comportamento dos filhos?
Roberto
— Contestação, desobediência, independência
se é que esses comportamentos possam ser patologizados
como "sintomas" e nem as suas conseqüências o poderiam
- sono, baixo desempenho acadêmico, isolamento, afasia,
que são meras conseqüências de um modo de vida
"desregrado. Afinal, "adolescer" ( etmologicamente, doer, adoecer
) é um processo natural, doloroso, é verdade, mas
faz parte da vida. O problema é que nós,adultos
pais, esquecemos ou queremos esquecer que a vida é um processo
contínuo que preferimos estratificar em hábitos
e costumes que nos poupam energia, cansados que já estamos
da luta que nossos filhos apenas iniciam. Deixamos, há
muito tempo, de ser "aprendizes" e nos ïnstalamos comodamente
na posíção de poder do "já sabido".
DF — E os "sintomas"
do pai, como auto-estima?
Roberto
— Normalmente, quando se fala em "auto-estima" referimo-nos
ao "orgulho", relacionado ao "ego", ao "eu", ao "eu sou", tanto
faz que esse "eu" seja isso ou aquilo, portanto, vincula-se ao
desejo de onipotência, ao do "todo", que não é
nada, e que pretende impor ao outro "tudo", a "verdade", as "certezas".
Mas seja o que "auto-estima" signifique, a contestação
dos adolescentes exige a humildade de se reconhecer que não
somos - nós, os pais - "donos da verdade", nem do "saber",
e que as únicas "certezas" de que dispomos são aquelas
que, a muito custo, só conseguimos aprender vivendo.
O amadurecimento
dos filhos, sempre acompanhado do desejo de autonomia, liberdade,
independência, provoca em nós a sensação
de perda, a perda da imagem do filho, da representação
do outro em nós, o duplo do outro em nós,aquele
garotinho que atendia a todas as demandas do nosso afeto e que
agora recusa-se a satisfazê-las, não aceitando mais
ser o objeto da descarga de nossas necessidades subjetivas e nos
impondo uma ausência dolorosa. A dificuldade está
em se aceitar essa perda — como se fora uma morte subjetiva —
do menininho que deixou de existir, realizar ritos de passagem,
como se fora um luto, e enfrentar a nova realidade, como se fora
um renascimento, uma metamorfose, deixando de ser o "pai" e para
ser o "amigo", segundo extrapolei do livro de Juan-David Nasio,
"O Livro da Dor e do Amor" que foi uma ajuda valiosa para o processo
de reconstrução em que estou empenhado. Gostei tanto
do livro que me apropriei da idéia para metamorfoseá-la
no poema abaixo:
LUTO
Estranho luto
Sem cronologia
Da morte morrida
Nem exterior nem do
amado
Interior, dentro de
mim
Morte dupla
Do amado em mim
E de mim que o amava
Estranho luto
Do vazio absurdo
Profundo, absoluto
Ecoando o grito lancinante
Da dor desmesurada
Permanente e implacável
Dos pedaços
de mim esmagados
Na contração
inevitável
Estranho luto
Da morte vivida
Depois de tantas outras
Cicatrizadas, antigas,
Talvez, dessa vez,
Sem energia vital
Suficiente para abraçar
Essa ausência
presente
Estranho luto
Da morte sem morto
Apenas espaço
oco
Jamais preenchido
Na metamorfose
De mim, que um dia
fui,
No que será
de mim
Ao fim desse luto
intenso
Estranho luto
"Do irremediavelmente
perdido
Que amo mais do que
nunca"
Roberto Bittencourt
DF
— A gestação masculina ocorreria ao longo da vida
quando chegado o momento de deparar com o sentimento de perda,
pela chamada síndrome do ninho vazio; não seria
esse, o momento do parto? O pai pari para em seguida "perder"
? A nossa cultura nega ao pai o direito de "dar a luz".
Uma outra qualidade de "parir". Seria por aí?
Seria um parto às avessas?
Roberto —
Que coisa !!! Só quem já foi mãe e experenciou
um parto real poderia fazer essa leitura que me havia passado
desapercebida. E pensar que eu estava querendo me referir às
sucessivas "mortes" dos fragmentos do ego que se tornaram incompatíveis
com a nova realidade.
É
parto e é duplo ! E é ao mesmo tempo morte dupla
! De um outro diferente (o filho adulto que nasce) do representado
em mim (o filho criança que sucumbe) e de um outro eu diferente
(o amigo, do filho adulto, que surge ) de mim mesmo (o pai , do
filho criança, que desaparece ).
Morte/vida,
destruição/criação, desconstrução/construção,
ying/yang, simultâneos, nem sempre automaticamente, às
vezes com necessidade dos ritos de passagem, do luto, do sofrimento,
do aprendizado num tempo vazio que só acaba quando acabar
(isso é o que ensina a sabedoria chinesa). Por isso é
tão difícil ser pai/mãe.
