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A
inveja nasce de um conflito insolúvel entre a aversão a si
mesmo e o anseio de autovalorização, de tal modo que a alma,
dividida, fala para fora com a voz do orgulho e para dentro
com a do desprezo, não logrando jamais aquela unidade de intenção
e de tom que evidencia a sinceridade. Por isso ela é o mais
dissimulado dos sentimentos humanos.
A
gente confessa ódio, medo, ciúme, tristeza, cobiça. Inveja,
nunca. A inveja admitida se transmutaria em competição franca
ou em desistência resignada. A inveja é o único sentimento
que se alimenta de sua própria ocultação. Ela é uma cobiça
que se nega como tal e se afirma como repulsa. O invejoso
recusa a si mesmo os bens que cobiça, por julgar que não os
merece, e, quanto mais os ama, mais se odeia, tentando destruir
neles a sua vergonha de amante rejeitado e odiando-se ainda
mais por conceder ao objeto de seus tormentos a homenagem
do rancor em vez do desprezo autêntico, que não está ao seu
alcance, já que depende de superioridade real.
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Qualquer
que seja a forma de dissimulação, a inveja essencial, primordial,
tem sempre por objeto bens espirituais, os mais abstratos
e impalpáveis, mais aptos a despertar no invejoso aquele sentimento
de exclusão irremediável que faz dele, em vida, um condenado
do inferno. Riqueza e poder nunca são tão distantes, tão misteriosos
quanto a amizade de Abel com Deus, que leva Caim ao desespero,
ou o dom do gênio criador, que humilha as inteligências medíocres
mesmo quando bem-sucedidas social e economicamente. Por trás
da inveja vulgar há sempre inveja espiritual.
Mas
a inveja espiritual muda de motivos conforme os tempos. A
época moderna, explica Lionel Trilling em "Beyond Culture"
(1964), "é a primeira em que muitos homens aspiram a altas
realizações nas artes e, na sua frustração, formam uma classe
despossuída, um proletariado do espírito".
Para
novos motivos, novas dissimulações. O "proletariado do espírito",
dizia Otto Maria Carpeaux em "A Cinza do Purgatório" (1943),
é a classe revolucionária por excelência. As ideologias de
massa sempre recrutaram o grosso de seus militantes entre
os semi-intelectuais ressentidos. Afastados do trabalho manual
pela instrução, separados da realização nas letras e nas artes
pela mediocridade, que lhes restava? A revolta. Mas uma revolta
em nome da inépcia se desmoralizaria no ato. O único que a
confessou, com candura suicida, foi o "Sobrinho de Rameau"
(1762), personagem de Denis Diderot, tipo propositadamente
irreal, concebido para dizer em voz alta o que ninguém diria.
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Como
que advertidos por essa cruel caricatura, os demais notaram
que era preciso a camuflagem de um pretexto edificante. Para
isso serviram os pobres. A facilidade com que todo revolucionário
derrama lágrimas de piedade por eles enquanto luta pelo poder,
passando a oprimi-los tão logo vitorioso, só tem uma explicação:
o que o comovia não era o sofrimento material deles, mas o
seu próprio sofrimento psíquico. Os pobres são o espelho deformante
em que o intelectual ativista falseia os motivos da sua conduta.
E é o próprio drama interior da inveja espiritual que dá ao
seu discurso aquela hipnótica intensidade emocional que W.
B. Yeats notava nos apóstolos do pior (v. "The Second Coming"
e "The Leaders of the Crowd", 1921). Nenhum sentimento autêntico
se expressa com furor comparável ao da encenação histérica.
Por ironia, o que deu origem ao "grand guignol" das revoluções
modernas não foi a exclusão, mas a inclusão: foi quando as
portas das atividades culturais superiores se abriram para
a maioria que, fatalmente, o número de frustrados das letras
se multiplicou por milhões. A "rebelião das massas" assinalada
por José Ortega y Gasset ("La Rebelión de las Masas", 1928)
não consistia na ascensão das multidões à cultura superior,
mas na concomitante impossibilidade de democratizar o gênio.
A inveja resultante tornava odiosos os próprios bens recém-conquistados,
tanto mais inacessíveis às almas quanto mais democratizados
no mundo: daí o clamor geral contra a "cultura de elite",
justamente no momento em que ela já não era privilégio da
elite
Ortega,
de maneira tão injusta quanto compreensível, foi por isso
acusado de elitista. Mas Eric Hoffer, operário elevado por
mérito próprio ao nível de grande intelectual, também escreveu
páginas penetrantes sobre a psicologia dos ativistas, "pseudo-intelectuais
tagarelas e cheios de pose (...) Vivendo vidas estéreis e
inúteis, não possuem autoconfiança e auto-respeito e anseiam
pela ilusão de peso e importância" ("The Ordeal of Change",
1952). Por isso, leitores, não estranhem quando virem as lideranças
dos "movimentos sociais" repletas de cidadãos de classe média
e alta diplomados pelas universidades mais caras, como é o
caso do próprio sr. João Pedro Stedile, economista da PUC-RS.
Se
esses movimentos fossem autenticamente de pobres, eles se
contentariam com o atendimento de suas reivindicações nominais:
um pedaço de terra, uma casa, ferramentas de trabalho. Mas
o vazio no coração do intelectual ativista, o buraco negro
da inveja espiritual, é tão profundo quanto o abismo do inferno.
Nem a Terra inteira pode preenchê-lo. Por isso a demanda razoável
dos bens mais simples da vida, esperança inicial dos liderados,
acaba sempre se ampliando, por obra dos líderes, na exigência
louca de uma transformação total da realidade, de uma mutação
revolucionária do mundo. E, no caos das revoluções, as esperanças
dos pobres acabam sempre sacrificadas à glória dos intelectuais
ativistas.
Leia:
Màscaras da Inveja
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Olavo de Carvalho, 56,
jornalista e ensaísta, é autor de "O Jardim das Aflições"
(É Realizações), entre outros livros. www.olavodecarvalho.org
Artigo publicado originalmente na Folha de São Paulo,
São Paulo, terça-feira, 26 de agosto de 2003. Enviado e autorizado
pela Sra. Roxane Souza.
Leia:
Màscaras da Inveja
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