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"Maior
de todos" fura
a
Roupa do Rei
Berta Ataíde
15, Janeiro/2004
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O piloto Dale Robbin
Hersh da AA, American Airlines, nem de longe sonha que
muitos brasileiros já fizeram uma fezinha no
jogo do bicho com o número do registro dele.
No jogo do bicho, paixão do povo brasileiro onde
há unamidade nacional, ilegal mas existe e amado
e reconhecido pela população do Brasil.
O ponto é
que, o piloto americano não fez gesto obsceno
pois ele não mostrou o dedão "maior
de todos" para os policiais da PF. O que
aconteceu foi por dedução como se pode
ver na foto, a menos que as informações
relatadas na imprensa não estejam completas.
Digamos que a forma do piloto segurar o papel com o
número de registro tenha sido infeliz, ou , vamos
admitir que tenha tido a intenção de mandar
todo mundo, mas, ainda assim, não deixa de ser
uma dedução, uma especulação.
O outro dado seria de que a tripulação
teria achado engraçado o dedão do piloto.
Quantas vezes alguém faz um gesto ou fala alguma
coisa que chama atenção sem que ela própria
se dê conta do que aconteceu ? A isso chama-se
gafe, mancada, vacilo, distração etc.
Está aqui uma coisa que o Brasil todo vem constantemente
assistindo e tanto, que até já se acostumou.
Mesmo que o cidadão
americano tenha dito alguma frase desrespeitosa aos
nossos policiais, o assunto deve ser tratado como um
incidente diplomático como o avião
francês que posou em solo brasileiro e nunca deu
satisfação, nem a diplomacia brasileira
insistiu. Com certeza, se o fato tivesse se dado em
território americano, no atual momento, a resposta
não seria condescendente, mas teria justificativas
de sobra. Como não assiti à cena do piloto,
fica impossível saber o quê exatamente
aconteceu. Será que ele falou o que significava
o dedão aí da foto? Do contrário
o desacato fica por conta da dedução.
O perigo é isso: punir por dedução.
A moda pegando, amanhã qualquer cidadão
poderá ser acusado de desacato por um nadinha,
mas é sempre bom lembrar que existe em contrapartida,
o abuso de poder por parte da autoridade. Agora, tendo
acontecido de fato, ou não, a imagem empresarial
da AA sai arranhada nessa história toda.
Conseqüência
imediata do caso do piloto, as pesquisas feitas na Rede
mostram que quase 99,9% dos brasileiros que postaram mensagens
a favor da prisão do piloto Dale Robbin Hersh evocam
que se o caso tivesse acontecido com um piloto da Varig,
em território americano, seria preso imediatamente.
Este é o argumento comum a todos, mas, muitos acrescentam
e dão ênfase para a arrogância do povo
americano.
As argumentações
demonstram que o povo brasileiro não se acha maduro
o suficiente para fazer parte de um júri popular.
Apaixonadamente ou imaturamente ou pior, histericamente,
se pronuncia de maneira que envergonha, tal a violência
incontida. Nos fóruns de postagem, com clareza, pode-se
ver o quanto a população brasileira desconhece
e nem está interessada em buscar um mínimo
de conhecimento para só depois fazer algum juízo
de valor. Somos incapazes de demonstramos um mínimo
de capacidade de lucidez, de reflexão distanciada.
1)
Ninguém faz questão de se lembrar que o fichamento
dos americanos em território brasileiro não
foi um ato Constitucional, ou seja, que deveria ser uma
iniciativa do Presidente Lula e portanto não pode
ser entendido sequer como um Ato de Reciprocidade. Embora
seja desejável o fichamento, que diríamos
cadastramento, de todo e qualquer estrangeiro.
2)
Por tratar-se de um assunto que deveria ter sido negociado
pelo Corpo Diplomático brasileiro com a Diplomacia
americana, antes de qualquer outra iniciativa como essa
do tal Ato de Reciprocidade.
Temos aqui um
viés da legalidade, um mau exemplo que expõe
o Brasil aos olhos do mundo, não como um país
de povo varonil, mas como um país que desconhece
sua própria Constituição. Um povo que
não tem a menor idéia do que fala porque fala
pelo coração e nenhuma palavra passa pelo
intelecto.
Esse precedente
pode, amanhã, valer para a ordem interna. Mesmo que
todos saibam que nossa Constituição é
uma colcha de retalhos cuja estamparia foi desenhada a partir
dos interesses dos Constituintes da época, ainda
assim precisa urgentemente ser respeitada e cumprida e mais,
finalizada.
