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Até o começo dos anos
90 ainda era possível acreditar, honestamente, que
a Nova Ordem Mundial que se formava ante os olhos de todos
após a queda da URSS era, em essência, a mundialização
do poder americano, a realização dos sonhos
mais ambiciosos dos imperialistas do Norte.
Todas as aparências indicavam
isso, e estudiosos tão isentos de viés esquerdista
como o Pe. Michel Schooyans e o historiador espanhol Ricardo
de La Cierva afirmavam categoricamente que a ONU, governo
mundial em germe, não era senão a expressão
e instrumento do Estado americano ampliado à escala
global.
Hoje, quem quer que continue acreditando
nisso, depois de tudo o que aconteceu nessa década
e meia e com todas as informações que se tornaram
acessíveis a respeito, é um autêntico
homem de Neanderthal, se não for seu antepassado mais
próximo, o dr. Emir Sader em pessoa.
Na visão dessas criaturas
primevas, a Nova Ordem Mundial é o bom e velho imperialismo
americano que, mal camuflado, estende suas asas sobre o globo
terrestre, pondo em risco a soberania das nações
pobres, cuja esperança então se volta para os
poucos núcleos de resistência espalhados pelo
mundo, como Cuba, a Coréia do Norte e os terroristas
islâmicos, bravos pigmeus em luta contra o gigante,
à imagem e semelhança da Princesa Léa
e Luke Skywalker enfrentando aos trancos e barrancos as tropas
imperiais sob o comando de Darth Vader (não inventei
a comparação; ela já se tornou um lugar-comum
do imaginário esquerdista).
Hoje em dia, o material disponível
com as provas cabais de que não é nada disso
que está acontecendo é tão vasto, tão
abundante e tão consistente, que a única desculpa
razoável que alguém pode apresentar para continuar
apegado a essa idéia é ser pessoalmente o dr.
Emir Sader e nada poder fazer contra tão cruel destino.
Todos os demais são culpados de negligência proposital.
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| Consumidores
frustrados
Klauber Cristofen
Pires |
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Em um país como o Brasil, este é
um dado que não pode ser desconsiderado,
ainda mais quando os diversos governos se
endividam para pagar o 13º de seus
servidores. O endividamento estatal, ou
a decisão temerária de expandir
o papel-moeda em circulação,
mediante a impressão de cédulas,
geram a imediata reação por
parte do mercado, pois aumenta-se a procura
pela até então mesma quantidade
de bens disponíveis, acarretando
o indesejado aumento dos preços.
A súbita elevação do
nível dos preços em dezembro,
que salta aos olhos dos compradores mais
distraídos, abocanha considerável
porção do poder de compra
dos salários, não só
do mês de dezembro, mas pelos meses
seguintes, pois neste país, um produto
baixar de preço após um aumento
repentino, ainda é coisa muito rara.'
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Digo isso com a ressalva de que,
as informações pertinentes sendo talvez menos
acessíveis no Brasil do que em qualquer outro lugar
do mundo com exceção dos países islâmicos
e comunistas, a ignorância geral dos fatos explica a
subsistência residual, neste país, de lendas
e estereótipos já desmoralizados pelo tempo
e em toda parte.
Mas mesmo ignorantes profissionais
não podem ter deixado de notar, nos últimos
anos, o conflito aberto entre a ONU e os EUA, seguido de uma
explosão mundial de anti-americanismo, cujas manifestações
nas ruas e na mídia, simultâneas, súbitas
e organizadíssimas, não poderiam ter surgido
do nada, sem longa e dispendiosíssima preparação
secreta. De repente, os pobres e esfarrapados tinham a seu
serviço o New York Times, o Washington Post, a CBS,
a CNN e praticamente todo o restante da grande mídia
internacional (a brasileira, então, nem se fala), enquanto
os ricaços imperalistas mal conseguiam uma entrevistinha
na Fox, uns minutos no programa de rádio do Rush Limbaugh,
sem a menor repercussão fora dos EUA, e dois parágrafos
em sua defesa na coluna da Mary O’Grady no Wall Street
Journal. A desproporção contrastava tão
dramaticamente com a visão convencional dos coitadinhos
em luta contra as forças tentaculares do império
financeiro intergalático, que parecia mesmo a coluna
do dr. Emir, “O Mundo pelo Avesso”.
Para quem ainda tivesse alguma dúvida,
bastava, para eliminá-la, olhar a lista dos financiadores
da gritaria anti-americana, entre os quais brilhavam, junto
com George Soros, as fundações Ford e Rockefeller
e outras fortunas do mesmo porte. Depois disso, só
mesmo o cérebro geneticamente lesado dos apreciadores
daquela coluna poderia, imune ao gritante paradoxo, continuar
acreditando piamente na identidade de americanismo e globalismo.
