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“Aqueles que,
conquanto desaprovem o caráter e as medidas de um determinado
governo, prestam-lhe sujeição e apoio, são os seus partidários
mais conscientes, e por isso, amiúde, o mais sério obstáculo
à reforma.” Trecho da obra “A Desobediência Civil”, do norte-americano
Henry Thoreau (1817-1860), fonte de inspiração do Mahatma
Gandhi, na luta pacífica pela libertação da Índia do jugo
britânico”.’
Se há coisa
que não deu certo foi o Código Nacional de Trânsito. Igualar
multas de Itacotiara com as de Ipanema, só pode ter nascido
de um grande porre da centralização legislativa. Pior do que
beber dirigindo um veículo é sofrer com os resultados do porre
mental governando um país. Beber na estrada, pode fazer algumas
vítimas, mas legislar de porre mental costuma vitimar a todos,
além de institucionalizar a desobediência à lei. Executá-la
de porre, físico ou mental, simplesmente, coroa a demolição
geral da sociedade organizada, revelando-se como fator preponderante
de fomento à insegurança jurídica geral.
A ABIN do Vaticano,
certamente muito mais confiável do que a CIA, deve ter assoprado
nos ouvidos do notável Bento XVI sobre as curiosidades de
Pindorama. Uma delas, é ter que agüentar os puxões de braço
e a intimidade fingida, exagerada das autoridades brasílicas,
na tentativa de cooptar, através de falsas demonstrações de
afeto ateu, apoio às negociações espúrias. Bento XVI saiu-se
muito bem, apesar de sua formação austera, típica do pontifício
e de sua origem natal. Levou a coisa toda no sorriso benevolente,
superior, e num jogo de corpo que ultrapassou a capacidade
física de oitenta anos dos mortais comuns.
Nos jornais
de hoje, com Bento XVI já em casa, vê-se que o Papa teve toda
a razão do mundo para criticar o autoritarismo, vigente no
continente mais católico do mundo. Ele, talvez, jamais possa
imaginar quão elevado é o grau de burrice que anda solto pela
América Latina. Vivemos sob um porre hiperbólico de autoritarismo.
Aliás, o autoritarismo quando não é burro, no mínimo, vem
tentar encontrar um bode expiatório para suas próprias mazelas.
Noticia-se, então, que um novo PAC foi proposto pelo ministro
Temporão, da Saúde. O Globo de hoje, ainda, alerta, para quem
não saiba que o ministro não é o próprio poder temporal em
ação: “O governo encampou a proposta do ministro da Saúde,
José Gomes Temporão, e incluirá no PAC da Segurança a proibição
ou restrição da venda de bebidas alcoólicas em bares ao longo
das rodovias. A medida é para tentar reduzir o número de acidentes,
que custam ao país R$ 22 bihões por ano”.
Ora, a preocupação
em lidar com os efeitos desastrosos do trânsito caótico, levam
autoridades a exercitar o autoritarismo incidente em suas
mentes acidentadas. Não se fala em educação e justiça para
o trânsito, mas em golpear a liberdade das pessoas, tirando-lhes
a responsabilidade pelas más escolhas. A culpa seria, não
da péssima engenharia rodoviária e de tráfego, dos desvios
de verbas, ou do policiamento corrupto e truculento, das leis
ineficazes, mas da bebida que é vendida legalmente na beira
das estradas, aos maiores de idade. A conclusão imediata,
é que os motoristas poderão comprar na esquina, próxima à
rodovia ou bem antes, não importa, a bebida que quiserem beber
em viagem. Mais uma lei idiota, sem qualquer mérito e certamente
autoritária. Em breve, quem sabe, ninguém poderá fumar nas
rodovias. O sujeito terá que fumar como menino envergonhado,
escondendo o pito sob a mão em concha, mas sendo multado por
estar dirigindo como maneta... Enquanto isso, a cabine da
polícia rodoviária, estará esfumaçada de tanto sufoco...
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( * ) Jorge Ernesto Macedo
Geisel é advogado.
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