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É
extremamente triste e preocupante o que temos presenciado.
Um presidente eleito por maioria absoluta, dando sucessivas
demonstrações de pobreza de pensamento ao expressar-se publicamente,
desrespeitando e agredindo a língua pátria de forma vergonhosa
e gritante, talvez achando (e isto é uma avaliação bastante
otimista) que o nivelamento por baixo seja uma forma válida
de comunicação e liderança política, mas que, na verdade,
somente representa uma profunda falta de respeito e consideração
com o povo, lembrando-lhes, a todo o momento, suas deformações
de formação educacional e cultural por força das exclusões
a que vem sendo historicamente submetido pelas elites que
têm feito a história do nosso país.
Lemos
na mídia que nosso presidente parece que não “lê nem bula
de remédio”, e quem não adquiriu o hábito da leitura não aprendeu
a pensar com clareza; como quem não sabe pensar não assimilou
(e parece sem vontade de assimilar) a bagagem cultural necessária
para ocupar com competência, talvez, o cargo mais simples
possível em qualquer ambiente institucional, tememos pelo
que possa acontecer ao futuro do nosso país.
Nossas
preocupações maiores se resumem na hipótese do povo cometer
uma nova insanidade, agora consciente, de manter o poder político
nas mãos de um partido e de seu representante, que estão dando
seguidas demonstrações de que seu objetivo é, em um primeiro
momento, obter o poder pelo poder de uma forma populista às
avessas; fala para os pobres e menos oprimidos com suas mensagens
rudes e grosseiras como se fosse um messias de uma nova verdade
e, por outro lado, adula as elites, a alta burguesia e seus
cúmplices, prometendo respeitar os “contratos sociais”, para
depois dar o golpe final na nação, do qual não temos ainda
idéia de sua profundidade, dimensão ou direção, apesar de
já estarmos bastante preocupados e assustados com as possibilidades
que se apresentam cada vez mais fortes e presentes. Não devemos
nos esquecer, apesar da “síndrome do Genoíno (*)” dos arroubos
autoritários contra a liberdade de impressa e contra a criação
cultural que já vivenciamos durante os dois primeiros anos
do governo petista.
São
evidentes e reincidentes as tentativas de autoglorificação
pelo presidente, talvez inspirada em um modelo de governo
fascista, sujeitando através do seu “discurso” a vontade popular
à sua “verdade” como fonte legítima da lei e da ordem e de
novos caminhos para a sociedade, com rigorosa ênfase mais
na irracionalidade do que na razão, e com realce às emoções
e aos sentimentos populares “de igual para igual”, expressados
de forma absolutamente rasteira nos palanques improvisados
das oportunidades de “campanha eleitoral”.
A
base de preservação da admiração populista às avessas, já
vem sendo diligentemente arquitetada através de políticas
assistencialistas que substituem, por exemplo, a esperada
revolução no processo educacional para melhorar a formação
escolar e crítica do povo brasileiro e os milhões de empregos
prometidos com salários dignos, por obrigatoriedade de vagas
nas universidades, pela propagação do empreguismo estatal,
e através da criação sistemática de alternativas clientelistas,
que são os “benefícios” disfarçados na mais nova moeda de
reciprocidade do estado assistencialista para o aliciamento
político das classes menos privilegiadas, através de uma encenação
de assistência social a elas: os cartões de benefícios e outros
artifícios.
Sob
o ponto de vista econômico, o poder absoluto de decidir nossos
destinos está nas mãos do Ministro da Fazenda e do blindado
presidente do Banco Central com sua equipe executiva – quase
toda originária do mercado financeiro; todos fazem ouvido
de mercador para as reclamações da sociedade organizada sobre
a manutenção dos juros mais altos do mundo, mas atendem e
agradam plenamente às expectativas dos banqueiros, que em
última instância, são os modernos donatários dos capitais
públicos que alimentam a desgraça dos pobres e menos favorecidos
do nosso país, além de desmotivarem – pelo custo de oportunidade
alternativo – os empresários a assumirem riscos de investimentos
estruturais na economia, inibindo o caminho para o desenvolvimento
sustentado, já que investir em papéis do desgoverno Lula é
muito mais interessante e dá menos “dores de cabeça”.
As
elites e seus cúmplices, que representam apenas pouco mais
de seis por cento da nossa população, por enquanto, estão
cada vez mais felizes, apesar do presidente, em uma de suas
frases dotadas de uma profunda irracionalidade em um “daqueles
de seus discursos” (para os carteiros), expressar com a maior
cara de pau do mundo, que os ricos estão inconformados com
as conquistas dos pobres nos seus dois anos de governo.
– Que
conquistas dos pobres foram essas?
– Terem
fortalecido seu papel de pedintes humilhados nas filas dos
cartões de benefícios do governo?
