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Colombina
Caio
Martins
09, Novembro/2002
Qual o Pierrô dos antigos carnavais,
Lula acabava sempre chorando. Temos, todavia, que louvar sua determinação.
É, hoje, o Presidente da República Federativa do Brasil. Pouco mais
de um quarto de século, a polícia andava atrás dele. Hoje, garante-lhe
a segurança e vai na frente, com seus batedores abrindo caminho.
Fosse a Brasília, e o Palácio da Alvorada entrava em crise, assustado
e trancado. Hoje, as portas se lhe abrem em festa. Conseguiu.
A coligação que arrasou seus adversários
fez o que tinha de fazer. Organizou-se, abandonou o discurso ideológico
revolucio-nário, recolheu habilmente o melhor das tendências desenvolvimentistas
e travestiu seu candidato de etérea fantasia platônica: surgiu o
"Lulinha amor e paz". Fora o líder operário e o sindicalista mais
carismático brasileiro do século passado, lutando pelo restabelecimento
de bandeiras trabalhistas que Getúlio Vargas habilmente clo-nara
do extinto Partido Comunista Brasileiro, e que o regime militar
pretendera derrubar.
Ao cingir-se ao PT e tornar-se mais
uma dentre suas armas, viu-se na condição de urso do circo batendo
bumbo, com figuras insólitas como Zé Dirceu, Genuíno, Suplicy, Mercadante
e outros segurando a ponta da corrente. Chamava a atenção, fazia
parte do espetáculo, mas a gravata caía-lhe estranha e, a camisa,
apertada. Bom produto, carismático, foi porém facilmente vendido
nestas eleições tanto pela habilidade de seus marqueteiros, quanto
por um programa que é a tradução maquiada do processo brasileiro
dos últimos dez anos, ao invés do próprio programa radical petista.
E o povo gostou. E o povo votou. O
Presidente eleito Luiz Inácio da Silva é a esperança que retorna,
banida que fora pela violenta pressão do sistema financeiro internacional,
para o qual o presidente de um país do terceiro mundo é apenas o
gerente de seus interesses supranacionais, para o qual somos meros
fornecedores de matérias primas, semimanufaturados e mão de obra
baratos, e consumidores de tecnologia de segunda linha e badulaques.
Especialmente culturais. O Presidente Luiz Inácio da Silva é hoje,
profunda e ampla-mente, a melhor das expectativas dos aflitos, o
símbolo da brasilidade e do patriotismo.
Assuma a Presidência com determinação,
convicção, coragem e vontade, fiel aos compromissos populares que
assumiu, e será, ao invés do urso do circo, a estrela do espetáculo
que nos redimirá aos olhos do mundo e aos nossos próprios olhos.
Ponha-se na postura exclusivamente parti-dária, submissa e complacente,
e teremos de volta o urso-pierrô, numa pátria ama-da tragicamente
transformada em colombina. Uma mistura dramática de Colômbia com
Argentina.
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