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Dercy
Gonçalves era uma atriz popular que fazia da esculhambação
fator de seu sucesso. Lula da Silva é o presidente da República
que buscando o sucesso esculhamba para ser popular. O que
os faz semelhantes? O uso de palavrões, pois não sei se Dercy
era alcoólatra. O que os faz diferentes? Dercy, a debochada,
não estava investida da autoridade do mais alto cargo da República.
Lula da Silva está.
Pode
ser que tenha se tornado politicamente correto usar palavrões.
Que seja interpretado como preconceito criticar o presidente
por ele esbanjar palavras de baixo calão que passam pelos
tradicionais "p...m", "p...rra" e mais recentemente o "sifu".
Lembre-se ainda do "ponto G" que o presidente brasileiro agraciou
o companheiro Bush ou outros gracejos e gracinhas, ditos no
auge do entusiasmo que ocorre nos palanques de onde ele só
desce para viajar ao exterior.
Os
"adornos" lingüísticos com os quais Lula da Silva entremeia
suas falas por sinal muito aplaudidas, talvez possam ser explicados
por conta de sua origem sindical e petista. Como ele nunca
sabe de nada, certamente ainda não percebeu que deve ser comportar
como presidente da República e não como líder de metalúrgicos.
Nesse caso, falta alguém do cerimonial ou de sua intimidade
palaciana que ouse lhe dizer que não fica bem um presidente
tão sem educação, tão sem compostura, tão grosseiro. Enfim,
que ele não é Dercy Gonçalves nem animador de auditório e
que porta de fábrica é realidade diferente de Palácio do Planalto.
Mas
se algum corajoso advertir Lula da Silva sobre a impropriedade
de seu comportamento, sobre a necessidade de controlar seus
rompantes, provavelmente etílicos, sobre os limites entre
o humor e boçalidade, poderá em troca receber um ou mais palavrões
com "argumentações" mais ou menos assim: "sou um sucesso,
sou a cara do povo e como o povo fala palavrão, o que me identifica
com meu eleitorado, vou continuar e ninguém tem nada com isso".
Mas
será que o povo brasileiro fala tanto palavrão? Depende do
lugar, como um estádio de futebol, na hora em que o juiz rouba
para o time adversário. Em algum momento da intimidade familiar
ou de amigos. Diante de certos transtornos do cotidiano como
exclamação de contrariedade. Mas não é comum nas conversas
diárias soltar o "verbo diarréico". Também dele não costumam
fazer uso, profissionais em geral ao se dirigir aos seus clientes
ou pacientes, autoridades em cerimônias públicas. Com exceção,
é claro, do governador do Paraná, Roberto Requião, que prima
pela linguagem desabrida e pelo estilo truculento .
Naturalmente,
alguns membros do governo Lula da Silva são seguidores do
chefe. É o caso de Marco Aurélio Garcia, celebrizado por gestos
obscenos. E de madame Favre ou Suplicy com seu imortal "relaxa
e goza". Como a primeira-dama parece ter sido agraciada com
o silêncio obsequioso, não se sabe se também segue o estilo
Dercy Gonçalves, mas se pode imaginar o que é ouvido nas reuniões
do PT, quando cadeiradas são desferidas democraticamente No
mais, os ministros de Lula da Silva têm caído às pencas por
corrupção, mas não costumam falar palavrões, pelo menos em
público. Alguns até podem ter pensado em algum "sifu", como
José Dirceu ou Palocci, mas, se pensaram, engoliram em seco.
Em
todo caso, digamos que a imensa popularidade de Lula da Silva
transforme seu linguajar chulo em moda. Você diria a uma pessoa:
"bom dia". E ela responderia: "vá à m...". E assim por diante.
Tudo muito natural. Tudo politicamente correto. E coitado
daquele que se queixasse de quem o insultou. O preconceituoso
seria preso por crime hediondo e inafiançável.
Aliás,
na era Lula da Silva o correto, o certo, o elegante é quebrar
escolas e bater nos professores. Invadir propriedades produtivas
e destruir o patrimônio alheio. Exacerbar a violência, inclusive
nas torcidas de futebol. E chic mesmo hoje em dia é ser assaltado.
Morrer à espera de atendimento do SUS, de dengue ou de bala
perdida, de preferência gritando um palavrão no derradeiro
momento, seguido do brado "viva Lula", esse grande inaugurador
de um Brasil feito de mentira, de propaganda enganosa, medíocre
e vulgar.
Consola saber que
ainda existem, brasileiros dignos. A tragédia que se abateu
sobre Santa Catarina mostrou comoventes exemplos de solidariedade
e de coragem da população, dos bombeiros, dos militares, de
todo o país que se mobilizou para ajudar as vítimas. E se
a dor dos catarinenses que perderam parentes, casas, pertences,
permanece insepulta, o Estado já se levanta, reorganiza o
caos, retoma o trabalho e a produção.
Enquanto isso Lula
da Silva, cujo governo não agiu preventivamente em Santa Catarina
para impedir a catástrofe, prossegue apenas discursando, gracejando,
proferindo impropérios para o gáudio da platéia de bajuladores.
Perto dele Dercy Gonçalves é santa.
(
* ) Maria Lucia Victor Barbosa
é socióloga.
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