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Mãos espalmadas, entre dores e grades,
abrem-se em asas à imagem do Santíssimo e tentam capturar um pouco
de liberdade.
A débil vontade indaga desesperançada:
Por que me abandonaste?
Houve um tempo em que nossos dedos
se encontraram, na imagem imortalizada pelo pintor da Renascença
. Éramos o retrato da unidade. Pai e filho acima do bem e do mal.
Na tênue lembrança ouvida em reza como
se fosse segredo divino, o corpo de teu filho foi moldado na pedra
bruta, e os braços da mulher sopraram vida eterna sobre a fria morte
por ti determinada.
E agora, me abandonaste. Não serei
retratado por mãos hábeis, nem provocarei lágrimas a rolar em faces
desconhecidas.
Sou apenas, ninguém! Nem teu
filho sou!
Nasci da mistura da noite com o dia,
comi restos que a ti nunca te serviria. O pão sempre foi amanhecido,
mofado e sujo como lixo fora jogado. Há mágoa em minha fé.
Da mesma mulher nascemos dez. De homens
estranhos, apenas cinco. Sou o terceiro no nascer e primeiro vivo
na linhagem do cuidar de meus irmãos, não por teu bem querer.
Os carinhos que tive, são cicatrizes
profundas na carne que ganhei em troca da defesa de minha mãe, bêbada
a chorar em ombros malvados e sequiosos para dela abusar. Por isso
éramos dez.
Nunca tive o prazer de estudar. Não
sei ler nem sei orar. Desisti de chorar. Vendo drogas para sobreviver
e libertar!
Outrora queria um colo paterno a me
acariciar. Hoje fujo de armas policiais em mim a atirar.
O jovem da cor do dia, feliz pela viagem
que teu amor não provocaria, a mim vem procurar. Sorridente vem,
com namorada e amigos, loucos para viajar.
Em tempo depois, trêmulo e infeliz
precisa do meu cuidar. Cuido do vício de teus filhos, pois outros
pais, verdadeiros, desistiram daquele sonhar.
Abandonam os filhos, como tu me abandonaste!
Em barracos sujos, visitados pelas
chuvas de março, sempre morei. Em verdade te digo, por felicidade
fraterna, nunca orei. Negaste-me, sei!
Apenas busquei o que nunca me deste
por meu mal nascer. Aprendi a roubar e matar, para minha fome e
de meus irmãos, saciar.
Aprendi com teu abandono, a sobreviver!
Na cela imunda, fétida, onde dormir
é privilégio de poucos, sou dos mais fortes a dar ordens, e tenho
pena de quem não obedecer.
Quando outra vez fugir, voltarei para
meu canto à espera de tantos outros a me procurar. Venderei sonhos,
felicidade momentânea, a quem não quer da realidade saber.
Eles vêem o que querem ver! Crêem no
que querem crer! Têm, o que merecem ter!
Somos vítimas, na nossa relação de
viver. Em casa meu filho chora a ausência do pai afastado por teu
querer.
Vivo e culpo a vida, por meu nascer!
Quisera da divindade saber:
Por que me abandonaste?
Odeio humanos! Exclama o Altíssimo,
num dar de ombros.
Alto
*
Douglas Mondo é poeta, advogado civilista e empresarial.
Fundador, ex-presidente e atual vice-presidente do Conselho de Segurança
de Jundiaí, SP. Acadêmico fundador e presidente da
Academia Jundiaiense de Letras Jurídicas. Palestrante - Grupo
Mondo, Barros & Terra. L.M. www.kyotec.com.br/mondo
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e-mail- veritas@kyotec.com.br
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