– Continuarem sendo excluídos de uma formação educacional
pública, durante o ensino fundamental e médio, com a qualidade
que lhes permita lutar com seu próprio esforço, orgulho, auto-estima
(a verdadeira) por uma vida mais justa e digna na qualidade
de contribuintes que sustentam o algoz estatal?
– Continuarem morando em guetos residenciais sem perspectiva
de uma vida mais digna e justa?
– Ganharem o direito de freqüentar uma Universidade sem estarem
preparados para passar nas provas de qualificação?
– Terem ficado mais pobres com a troca de emprego?
– Terem obtido um emprego com salário de fome?
– Estarem recolhendo cada vez mais impostos para sustentar
o gigantismo estatal e o pagamento compulsório dos juros da
dívida interna com os compradores dos papéis do governo?
– Continuarem sofrendo nas filas e no atendimento do SUS (Sistema
Único de Sofrimento).
– Continuarem sendo explorados pelos planos de saúde privados
tendo que viver com extremas dificuldades para garantir sua
assistência médica?
– Continuarem sendo assassinados ou chantageados pelo crime
organizado e pelo tráfico de drogas?
– Ficarem noites em claro nas filas para conseguirem vagas
nas escolas públicas?
– Continuarem pagando “crediários sem juros” com juros extorsivos
embutidos nas prestações, porque são sistematicamente iludidos
pelas propagandas mentirosas dos exploradores da boa fé do
povo?
– Um crescimento econômico que não resgata nem de longe a
dimensão das promessas de campanha e que continua favorecendo
prioritariamente o topo da pirâmide social e os banqueiros
exploradores do povo?
– Etc.
Por
tudo isso, determinados tipos e freqüentes falas do presidente,
são a fusão “criativa” do não saber falar e do não saber do
que está falando com o não falar sério, com a nítida intenção
de tentar se expressar na “linguagem do povo para ser mais
bem compreendido” com o artifício de uma comunicação rigorosamente
inadequada, grosseira e ofensiva à língua pátria, para alguém
que ocupa o cargo de presidente da república.
Temos
a esperança de que, em algum momento, os noventa por cento
da sociedade que são explorados e manipulados – com a cumplicidade
covarde da mídia cúmplice do poder – desperte dos efeitos
da “magia do Príncipe” e saiba identificar o que os poderes
dominantes estão fazendo com suas vidas, com o futuro de suas
famílias e com o futuro do país.
Infelizmente
estamos meio que entregues à nossa própria sorte, pois o nosso
Congresso (com algumas exceções de políticos que isoladamente
nada podem fazer) que oferece para seu corpo político e administrativo
o melhor emprego do mundo, se virou contra os eleitores (o
povo que os sustenta) e está permitindo, sem contestação relevante
ou coletiva, que o sistema de valores políticos, sociais,
econômicos morais e éticos que deve suportar uma sociedade
soberana, digna e justa, esteja de forma metódica e sem hesitação,
sendo destruído por nossos algozes, entre outras barbaridades
que estamos presenciando nos dois últimos anos.
Continuar
nivelando por baixo os pobres e menos favorecidos negando-lhes
as oportunidades, de um emprego digno com remuneração justa,
de uma melhor assistência médica, de uma melhor habitação,
de uma maior segurança, de um melhor saneamento básico e de
uma melhor formação educacional de base, demonstra a incompetência
e a fragilidade de uma liderança que está utilizando um discurso
obscuro e tosco com conotações fascistas, pois está impregnado
dos germes da autoglorificação de um presidente; é a forma
de compensar seus desacertos políticos, administrativos e
sua condição de prisioneiro das celas do despreparo educacional
e cultural que o fizeram refém dos representantes dos exploradores
e manipuladores de nossa sociedade, que compõem e comandam
os núcleos de poder de sua equipe de governo.
A
preservação desse processo de “redesenho da cabeça do povo”
pela glorificação do seu líder de momento, mais cedo ou mais
tarde resultará em um sério risco de degeneração do tecido
social pela provável revolta com a descoberta coletiva das
ilusões plantadas que não se tornaram realidade.
É
somente uma questão de tempo pois não é possível que se continue
enganando impunemente milhões de pessoas com um discurso onde
uma motivação sistemática à auto-ajuda do povo pelo povo,
estimulada pelo governo através da propagação da falsa e frágil
auto-estima, seja a peça principal da sobrevivência política
de um governo equivocado nas suas atitudes, incompetente na
administração dos problemas sociais mais graves, mas perfeitamente
claro nas suas intenções.
(*) Em conversa
com amigos, José Genoíno comparou a eventual expulsão de Virgílio
com a dos deputados Babá, Luciana Genro e João Fontes e da
senadora Heloísa Helena: “Em um mês ninguém mais falaria no
assunto”. (Coluna Cláudio Humberto).
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