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Domínio Feminino
Domínio Feminino

 

 

 

 

 

 

 





            Cruzeiros matrimoniais
            Roberto DaMatta
            25, Fevereiro/2001

 

            Ao completar, pasmem os leitores, 40 anos de casado e de casamento, honrei a minha longa e para muitos inimaginável vida conjugal com um recreio: um momento de folga ou de "communitas", como diria meu amigo, o grande antropólogo escocês Victor Turner. Dei-me, assim, de presente, um espaço extraordinário e, por isso mesmo, ambíguo e paradoxal, dentro do qual, Celeste, minha mulher, e eu pudéssemos celebrar com alegria, parvice, júbilo e sensação de milagre, tudo o que vivemos e escapamos em 40 anos de vida em comum.

            Zarpamos num cruzeiro. Mas o que celebrar, perguntaria o leitor cético e distante desse ideal monogâmico ultrapassado, num casamento de 40 anos?

            Ora, o primeiro plano a ser festejado é o fato de estar casado com a mulher e com o casamento. Pois uma coisa é estar (e ser) casado (por obrigação, amor, rotina, medo, inércia, religião, etc...) e uma outra muito diferente é o casamento que obriga a encontrar no outro — num elo teoricamente estabelecido por um ato de vontade individual chamado entre nós de "amor" — sua consagração e razão de ser. Realmente, uma pessoa pode estar casada e não ter consciência do seu próprio casamento. E, inversamente, muitos têm noção e lembrança apenas do casamento, esquecendo o fato de estarem casados.

            A relação entre o estar casado e o casamento é de tal ordem que eu diria, com meu exagero de sempre, que nas camadas superiores da sociedade, sobretudo entre as celebridades, o casamento é mais importante do que casar; ao passo que, nas camadas médias e inferiores, afirma-se o estar casado mais do que o casamento.

            Para a classe média e mais ainda para os pobres, o fato de estar cumprindo suas obrigações matrimoniais de prestar servicos domésticos mútuos (ela faz o cafezinho e lava a roupa; ele troca o pneu do carro e compra o pão) ocupa certamente um lugar central na vida de um casal que muitas vezes associou-se no matrimônio sem eira, beira ou festança. Só com a cara e a coragem de confiar no seu amor e assinar alguns papéis que eles sabiam ser inteiramente convencionais. O casamento, entre as pessoas comuns, encarna-se mais na expressão "sou casado(a)!" do que na cerimônia que parece ser o foco da vida conjugal entre os ricos e famosos. Nessas camadas, como a revista Caras não me deixa mentir, quem tem "cara" casa-se às grosas, o festival da entrega formal, sendo muito mais importante do que a vida de casado, sempre tida como rotineira, insustentável e incompatível com os incríveis projetos pessoais de cada um, como mostram as entrevistas desses casadouros após o corte do bolo e o brinde com champanhe.

            A diferenciação salienta uma questão que todo casal ligado por intermédio de um regime matrimonial monogâmico tem de enfrentar: o contraste entre o ato e o fato matrimonial. O ato se concretiza na carismática e emocionante festa de casamento que celebra o amor, e reúne parentes e amigos numa "communitas" nada banal ou rotineira. O fato acontece simultaneamente, quando se toma consciência de que os amantes apaixonados estão se transformando em "marido" e "mulher" justamente por meio da celebração charmosa.

            O diálogo entre casamento e estar casado se estabelece nas crises (como é que fiquei casada(o) com X por tanto tempo?) e nas comemorações. Nesses aniversários de casamento que marcam menos o tempo da festa do que a realidade sempre vista como trivial e paulificante do "estar — ou ser — casado". Uma boa prova disso é o fato de o casamento ser obrigatoriamente celebrado pelos pais, parentes e amigos; mas sua celebração ser obrigação do casal. Falamos: "casei minha filha", mas não podemos celebrar o aniversário de casamento de ninguém sem a sua mais profunda cumplicidade.

            Foi isso que descobri nessa celebração desses meus 40 anos de casamento, quando renovei um ritual que se esvai da memória com os gestos vivos das rotinas impressas no "estar casado". Se o casamento me libertou e o "estar casado" me aprisiona, a celebração matrimonial, orquestrada num navio e no lindo mar azul do Brasil, confirma a convivência miraculosa e a realização renovada e serena do amor.

 

Este artigo foi getilmente autorizado pelo autor, em 24/02/2002 — Nossos agradecimentos.
Roberto Da Matta é antropólogo e colunista do Estadão
31 de janeiro 2002 / Estadão

 

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