Frases como:
a
"Esse ignorante americano precisa
saber que aqui tem ordem... " é
no mínimo uma cócega desse brasileiro carente
de respeito.
a
Sim
pois devia entender que são normas editadas num país estranho
ao seu e como membro de uma "civilização
superior" deveria ter no mínimo bom senso e
respeito. Afinal, quem são os cucarachas ??? Acho que
o povo americano merece o presidente que tem, merece suas
bobagens e especialmente merece as noites mal dormidas
pela insegurança ao terrorismo, fomentado também pela
arrogancia, pseudo superioridade e falta de compreensão
e de educação e respeito as outras culturas. Legalmente
ele cometeu um delito , logo deve ser punido como tal.
Que olhar confere a "civilização
superior"? Se nós achamos que eles se sentem
assim, é sinal de que nós nos sentimos "inferiores".
a
"Está na hora de mostrar para
o mundo, que o Brasil é um pais de respeito, e que nenhum
baderneiro vem aqui fazer o que quer, muito menos ofender
o povo brasileiro que acolhe os estrângeiros com muito
carinho. Ele têm que ser punido para que sirva de exemplo".
Antes de mostrar ao mundo, mostremos
a nós mesmos.
a
"Sem dúvida deve responder
no Brasil, desde que estejamos dentro do que estabelecem
as leis brasileiras. Como seria caso fosse preso nos EUA?
Acho que deve ser tratado como um estrangeiro qualquer
que infringe as leis de um país". No
caso, não houve infração da Lei.
a
"Deve receber o mesmo tratamento
que certamente receberia um brasileiro que desacatasse
uma autoridade da imigração americana: CADEIA imediata
e processo por desacato e desobediência as leis do país.
Deve permanecer na CADEIA até o final do processo e se
condenado cumprir pena no Brasil, assim como os brasileiros
que infringem as leis americanas fazem". Essa
fome é sintomática e mereceria uma grande
discussão entre os profissionais de psicanálise
e psicologia social.
Na verdade o
piloto não cometeu nenhum crime, muito menos ato
de desobediência às "leis" brasileiras
visto que ele posou para a foto e tocou piano juntamente
com toda tripulação. Ele não se recusou
a obedecer ao estabelecido pelo governo brasileiro. Corre
aí com esse artigo pra ir pro ar.
Quanto ao ato
de desacato à autoridade, aí só tenho
que confiar na palavra da autoridade, até porque
a PF tem outra formação e outra qualidade
de treinamento distintas das outras corporações
policiais. Além do que, seus homens costumam ser
firmes, mas sabem controlar emoções e pruridos
e não costumam ser rudes ( pela formação
e origem ) gratuitamente. Mas como em toda profissão,
há os que falham até por serem humanos tanto
quanto o piloto americano pode ter falhado.
Quatro coisas
são líquidas e certas:
1) a auto-estima
do povo brasileiro está abaixo do suportável.
Estamos precisando fabricar criminosos hediondos pois os
que aqui existem não nos satisfazem mais. Nem o criminoso
em série que matou as 14 crianças e as estuprou,
por desrespeito e pouco caso do Estado à vida do
povo, é suficiente para nos revelar impotentes e
infelizes, pois o clamor não se comparou. Isto mostra
que precisamos esconder nossas feridas sangrentas de fabricação
genuinamente nacional. Toda guerra interna que vivemos se
transforma em pano de fundo confeccionada com o mesmo tecido
da Roupa do Rei que foi rasgada por um dedo estadunidense.
2) A infelicidade
e frustração do povo brasileiro se projeta
no sentimento anti-americano subliminarmente injetado. Estamos
sedentos da necessidade de sermos respeitados aqui dentro,
primeiro. Cegos, ficamos gritando por vestuário externo
sem pensarmos na roupa de baixo. Pela ausência do
respeito e da segurança que não temos aqui,
como indivíduos, em nossa casa, é compreensível
esse clamor sintomático. O
Brasil e as autoridades brasileiras não nos respeitam
mas o mundo tem que nos respeitar. Faz sentido.
3) o perigo
iminente que representa essa histeria coletiva contra um
país do nosso próprio continente.
4) os
brasileiros que moram nos Estados Unidos estarão
voltando ao Brasil, definitivamente, e os turistas brasileiros
descobrirão que existem países em outros Continentes.
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