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   Os cafetões oficiais

           

      Adriana Vandoni Curvo
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      Junho 07, 2005

 

   
 

Leia: Editorial

 

               Este governo está confundindo as coisas, novamente. O deputado Fernando Gabeira, que é uma pessoa admirável na sua luta pela democracia, formulou um projeto de lei que no lugar de incluir ou sanar um problema, vai legalizar uma desigualdade social. É a regularização da profissão de prostituta. Projeto aprovado pelo ministro da justiça Thomaz Bastos que declarou em 2003 que "A minha posição é idêntica à do deputado Gabeira".

               A legalização da prostituição não tem função social alguma, vai no máximo legitimar abusos. Não venham me dizer os “Gabeiras” da vida, que por serem prostitutas ou como o próprio Gabeira as denomina “mulheres horizontalmente acessíveis”, se realizam como pessoa ou indivíduo e têm orgulho do que fazem. Não queiram me convencer que elas se tornam “prestadora de serviços sexuais” por vocação e não por falta de opção. Isso é devaneio químico ou fumaçóide. Há de se fazer sim campanhas de esclarecimento, de prevenção de doenças e de proteção à vida, tudo que possa dar certa dignidade a essas mulheres que não tiveram escolha.

               Seriam medidas emergenciais e paliativas que deveriam funcionar como um item de uma política de inclusão social e de crescimento econômico capaz de aumentar o número de postos de emprego.

               Recriminar a prostituição não é uma coisa que sai das cabeças preconceituosas da burguesia dominante e opressora, como podem achar os “Gabeiras”. Prostituição é uma disfunção social causada por falta de ações efetivas do Estado que deveria dar as condições básicas de vida digna. Regularizar a profissão ou dar um novo nome, um que seja “politicamente correto”, será útil para diminuir a peso da culpa de um governo ou de legisladores que não se sentem competentes para atacar o mal maior que é a entrada de meninas pobres, moradoras das periferias do país que, sem horizontes, encontram na prostituição uma forma de sobreviverem.

               Não acredito que exista uma prostituta que, com condições sociais, financeiras e psíquicas, “apenas” tenha optado por essa profissão. O que o deputado Gabeira chama de “serviço de natureza sexual”, nada mais é que uma degradação humana decorrente da pobreza, da falta de educação, de trabalho e de perspectiva de vida. É o reflexo da incapacidade de uma nação em oferecer futuro de qualidade ao seu povo.

               Esses “doidões” deveriam se ocupar em buscar alternativas para diminuir o número de mulheres sem futuro, que são levadas deste país, por mercadores internacionais, iludidas que encontrarão oportunidades e acabam nos bordéis baratos da Europa, escravizadas, pois a primeira coisa que lhes tomam é o passaporte. Segundo relatório da ONU, na Europa, 95% das prostitutas brasileiras foram traficadas. Enquanto isso o Ministério do Trabalho elabora um manual de sacanagem. No Kama Sutra Estatal diz, por exemplo, que a puta deve demonstrar capacidade de persuasão, de realizar fantasias eróticas, de se comunicar em língua estrangeira e ser paciente. Essa paciência seria quando o cliente é um “indivíduo enrijecidamente prejudicado”? Vai entender o que se passa pela cabeça do Ministro e sua equipe!

               O Brasil é um grande exportador de mulheres. Então é isso? A intenção do governo leniente e do deputado Gabeira é transformar o Brasil em exportador mulheres. Se isso acontecer o governo vai sim, como disse em um artigo o senador Antero Paes de Barros (PSDM/MT), ser o cafetão oficial.

               O site do Ministério do Trabalho traz com riqueza de detalhes os pré-requisitos oficiais para o exercício da profissão, inclusive o conselho de “respeitar código de não cortejar companheiros de colegas de trabalho”. Vale a pena entrar e conferir.

               Recomendo também, este é imperdível, o site do Gabeira. “É muito louco, cara! Uma viagem astral”. Tem até uma reportagem sobre um prostíbulo voador no Chile. Ele é capaz de ir, com a mesma desenvoltura, da puta à energia nuclear.

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