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   Viva!

           

      Adriana Vandoni Curvo
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      Outubro 29, 2005

 

   
 

Leia: Editorial

 

               Um amigo me aconselhou a parar de escrever sobre Lula. Outro, disse para escrever sobre economia, já que sou economista. É verdade, sou economista e ontem foi eleição no Conselho, quero aproveitar e agradecer os votos que a Chapa 2, da qual eu faço parte, recebeu. Pensei ... pensei ... e, apesar de saber que neste espaço escrever sobre economia não seria muito atrativo, resolvi ouvir o conselho dos dois. Pensei em falar sobre o “espetáculo de crescimento”, da China, e como erros estratégicos de uma política externa podem comprometer todo um setor, como ocorreu com um certo país, grande exportador de soja, quando desprezou a manobra da China para baixar o preço das commodities. Para não levar um pito de novo resolvi falar sobre a “atual conjuntura econômica”. Bonito, né?

               Respeitáveis economistas começam a prever o fim de mais um ciclo de crescimento da economia mundial. Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo o professor Barry Eichengreen, da Universidade de Berkeley, na Califórnia, disse que a bonança está perto do fim. Infelizmente esta é mais uma oportunidade não aproveitada pelo Brasil. Mais um período em que os monetaristas, agora comandados por “Paloffi”, sujeitam nossa sociedade a um modelo de gerenciamento da economia que sujeita toda a capacidade e dinamismo do nosso povo em troca de um superávit primário apenas para pagar juros da dívida.

               Marx disse que a história só se repete como farsa. Da mesma forma que diversas lideranças do PSDB eram contrárias à política econômica da era Malan, diversos membros do atual partido governista (observem que não estou falando nem o nome do partido) também são contrários ao atual conservadorismo da política econômica, similar ou pouco diferente do período Malan. São demonstrações do inegável poder de convencimento da elite financeira sobre os condutores da política econômica brasileira.

               Se no passado o apagão representou a visão distorcida da necessidade de investimentos do setor público em infra-estrutura, agora a falta de investimento no controle fito-sanitário, que facilitou o aparecimento da aftosa, também representa o mesmo que a preocupação exclusiva com o controle do déficit das contas do governo, que podem representar prejuízos maiores logo em seguida.

               Falta de investimento do governo e da iniciativa privada pouco estimulada, impedem a modernização da nossa infra-estrutura, criando horizontes sombrios para um país que pretende crescer e se desenvolver. Se em um futuro próximo tivermos condições para ter um crescimento duradouro e vigoroso, faltará energia para tocar nossas indústrias, estradas para transportar nossos produtos e portos para embarcá-los. Como pretendemos crescer se não temos como fazê-lo? É uma pergunta que faço aos atuais administradores.

               É inegável que a situação atual é bem melhor que em décadas passadas, quando não se tinha qualquer preocupação e respeito com as contas públicas, quando um governante após ter eleito seu sucessor, se gabava de para isso ter sido necessário quebrar o banco do estado, como disse Quércia em São Paulo, quando quebrou o Banespa. Hoje pelo menos o problema é outro, mas a extrema ortodoxia da política econômica engessa o futuro do nosso país. Fica claro que não devemos agir nem tanto ao céu, nem tanto à terra.

               Um exemplo disso é a nossa atual política cambial. O Presidente da República (aquele que neste artigo eu não posso dizer o nome) questionou as críticas a esse modelo declarando que sempre desejamos um câmbio flutuante. Usou esse argumento para afirmar que não mudará essa política no seu governo. Sem dúvida o câmbio flutuante é uma medida mais eficaz para refletir o real valor da moeda do nosso país. A utilização da moeda como âncora para o controle inflacionário já se mostrou ineficaz tanto aqui, quando FHC foi obrigado a desvalorizá-la, como na Argentina, que quebrou e desvalorizou sob pressão da quebra do país.

               O atual modelo de flutuação cambial, em um momento de excesso de liquidez mundial, é completamente distorcido, já que a entrada maciça de moeda estrangeira em busca dos nossos juros elevados, sobrevaloriza nossa moeda e falseia o seu real valor. Isso aumenta o valor dos nossos produtos no exterior e, aos poucos impede uma maior competitividade com os outros países. Não é à toa que a China teima em manter sua moeda desvalorizada e domina a economia mundial.

               Como disse, parece que este ciclo de liquidez mundial está acabando. Se de fato isso vier a ocorrer, levará todo esse dinheiro de volta à sua origem, ou em socorro às perdas em outros países. A conseqüência disso é que deixará aqui empresas sucateadas ou pouco competitivas internacionalmente, deixará de atuar como âncora para o controle inflacionário, já que o valor do dólar acabará subindo, estimulando um novo retorno da inflação, culminando em um novo ciclo interno de aumento de juros para conter a volta da inflação.

Pronto, acabei e não falei dele. Viva eu!!!

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