Nem falo dos discípulos do sr. Lyndon La Rouche, os
quais, admitindo o paradoxo, tentavam explicá-lo como
rebuscado truque do maquiavelismo ianque, como se rebuscada
não fosse antes essa explicação e como
se atrair todos contra si fosse astúcia digna do governo
americano e não, mais apropriadamente, do saudoso Chapolín
Colorado.
Não obstante, a afirmação
absoluta dessa identidade é não apenas a crença
unânime do esquerdismo local, para o qual ela tem ao
menos a utilidade de fomentar o ódio ao seu inimigo
tradicional, mas é também o fundamento de uma
“nova doutrina militar brasileira” que vem se
esboçando desde os anos 90, firmemente empenhada em
criar, com base em informação deficiente, uma
estratégia desastrosa que arrisca fazer das Forças
Armadas brasileiras, amanhã ou depois, o instrumento
servil da revolução continental, seja como aliadas
da esquerda lulo-chavista que tanto as difamou e humilhou
ao longo das décadas, seja, na melhor das hipóteses,
como suas concorrentes na liderança do anti-americanismo
nacional.
Essa visão das coisas não
expressa nenhuma realidade objetiva; expressa apenas, indiretamente,
o estado de total alienação da elite falante
brasileira, separada do mundo por um muro de fantasias obsessivas
e complexos incapacitantes, agravados por uma indolência
intelectual verdadeiramente criminosa e pela compulsão
irresistível de complicar ainda mais as coisas tentando
mostrar boniteza em vez de exercer a única virtude
que, numa hora dessas, poderia ser salvadora: a sinceridade.
Se entre todos os políticos,
oficiais de alta patente, grandes empresários, professores
de universidade, juristas e economistas de uma nação
não se encontra um só que seja capaz de descrever
corretamente o estado de coisas no mundo e enquadrar nele
a posição do país – e a realidade
é que não se encontra praticamente nenhum --,
é claro que esse país está perdido e
desorientado no espaço e no tempo, condenado a erros
descomunais de política externa e administração
interna que só por milagre não tornarão
inviável sua existência de Estado independente
num prazo mais veloz do que a imaginação desses
indivíduos e grupos pode alcançar.
Os planos de grandeza e discursos
patrióticos que saem da boca dessa gente são
um coral de marinheiros bêbados num barco prestes a
afundar. São sintomas psicóticos de uma total
falta de senso da realidade.
Na verdade, ao tentar lhes explicar
que as coisas não são como eles pensam, eu mesmo
me sinto um pouco psicótico. Esperar que entendam alguma
coisa é tão louco, no fundo, quanto apostar
no futuro de um país liderado por eles. Mas, como essa
esperança se recusa a morrer, vamos lá. Vamos
tentar outra vez.
Os EUA são mesmo a potência
hegemônica, mas é ridículo imaginar que
todas as ações que os projetam no mundo sejam
o resultado de um cálculo unitário fundado no
seu “interesse nacional” (no sentido que o termo
tem na ESG). Com mais freqüência, isto sim, exteriorizam
o conflito interno americano, conflito que, por força
da própria hegemonia dos EUA, expressa por sua vez
a essencial divisão de forças no mundo. Dito
de outro modo: a política americana, o drama americano,
a guerra cultural americana, são o modelo em miniatura
do conflito global. O problema é que, entre os palpiteiros
midiáticos, acadêmicos, empresariais e militares
do Brasil, ninguém entende coisíssima nenhuma
do que acontece nos EUA, portanto enxerga menos ainda o que
se passa no mundo.
Duas visões padronizadas,
ambas falsas e profundamente idiotas, se alternam no imaginário
nacional como pretensas descrições do cenário
americano:
Visão 1 – As duas correntes
em disputa ali são apenas duas faces da mesma moeda
imperialista. Nos EUA não existe esquerda politicamente
atuante, apenas uma direita capitalista durona e outra mais
molinha.
Visão 2 - Existem, sim, uma direita e uma esquerda:
a direita, republicana, é fundamentalista, imperialista
e militarista, representando os interesses calhordas da elite
financeira e industrial: a esquerda, democrata, representa
os pobres e oprimidos do mundo, os direitos humanos, a democracia
iluminista e, enfim, tudo o que é lindo desde o ponto
de vista do Fórum Social Mundial.
Quanta besteira, porca pipa!
A divisão americana, em primeiro
lugar, não é entre republicanos e democratas.
É entre conservadores e globalistas. Estes estão
nos dois partidos, os primeiros estão em parte no republicano,
em parte órfãos de agremiação
partidária, sem por isto deixar de constituir uma força
política e cultural considerável.
O programa globalista, longe de
ser imperialismo americano, consiste essencialmente em quebrar
a soberania dos EUA, submetendo cada vez mais o país
a organismos internacionais, sendo necessário, para
esse fim, diluir a cultura e a identidade nacionais numa pasta
“multiculturalista”.
