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O
PAÍS DO MEDO
Maria
Luiza Curti
Psicóloga
mlcurti@uol.com.br
Houve
um tempo do qual tenho felizes registros na memória (meus
filhos não os têm). Nessa época, ao anoitecer,
as famílias colocavam cadeiras nas calçadas em frente
às casas, ficavam conversando entre elas e com os demais
vizinhos enquanto observavam os filhos que brincavam de roda,
esconde-esconde, pique, amarelinha e outras brincadeiras.
Quando
a criançada cansava de brincar, sempre tinha uma avó
contadeira de histórias, em torno de quem elas se reuniam
para ouvir contos da Branca de Neve, Pedro Malazarte, João
e Maria e os mais assustadores: Saci Pererê, Mula-sem-cabeça,
assombração e outros...
Às
vezes as famílias saíam com seus filhos e iam para
as praças municipais passear e ver a fonte luminosa (algumas
tocavam músicas enquanto a água ia mudando de cor).
Outros gostavam de ver vitrines.
Entre
dez, dez e trinta; todos se recolhiam para dormir e o silêncio
descia sobre a cidade. Invariavelmente eram noites tranqüilas.
Quando
os filhos cresciam e tornavam-se moços (naquela época
não eram chamados de adolescentes), nos finais de semana
iam a bailes (geralmente a pé, o carro ainda não
era popular), apenas com amigos pois não havia necessidade
da companhia dos pais. Voltavam pelas ruas, tranqüilos, conversando
e rindo. Quase sempre as moças tiravam os sapatos e os
carregavam na mão. Entravam na padaria pelo fundo e compravam
pães quentinhos. A caminhada de volta era segura, pois
não havia riscos.
O
excesso que poderia haver era quando um ou outro moço tomava
um pilequinho e vinha mais alegre e tonto enquanto os outros riam
dele. Drogas? Nem se ouvia falar.
Se
havia ladrões? Sim, claro, de galinhas, de varal. Nas grandes
cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, na região
central, havia alguns batedores de carteiras (adultos) que hoje
ficariam corados diante dos pivetes assaltantes.
Meus
contemporâneos (nasci em 48) lembram bem desse tempo e como
eu testemunharam a passagem dele.
O
progresso foi chegando e as TVs foram levando as famílias
para dentro de casa. Foi chegando também a explosão
populacional e com ela o aumento da miséria, da marginalidade
e a introdução do narcotráfico na sociedade.
Tudo isso colaborou para que as famílias cada vez mais
se isolassem dentro das casas. Conforme suas posses, verdadeiras
fortificações foram erguidas e hoje, ficam tropeçando
num emaranhado de trancas e cadeados, muros altos, portões
elétricos, cercas elétricas, circuito interno de
TV, etc...
Mas,
nada disso está surtindo efeito. A violência continua
atingindo cada vez mais os cidadãos para além de
qualquer precaução.
Hoje,
vivemos num país cuja população está
mergulhada no medo, que se espalhou e atinge todas as camadas
sociais. Pessoas atônitas se perguntam o porquê de
tanta violência? Por que as "autoridades" perderam
a autoridade? Em que curva de rio ficaram enganchados nossos valores?
A
população atualmente sofre de baixa auto-estima.
Em decorrência desse medo e insegurança, há
como sintoma, um aumento de casos de depressão, ansiedade,
pânico, doenças psicossomáticas. É
o medo generalizado.
As
crianças não têm os medos típicos de
antes, que eram calcados em fantasias: saci, mula-sem-cabeça,
assombração. Agora, seus medos são reais:
assalto, seqüestro, da violência gratuita...
Penso
que os governos desse país não acompanharam a evolução
progressista e demográfica. Foram incompetentes quando
não foram contingentes com as necessidades de uma sociedade
que se expandia. Foram tolerantes com o crime organizado e desorganizado.
Não deram exemplo de austeridade e transparência
quando também foram tolerantes com o crime de colarinho
branco. Foram relapsos quando não equiparam convenientemente
os órgãos de segurança e quando não
pagam bem quem cuida da segurança da população
de um país.
Diante
da situação atual, realmente, não sei se
ainda podemos ter esperança de um dia sair às ruas
e conversar com os vizinhos – sem medo!
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