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A
Implosão da Vergonha
Douglas
Mondo*
09, Dezembro/2002
Foi-se
o Carandiru. Ficou a vergonha. O Carandiru não era um conjunto de
prédios, era a própria decadência social repleta de vingança e hipocrisia
disfarçada de moralidade brasileira.
Sob a sombra
de seus muros, escondemos durante décadas nossas vítimas sociais
marcadas pelo estigma do abandono e condenados por uma falsa justiça
decretada nos porões da consciência humana.
Suas portas
fechavam nossos olhos e sequer observávamos direitos inerentes à
própria vida. Somente nos permitíamos ver raras insatisfações travestidas
de revoltas quando o fogo consumia lápides de espumas que abrigavam
corpos cansados e em decomposição moral.
Em ocasião
acontecida, exterminamos cento e onze almas penadas e absolvemos
um governador que se fingiu de morto sob ordens que jurou jamais
ter saído de sua falante boca.
O Carandiru
continua vivo em nosso ordenamento jurídico e julgamentos penais.
Aos criminosos, a morte é nossa pena mínima. Os condenamos a viverem
sem dignidade e sem qualquer chance de recuperação para a vida em
sociedade.
Melhor
morrer, que ser amaldiçoado pelas mãos da Justiça Brasileira. Melhor
não nascer que nascer miserável sob o manto negro que reflete as
luzes do Cruzeiro do Sul.
Não outorgamos
aos nossos miseráveis qualquer direito ao alimento, ao acesso à
água potável nem à vida digna sob um teto honrado.
Ao contrário,
os largamos a toda sorte de maus tratos que somente seres hipócritas
podem largar. Fechamos nossos olhos para crianças desnutridas que
se alimentam do estrume jamais consumido pelos carniceiros irracionais.
Nossa consciência
cega descarta nosso lixo social. No máximo oferecemos um dízimo
cristão que nos transforma em humanos especiais. Nos achamos evoluídos.
Meu Deus,
quanta ignorância!
Nos servimos
da criminalidade para saciar nossos vícios de adição química e orgânica
e nem sequer nos damos ao trabalho de discutir a legalização de
nossos vícios.
Aos nossos
fornecedores a justiça. Aos nossos pares a cumplicidade das viagens
astrais.
As penas
privativas de liberdade somente são aplicadas aos incautos e miseráveis,
já que aos abastados apenas salientamos o ocorrido com nossas desculpas
lamentáveis.
O Carandiru
continuará a existir em toda cidade que abrigar cadeia superlotada
de excluídos sociais, algemados nas grades da solidão que escondem
nossa mediocridade existencial.
O Carandiru
continuará rijo e forte, enquanto o Estado Brasileiro não modificar
seu sistema penal com aplicações de penas condizentes com os crimes
cometidos, utilizando as penas privativas de liberdade somente em
casos especiais e de difícil recuperação. Ainda assim, com tratamento
psiquiátrico.
Os serviços
à comunidade devem ser regra geral na aplicação de punição penal,
na proporção do crime cometido, para que o condenado possa refletir
e se recuperar perante a sociedade.
O Estado
não deve existir somente para nos servir e para punir a quem nos
ofende com sua paupérrima existência.
O Estado
não deve ser o próprio mal, mas sim o ente abstrato que no papel
de nossa consciência coletiva nos acolha igualmente com direitos
e obrigações.
Se injusto
é o Estado, nós somos o Estado!.
Alto
*
Douglas Mondo é poeta, advogado civilista e empresarial.
Fundador, ex-presidente e atual vice-presidente do Conselho de Segurança
de Jundiaí, SP. Acadêmico fundador e presidente da
Academia Jundiaiense de Letras Jurídicas. Palestrante - Grupo
Mondo, Barros & Terra. L.M. www.kyotec.com.br/mondo
- www.kyotec.com.br/poeta
e-mail- veritas@kyotec.com.br
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