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Deputadaria
Douglas
Mondo*
18, Novembro/2002
Palavras livres esvoaçam ao vento.
Urge prendê-las aos grilhões do pensamento. Prisioneiras, vertem
lágrimas a querer liberdade, no ideal do livramento.
Libertadas, seduzem o leitor na construção
de um texto, levando-o a sonhar que as possui, como se suas fossem.
Ao aprisioná-las em seu interior, misturam-se
com seus valores, suas crenças e seus temores, passando a criticar,
de forma única, com cumplicidade ou complacência, com temeridade
ou ofensa, como se fosse ele o autor daquela obra literária.
Inicialmente temerária, ela se apodera
do leitor para levá-lo ao naufrágio por entre ondas de sentimentos,
transformando-o em arremedo de integridade, arrancando-lhe soluços
ao espelhar um pobre prisioneiro da humanidade.
Ao voltar do frio exílio daquela lida,
o leitor se recupera para sentir-se aliviado em seguida, como se
a viagem ao mundo daquela estranha mente, fosse apenas um transitório
presente.
Esquece-se que se tornara escravo da
liberdade do pensar, e a partir daquele instante, o pensamento torna-se
seu amigo errante, pela vida afora, até seus últimos dias, como
homem livre-pensante.
Nessa qualidade, por entre palavras
sem caridade, quero destruir uma proposta ofensiva, feita ao acaso,
jogada ao léu, talvez querendo que fosse capturada pela pomba da
paz, que voa triste pelo infinito céu.
Uma proposta de aumento financeiro
por representação política, conquistada a pouco através da vontade
imaculada, talvez agora não mais ofertada, já que se pudéssemos
voltar atrás, o indigitado indivíduo voltaria à sua rastejada mediocridade.
Refiro-me à proposta de aumento em
mais de 100% para os parlamentares, de autoria do deputado federal
Severino Cavalcanti, que a pretexto de estar sempre "no vermelho",
nos deixa irado e ofendido, já que a cor escolhida foi por nós conquistada
e misturou-se ao verde, formando a esperança da liberdade em sangue
outrora talhada.
Ó caro deputado, não se faça de rogado,
todos nós sabemos dos meios por muitos utilizados, ao usarem legalmente
as verbas de gabinetes para compras de roupas e para pagamento de
assessores, que acabam retornando aos bolsos na mais pura malandragem,
na velha forma de dólares invasores.
A representação política não lhe deve
trazer favores, pois é apenas um encargo patriótico que deveria
defender com orgulho e decência, já que mais de 50 milhões de brasileiros
vivem comendo lixo e excrescência.
Não faça da hipocrisia sua excelência.
Defenda, com a vida se preciso for, o término da fome da criança
indefesa, que morrerá nos braços da fétida capa que encobre alguns
dos senhores.
Brasileiros esqueléticos torcendo pela
seleção, sob o azul do ufanismo morrem de fome e de sede debaixo
de tanto cinismo, ao estarem jogados à margem da brasilidade, enquanto
propõe aumento financeiro por tão pouca representatividade. Ora,
deputado, quanta bobagem!
Ó caro Severino, se fosse antigamente,
deveria receber em praça pública umas fortes chibatadas, a lhe servir
de corretivo para que aprendesse a respeitar a fome das crianças
abandonadas.
Vou dizer seu castigo, como brasileiro
letrado, além da publicidade da indigitada vontade, para que possa
comer purê, caviar e saladas, ora Severino, vá plantar batatas!
Alto
*
Douglas Mondo é poeta, advogado civilista e empresarial.
Fundador, ex-presidente e atual vice-presidente do Conselho de Segurança
de Jundiaí, SP. Acadêmico fundador e presidente da
Academia Jundiaiense de Letras Jurídicas. Palestrante - Grupo
Mondo, Barros & Terra. L.M. www.kyotec.com.br/mondo
- www.kyotec.com.br/poeta
e-mail- veritas@kyotec.com.br
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