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A
Santa da Praça
Douglas
Mondo*
15, Maio/2002
Foi-se
o Carandiru. Ficou a vergonha. O Carandiru não era um conjunto de
prédios, era a própria decadência social repleta de vingança e hipocrisia
disfarçada de moralidade brasileira.
Ela do suor é o tempero e da
flor nunca teve um afago, ao receber outro corpo que exala um forte
cheiro e do prazer recebe apenas um naco.
Solitária, sorri adormecida
e pela paga oferece a gruta santa para a forte cuspida. É
Maria rasgada que vende milagres em troca do alimento para pobres
almas abandonadas.
É Santa Maria! É Santa
da Putaria! É a Irene de Manuel Bandeira entrando no céu:
Licença, meu branco! E São Pedro Bonachão:
Entra Irene. Você não precisa pedir licença.
Outro dia, o programa "Provocações"
da TV Cultura de São Paulo, apresentado por Antônio
Abujamra, entrevistou a santa da praça.
A prostituta
que vende seu corpo por 30 dinheiros e com as férias do dia
compra alimentos que matam a fome dos mendigos que perambulam pela
praça do povo.
Uma linda mulher, chamada de mãe
por homens sofridos e de puta por homens hipócritas. É
a filha do pecado! Na noite, é a amante do tarado!
Está escrito, é a mulher
que se sentará aos pés de Cristo e untará seu
corpo com o presente dos Reis Magos.
O sorriso daquela mulher, ao ter seu
cabelo penteado pelo cabeleireiro de profissão, emoldurou
o milagre dos pães em multiplicação. É
a doação do corpo em oração.
É
a mãe mostrando à humanidade que a santidade de Maria
está nos olhos de todas as mulheres que alimentam seus filhos
incertos perdidos pelo salão.
Ó Maria, Santa da Putaria, em
sua homenagem são os cânticos de amor que elevam súplicas
abençoadas pelos sonhos de ocasião, pois seus feitiços
são divinos aos olhos da criação.
Vai mulher, carrega em seu ventre o
desejo da sedução carnal. Permita-me Maria, deixa
de lado seus filhos e vai levar amor aos pobres, cunhados como solitários
da capital.
Erguem edifícios e moram em
barracos jogados nos quintais da maldição. São
espectros de homens chamados peões de construção.
Nada valem, custam menos que um tostão.
Vai Maria, leva seu corpo de prazer
em prato de marmita sobre um ovo frito estalado no fundo falso da
alimentação. Desculpe-me, mas talvez seja trocada
por um pedaço de marmelada e um cafezinho requentado em fogo
de solidão.
É a vida, Maria! Mas não
se preocupe, no quinto dia a lei garante uma clientela que saberá
gastar toda a promessa feita à família que a espera
no Nordeste com uma carta de alforria.
É a saga da miséria cantada
em prosa e verso pela administração da fome em 500
anos de fantasia. Nunca foi ordem do dia!
O salário se perderá
entre suas pernas. Agora é Maria bandida, aquela que rouba
a liberdade dos filhos dos coronéis que se deitaram nas camas
das escravas da ignorância dizendo que queriam somente seu
bem estar.
É a safadeza do poder sobre
a pobreza que me faz lutar! Bendito Zumbi! Ainda será herói
num país que chora pela liberdade que existiu um dia aqui.
Será?
Ó Maria, chamada de virgem um
dia, leva seus encantos a todos os santos que constroem essa nação.
São Antônio’s. São Pedro’s. São Paulo’s.
São brasileiros sufragando votos em eleição.
São vítimas de políticos que trazem a maldade
no coração.
Talvez um dia, sentiremos orgulho em
saber que seu corpo matou a fome dos filhos esquecidos em bancos
de estação. Nem há mais trem, Maria!
Foi-se a luz. Ficou a escuridão!
Perdeu-se o encanto do bonde que desapareceu por entre buzinas de
lotação. Morreu o oxigênio apunhalado pelas
partículas de poluição.
Chegou o fim, Maria. Acabou a bonança.
Ventos do norte precedem o temporal. Tempos tristes chorarão
sua ausência. Os mendigos, num último adeus beijam
sua fronte, mulher que viveu cantando ao horizonte.
Adeus Maria! Bendita entre as mulheres!
Foi um prazer saber de sua existência. Aos céus rogo
um lugar para seus encantos. Tantos! Entre todos os santos!
Alto
*
Douglas Mondo é poeta, advogado civilista e empresarial.
Fundador, ex-presidente e atual vice-presidente do Conselho de Segurança
de Jundiaí, SP. Acadêmico fundador e presidente da
Academia Jundiaiense de Letras Jurídicas. Palestrante - Grupo
Mondo, Barros & Terra. L.M. www.kyotec.com.br/mondo
- www.kyotec.com.br/poeta
e-mail- veritas@kyotec.com.br
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