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    A grandeza que não temos

 

       Maria Lucia Victor Barbosa*
       08, Novembro/2004

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O PT subiu no mourão

Existe uma pequenez política que incomoda nesse Brasil tão grande geograficamente. Historicamente essa situação pode ser explicada pela secular inexistência em nosso País de uma cultura cívica que ressalte valores como honra, lealdade, coragem, senso de justiça, espírito público, noção de direitos e deveres, visão de bem comum. Nunca ligamos para tais atributos, apenas apreciados em estórias em quadrinhos. Desse modo, pouquíssimos foram nossos heróis através dos quais essas qualidades foram enaltecidas. Além do mais, nos faltou de início, como afirmou Oliveira Vianna em “Instituições Políticas Brasileiras”, o sentimento de “Estado Nacional”, e isso desvirtuou o próprio exercício do poder uma vez que os eleitos, ao invés de se inspirarem nos interesses da Nação, geralmente se voltaram para interesses pessoais que privilegiam também suas famílias e grupos de amigos. Essa é a origem das oligarquias brasileiras num tipo de Estado que sempre foi excessivamente centralizador, clientelista, nepotista, paternalista, burocratizado e, por conseqüência, incompetente e corrupto.

No presente essa herança histórica se acentuou. Num contexto moderno e globalizado, onde já deveríamos ter evoluído politicamente, o que se observa é a pequenez e a mediocridade dos comportamentos e das atitudes de muitos dos detentores de cargos de poder. Isso ficou evidente após o término das eleições municipais, quando se observa o Partido dos Trabalhadores “lavando roupa suja” em público num espetáculo pouco dignificante de revanchismo e falta de espírito democrático.

Exemplo marcante vem da capital paulista, onde impressiona a egolatria da prefeita Marta Suplicy e a inaceitação de sua derrota por parte de seus correligionários. Após o resultado que consagrou o adversário do PSDB, José Serra, a prefeita desapareceu parecendo dizer: “depois de mim o dilúvio”, pois como num simbolismo ofertado pela natureza, uma forte tempestade mergulhou São Paulo nas águas da chuva e no descaso governamental.

Enquanto isso, petistas continuam a busca de culpados não só pela perda da “jóia da coroa”, mas por todas as demais derrotas, atirando a torto e a direito em seus próprios companheiros. No caso da prefeita, o termo “preconceito” virou modismo para justificar a derrota. A agressividade de Marta Suplicy (por que não Marta Favre?) durante toda a campanha, sua arrogância nos debates, o julgamento de sua administração pelos paulistanos que, inclusive, foram castigados pelo excesso de taxas geradas pela prefeitura, não contam. Os petistas não querem perceber que não existe preconceito, mas conceitos originados nas condutas e ações da própria prefeita e percebidas pelos eleitores. Indiferente, todavia, aos seus erros, o PT abriu a temporada de caça a bodes expiatórios, que serviriam para justificar a “surra” não apenas levada em de São Paulo, mas também em importantes capitais como Porto Alegre.

O PT está aceitando mal o fato de perder e parece que a esperança de vitória nas futuras batalhas eleitorais foi substituída pelo medo. No fundo se sabe que as eleições municipais refletiram também o julgamento do governo federal pela população e já não há certeza sobre a reeleição do presidente Luiz Inácio, em 2006.

Na verdade, o PT no poder sabe que se não corrigir seu rumo evitando mais erros (e muitos já foram cometidos), continuará a pagar preço alto diante dos eleitores, pois propaganda tem limite. Sem aceitar suas falhas, sentindo-se acima do Bem e do Mal, a nova classe dominante já começa a se defrontar com dificuldades. Algumas são evidentes e se relacionam com a base aliada, não mais tão alinhada com o governo federal por conta do que foi considerado como seu descaso, ingratidão, ou simples traição.

Enquanto isso, dos Estados Unidos vem lição de democracia. Conforme praxe daquele País, o candidato derrotado, John Kerry, cumprimentou o vitorioso George W Bush, que respondeu: “você foi um oponente admirável e honrado”.

Bush, em que pese a torcida brasileira contra, venceu uma das mais acirradas eleições à Casa Branca, com a maior votação popular já recebida por um líder norte-americano. E apesar dos cumprimentos do presidente Luiz Inácio, essa foi outra dura derrota para o PT em âmbito mundial. Nesse caso, não obstante o antiamericanismo gritante e provocativo do atual governo, seus mandarins foram mais cautelosos. No âmbito doméstico, entretanto, é lamentável a pequenez política que se observa no Brasil. Estamos precisando de grandeza, caso contrário, seguiremos como um país apenas grande, um picadeiro onde são encenadas mil trapalhadas pelos “donos do poder”, uma nação mal resolvida onde o futuro nunca chega.

 

 

 

 

Maria Lucia Victor Barbosa é formada em sociologia e administração pública e tem especialização em ciência política pela Universidade de Brasília. Nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais. Começou a escrever em jornais aos 18 anos. Tem artigos publicados no Jornal da Tarde, O Globo, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Gazeta do Povo, O Estado do Paraná e Valor Econômico, entre outros.

É autora de cinco livros, incluindo “O Voto da Pobreza e a Pobreza do Voto – A Ética da Malandragem” e “América Latina – Em busca do Paraíso Perdido”.

Artigo originalmente publicado no site de Diego Casagrande. Rebatido no Domínio Feminino cm a gentil permissão da autora. via e-mail.

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