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   Dignidade à deriva

           

     Geraldo Almendra ( * )
     
Comunique-se

     23 de Março/2005

 

   
 

Leia: Editorial

 

               É extremamente triste e preocupante o que temos presenciado. Um presidente eleito por maioria absoluta, dando sucessivas demonstrações de pobreza de pensamento ao expressar-se publicamente, desrespeitando e agredindo a língua pátria de forma vergonhosa e gritante, talvez achando (e isto é uma avaliação bastante otimista) que o nivelamento por baixo seja uma forma válida de comunicação e liderança política, mas que, na verdade, somente representa uma profunda falta de respeito e consideração com o povo, lembrando-lhes, a todo o momento, suas deformações de formação educacional e cultural por força das exclusões a que vem sendo historicamente submetido pelas elites que têm feito a história do nosso país.

               Lemos na mídia que nosso presidente parece que não “lê nem bula de remédio”, e quem não adquiriu o hábito da leitura não aprendeu a pensar com clareza; como quem não sabe pensar não assimilou (e parece sem vontade de assimilar) a bagagem cultural necessária para ocupar com competência, talvez, o cargo mais simples possível em qualquer ambiente institucional, tememos pelo que possa acontecer ao futuro do nosso país.

               Nossas preocupações maiores se resumem na hipótese do povo cometer uma nova insanidade, agora consciente, de manter o poder político nas mãos de um partido e de seu representante, que estão dando seguidas demonstrações de que seu objetivo é, em um primeiro momento, obter o poder pelo poder de uma forma populista às avessas; fala para os pobres e menos oprimidos com suas mensagens rudes e grosseiras como se fosse um messias de uma nova verdade e, por outro lado, adula as elites, a alta burguesia e seus cúmplices, prometendo respeitar os “contratos sociais”, para depois dar o golpe final na nação, do qual não temos ainda idéia de sua profundidade, dimensão ou direção, apesar de já estarmos bastante preocupados e assustados com as possibilidades que se apresentam cada vez mais fortes e presentes. Não devemos nos esquecer, apesar da “síndrome do Genoíno (*)” dos arroubos autoritários contra a liberdade de impressa e contra a criação cultural que já vivenciamos durante os dois primeiros anos do governo petista.

               São evidentes e reincidentes as tentativas de autoglorificação pelo presidente, talvez inspirada em um modelo de governo fascista, sujeitando através do seu “discurso” a vontade popular à sua “verdade” como fonte legítima da lei e da ordem e de novos caminhos para a sociedade, com rigorosa ênfase mais na irracionalidade do que na razão, e com realce às emoções e aos sentimentos populares “de igual para igual”, expressados de forma absolutamente rasteira nos palanques improvisados das oportunidades de “campanha eleitoral”.

               A base de preservação da admiração populista às avessas, já vem sendo diligentemente arquitetada através de políticas assistencialistas que substituem, por exemplo, a esperada revolução no processo educacional para melhorar a formação escolar e crítica do povo brasileiro e os milhões de empregos prometidos com salários dignos, por obrigatoriedade de vagas nas universidades, pela propagação do empreguismo estatal, e através da criação sistemática de alternativas clientelistas, que são os “benefícios” disfarçados na mais nova moeda de reciprocidade do estado assistencialista para o aliciamento político das classes menos privilegiadas, através de uma encenação de assistência social a elas: os cartões de benefícios e outros artifícios.

               Sob o ponto de vista econômico, o poder absoluto de decidir nossos destinos está nas mãos do Ministro da Fazenda e do blindado presidente do Banco Central com sua equipe executiva – quase toda originária do mercado financeiro; todos fazem ouvido de mercador para as reclamações da sociedade organizada sobre a manutenção dos juros mais altos do mundo, mas atendem e agradam plenamente às expectativas dos banqueiros, que em última instância, são os modernos donatários dos capitais públicos que alimentam a desgraça dos pobres e menos favorecidos do nosso país, além de desmotivarem – pelo custo de oportunidade alternativo – os empresários a assumirem riscos de investimentos estruturais na economia, inibindo o caminho para o desenvolvimento sustentado, já que investir em papéis do desgoverno Lula é muito mais interessante e dá menos “dores de cabeça”.

               As elites e seus cúmplices, que representam apenas pouco mais de seis por cento da nossa população, por enquanto, estão cada vez mais felizes, apesar do presidente, em uma de suas frases dotadas de uma profunda irracionalidade em um “daqueles de seus discursos” (para os carteiros), expressar com a maior cara de pau do mundo, que os ricos estão inconformados com as conquistas dos pobres nos seus dois anos de governo.