O globalismo não tem finalidades
essencialmente econômicas ou mesmo político-militares:
é todo um conceito integral de civilização,
uma verdadeira mutação revolucionária
da espécie humana, incluindo a total erradicação
das religiões tradicionais ou sua diluição
numa religião biônica universal cuja expressão
mais visível é o movimento da “Nova Era”.
Seus ideais são tão opostos aos valores e interesses
da nação americana que os conservadores, sem
pestanejar, os consideram inimigos tão perigosos quanto
a Al-Qaeda. Os poderosos grupos econômicos que apóiam
o globalismo são os mesmos que elegeram Bill Clinton
e sustentaram a campanha de John Kerry. Apóiam o aborto,
o casamento gay, a liberação das drogas e tudo
o mais que possa dissolver rapidamente a unidade histórica
da cultura nacional americana. Fazem uso maciço do
ativismo judicial para mudar completamente o sentido da Constituição
através de sentenças que permitem o que era
proibido e proibem o que era permitido. Patrocinam maciçamente
a esquerda do Terceiro Mundo e as manifestações
anti-americanas, mas, lutando para enfraquecer o país
enquanto Estado independente, buscam ao mesmo tempo fortalecê-lo
como instrumento da ONU. Daí a ambigüidade de
suas tomadas de posição quanto ao terrorismo,
por exemplo.
Os conservadores, cuja base de apoio
econômico está essencialmente na prodigiosa capacidade
de coleta de fundos de milhares de organizações
populares (grassroots), mas que têm algum respaldo na
indústria nacional acossada pela concorrência
chinesa, defendem o predomínio americano no mundo,
mas não querem a diluição do país
num império transnacional. Suas ambições
“imperialistas”, incomparavelmente mais modestas
que as de seus concorrentes, consistem apenas em manter uma
relativa superioridade econômica e militar dos EUA (numa
inversão patética, é este plano, e não
o globalista, que a mídia brasileira denuncia como
grande perigo para a nossa soberania). Não aceitam
a ingerência de organismos internacionais em assuntos
de soberania, defendem as interpretações consagradas
da Constituição, a restrição dos
poderes do governo central, o liberalismo econômico
clássico, os direitos das religiões tradicionais
– protestantismo, catolicismo e judaísmo -- e
a preservação da identidade cultural americana.
Cada palavra que se ouve em debates
na mídia, no parlamento, nas universidades dos EUA,
ecoa essa divisão, da qual o Brasil em peso continua
ignorando praticamente tudo, graças aos bons préstimos
de uma elite falante mentirosa, corrupta, vaidosa e radicalmente
estúpida (e não estou me referindo a governo,
não; a elite governante é só uma parcela
da elite falante).
É absolutamente impossível
entender o jogo de forças no mundo – e portanto
tomar uma posição consistente dentro dele –
sem ter em conta a luta de concepções civilizacionais
por trás do conflito partidário americano que
a reflete de maneira irregular e parcial. O presidente Bush,
por exemplo, é moralmente um conservador, mas atado
por mil e um compromissos globalistas que tornam suas ações
freqüentemente ambíguas e não raro incompreensíveis
nos termos usuais do debate político.
Entender essas coisas dá
algum trabalho, requer muito estudo e o mergulho numa infinidade
de dúvidas, mas é imensamente recompensador
para quem, com sinceridade, queira encontrar uma esperança
para o Brasil nesse mare ignotum. Em vista disso, peço
aos distintos jornalistas, empresários, professores
etc., que, por favor, por caridade, por misericórdia,
não saiam dando palpites sobre o presente artigo antes
de estudar pelo menos estes três livros:
* Carroll Quigley, Tragedy and Hope:
A History of the World in Our Time, New York & London,
Macmillan, 1966. É a Bíblia do globalismo. Não
existe uma do antiglobalismo; as objeções estão
espalhadas; aqui vão duas amostras:
* Cliff Kincaid, Global Bondage:
The U. N. Plan to Rule the World, Lafayette, Louisiana, Huntington
House, 1995.
* Lee Penn, False Dawn: The United
Religions Initiative, Globalism and the Quest for a One-World
Religion, Hillsdale, NY, Sophia Perennis, 2004.
* Vale a pena também examinar
o artigo de Steven Yates, “From Carroll Quigley to the
UN Millennium Summit: Thoughts on the New World Order”,
em http://www.lewrockwell.com/yates/yates14.html.
Os que não quiserem ler nada
disso, então, por gentileza, queiram freqüentar
a coluna do dr. Emir Sader e continuar entendendo tudo às
avessas, como já se tornou costume nacional.
Artigo
orinalmente publicado:
Diário do Comércio,
6 março 2006
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