DF
— Poderíamos entender, então, assim seria o sentimento
do parto masculino ?
Roberto
— Muito embora não sendo um parto físico mas
psíquico, das representações mentais do filho,
para nós pais. No meu sentir, isso seria, com certeza.
DF— Como esse parto se revela
doloroso para você?
Roberto
— O filho rebelde está errado ... sempre ! O nosso
projeto é sempre melhor ! Qualquer ato que o afaste do
nosso projeto é pernicioso e, portanto, está errado
!
Porque
exige, às vezes, deixar de lado nossas "certezas", hábitos
e antigos padrões de comportamento que perderam a eficácia
ante os problemas reais que nos deparamos em nossas relações
com o mundo, com os outros, principalmente com nossos próprios
filhos que contestam, às vezes radicalmente, a autoridade
- não confundir com autoritarismo - que desejaríamos
manter.
É
claro, que estamos. Queremos que a nossa "autoridade" — do amor,
da experiência dos anos, do comportamento já sedimentado
— seja não só aceita como internalizada e recusamos
qualquer diferença aos nossos padrões duramente
estabelecidos.
Deixamos
de ser o "dicionário da vida". Deixar de ser
o "dicionário da vida" ou ser "dispensado",
não é no fundo, a mesma coisa. E é isso,
sentimos que fomos dispensados por falta de utilidade.
DF
— Como você está tentando redefinir a relação
pai/filho, ou melhor, passar pela dor desse parto " às
avessas" ?
Roberto
— Normalmente, por comodismo ou pavor à mudanças,
escolhemos o autoritarismo, fracassamos, culpamos o filho rebelde
e perdemos a possibilidade de criar uma relação
gratificante de respeito mútuo e muito amor.
A opção
é abandonar a posição de "donos da verdade",
admitir, afinal, que podemos errar e o que é importante
- sem "culpa", reconhecer que só temos "certezas" depois
de fazer, ou seja, só aprendemos experimentando, que a
cultura nos condiciona e tende a se reproduzir sufocando as diferenças
e nós pais que somos pré-determinados culturalmente
nos tornamos no instrumento de conservação dos valores
culturais e, conservadores, repelimos toda e qualquer diferença
que ameace nossos hábitos, questione nosso comportamento
ou duvide da nossa "sabedoria".
Rever a
tirania das defesas, "verdades" ou desconstruir tudo o
que foi edificado e participar amorosamente do processo de reconstrução
para manter os alicerces da estrutura relacional É mais
fácil patologizar os indivíduos, desqualificando-o
com rótulos — "maluco", "rebelde", "diferente", "excêntrico",
"neurótico", "psicótico" — do que admitir que somos
meros instrumentos de reprodução de uma estrutura
social neurotizante e excludente da diferença. E nós
pais somos o primeiro representante da lei conservadora, coercitiva
e repressiva da diferença.
Contra
o caos, do risco, da criação, da evolução,
do novo , opomos o Cosmo, da ordem, do já criado, da conservação,
da repetição do mesmo, do velho.
Trata-se
de um aprendizado que necessita dos saberes disponíveis
para ser bem sucedido como experiência amorosa viva, mas
como não existe "receita" pronta para o exercício
da função de pai e devemos ter a coragem de inventar
novas formas de relacionamento que permitam a formação
de um indivíduo saudável, autônomo, emocionalmente
equilibrado, capaz de curtir o milagre da vida com alegria e de
substituir uma existência moral, conservadora, por uma existência
estética, criadora.
Onde houver
vida há problema. Viver é um constante confronto
com problemas e tomada de decisões, como nós pais
sabemos através das nossas próprias experiências
ao longo da vida.
Escolher é angustiante !
Pode nem
haver prazer nisso mas certamente haverá alegria porque
escolher não escolher é deixar a escolha nas mãos
do outro, seja ele qual for, o pai biológico ou o grande
Pai da cultura, e abdicar da própria Vida, única,
singular e criadora da criatura que pode vir a ser.
Vir a ser,
esse é o problema dos nossos filhos e que nós, pais,
frequentemente nos esquecemos ou desistimos de tentar.
Inventar
uma nova forma de nos relacionarmos com nossos filhos é
o problema ético que nós pais devemos enfrentar,
afinal, os nossos filhos merecem o melhor de nós, não
só do que já somos mas do que ainda podemos vir
a ser.
Descobrimos
novas formas de viver que não reproduzam a neurose da civilização
greco-romana, judaico-cristã, capitalista-consumista-globalizada
ocidental que, desde Platão, nos submete à ordem
repressora dos nossos desejos, em especial, o desejo de viver
livre para manifestar uma outra maneira de viver diferente daquela
pré-estabelecida. Enfim, convivendo com a diferença,
com a singularidade, aceitando o outro no seu "jeito" de ser.
Existem outras.
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