Que conquistas dos pobres foram essas?
Terem fortalecido seu papel de pedintes humilhados nas filas dos cartões de benefícios do governo?
– Continuarem sendo excluídos de uma formação educacional pública, durante o ensino fundamental e médio, com a qualidade que lhes permita lutar com seu próprio esforço, orgulho, auto-estima (a verdadeira) por uma vida mais justa e digna na qualidade de contribuintes que sustentam o algoz estatal?
– Continuarem morando em guetos residenciais sem perspectiva de uma vida mais digna e justa?
– Ganharem o direito de freqüentar uma Universidade sem estarem preparados para passar nas provas de qualificação?
– Terem ficado mais pobres com a troca de emprego?
– Terem obtido um emprego com salário de fome?
– Estarem recolhendo cada vez mais impostos para sustentar o gigantismo estatal e o pagamento compulsório dos juros da dívida interna com os compradores dos papéis do governo?
– Continuarem sofrendo nas filas e no atendimento do SUS (Sistema Único de Sofrimento).
– Continuarem sendo explorados pelos planos de saúde privados tendo que viver com extremas dificuldades para garantir sua assistência médica?
– Continuarem sendo assassinados ou chantageados pelo crime organizado e pelo tráfico de drogas?
– Ficarem noites em claro nas filas para conseguirem vagas nas escolas públicas?
– Continuarem pagando “crediários sem juros” com juros extorsivos embutidos nas prestações, porque são sistematicamente iludidos pelas propagandas mentirosas dos exploradores da boa fé do povo?
– Um crescimento econômico que não resgata nem de longe a dimensão das promessas de campanha e que continua favorecendo prioritariamente o topo da pirâmide social e os banqueiros exploradores do povo?
– Etc.

               Por tudo isso, determinados tipos e freqüentes falas do presidente, são a fusão “criativa” do não saber falar e do não saber do que está falando com o não falar sério, com a nítida intenção de tentar se expressar na “linguagem do povo para ser mais bem compreendido” com o artifício de uma comunicação rigorosamente inadequada, grosseira e ofensiva à língua pátria, para alguém que ocupa o cargo de presidente da república.

               Temos a esperança de que, em algum momento, os noventa por cento da sociedade que são explorados e manipulados – com a cumplicidade covarde da mídia cúmplice do poder – desperte dos efeitos da “magia do Príncipe” e saiba identificar o que os poderes dominantes estão fazendo com suas vidas, com o futuro de suas famílias e com o futuro do país.

               Infelizmente estamos meio que entregues à nossa própria sorte, pois o nosso Congresso (com algumas exceções de políticos que isoladamente nada podem fazer) que oferece para seu corpo político e administrativo o melhor emprego do mundo, se virou contra os eleitores (o povo que os sustenta) e está permitindo, sem contestação relevante ou coletiva, que o sistema de valores políticos, sociais, econômicos morais e éticos que deve suportar uma sociedade soberana, digna e justa, esteja de forma metódica e sem hesitação, sendo destruído por nossos algozes, entre outras barbaridades que estamos presenciando nos dois últimos anos.

               Continuar nivelando por baixo os pobres e menos favorecidos negando-lhes as oportunidades, de um emprego digno com remuneração justa, de uma melhor assistência médica, de uma melhor habitação, de uma maior segurança, de um melhor saneamento básico e de uma melhor formação educacional de base, demonstra a incompetência e a fragilidade de uma liderança que está utilizando um discurso obscuro e tosco com conotações fascistas, pois está impregnado dos germes da autoglorificação de um presidente; é a forma de compensar seus desacertos políticos, administrativos e sua condição de prisioneiro das celas do despreparo educacional e cultural que o fizeram refém dos representantes dos exploradores e manipuladores de nossa sociedade, que compõem e comandam os núcleos de poder de sua equipe de governo.

               A preservação desse processo de “redesenho da cabeça do povo” pela glorificação do seu líder de momento, mais cedo ou mais tarde resultará em um sério risco de degeneração do tecido social pela provável revolta com a descoberta coletiva das ilusões plantadas que não se tornaram realidade.

               É somente uma questão de tempo pois não é possível que se continue enganando impunemente milhões de pessoas com um discurso onde uma motivação sistemática à auto-ajuda do povo pelo povo, estimulada pelo governo através da propagação da falsa e frágil auto-estima, seja a peça principal da sobrevivência política de um governo equivocado nas suas atitudes, incompetente na administração dos problemas sociais mais graves, mas perfeitamente claro nas suas intenções.

(*) Em conversa com amigos, José Genoíno comparou a eventual expulsão de Virgílio com a dos deputados Babá, Luciana Genro e João Fontes e da senadora Heloísa Helena: “Em um mês ninguém mais falaria no assunto”. (Coluna Cláudio Humberto).

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