Existe uma pequenez
política que incomoda nesse Brasil tão grande geograficamente.
Historicamente essa situação pode ser explicada pela secular
inexistência em nosso País de uma cultura cívica que ressalte
valores como honra, lealdade, coragem, senso de justiça,
espírito público, noção de direitos e deveres, visão de
bem comum. Nunca ligamos para tais atributos, apenas apreciados
em estórias em quadrinhos. Desse modo, pouquíssimos foram
nossos heróis através dos quais essas qualidades foram enaltecidas.
Além do mais, nos faltou de início, como afirmou Oliveira
Vianna em “Instituições Políticas Brasileiras”, o sentimento
de “Estado Nacional”, e isso desvirtuou o próprio exercício
do poder uma vez que os eleitos, ao invés de se inspirarem
nos interesses da Nação, geralmente se voltaram para interesses
pessoais que privilegiam também suas famílias e grupos de
amigos. Essa é a origem das oligarquias brasileiras num
tipo de Estado que sempre foi excessivamente centralizador,
clientelista, nepotista, paternalista, burocratizado e,
por conseqüência, incompetente e corrupto.
No presente essa
herança histórica se acentuou. Num contexto moderno e globalizado,
onde já deveríamos ter evoluído politicamente, o que se
observa é a pequenez e a mediocridade dos comportamentos
e das atitudes de muitos dos detentores de cargos de poder.
Isso ficou evidente após o término das eleições municipais,
quando se observa o Partido dos Trabalhadores “lavando roupa
suja” em público num espetáculo pouco dignificante de revanchismo
e falta de espírito democrático.
Exemplo marcante
vem da capital paulista, onde impressiona a egolatria da
prefeita Marta Suplicy e a inaceitação de sua derrota por
parte de seus correligionários. Após o resultado que consagrou
o adversário do PSDB, José Serra, a prefeita desapareceu
parecendo dizer: “depois de mim o dilúvio”, pois como num
simbolismo ofertado pela natureza, uma forte tempestade
mergulhou São Paulo nas águas da chuva e no descaso governamental.
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Enquanto isso,
petistas continuam a busca de culpados não só pela perda
da “jóia da coroa”, mas por todas as demais derrotas, atirando
a torto e a direito em seus próprios companheiros. No caso
da prefeita, o termo “preconceito” virou modismo para justificar
a derrota. A agressividade de Marta Suplicy (por que não
Marta Favre?) durante toda a campanha, sua arrogância nos
debates, o julgamento de sua administração pelos paulistanos
que, inclusive, foram castigados pelo excesso de taxas geradas
pela prefeitura, não contam. Os petistas não querem perceber
que não existe preconceito, mas conceitos originados nas
condutas e ações da própria prefeita e percebidas pelos
eleitores. Indiferente, todavia, aos seus erros, o PT abriu
a temporada de caça a bodes expiatórios, que serviriam para
justificar a “surra” não apenas levada em de São Paulo,
mas também em importantes capitais como Porto Alegre.
O PT está aceitando
mal o fato de perder e parece que a esperança de vitória
nas futuras batalhas eleitorais foi substituída pelo medo.
No fundo se sabe que as eleições municipais refletiram também
o julgamento do governo federal pela população e já não
há certeza sobre a reeleição do presidente Luiz Inácio,
em 2006.
Na verdade,
o PT no poder sabe que se não corrigir seu rumo evitando
mais erros (e muitos já foram cometidos), continuará a pagar
preço alto diante dos eleitores, pois propaganda tem limite.
Sem aceitar suas falhas, sentindo-se acima do Bem e do Mal,
a nova classe dominante já começa a se defrontar com dificuldades.
Algumas são evidentes e se relacionam com a base aliada,
não mais tão alinhada com o governo federal por conta do
que foi considerado como seu descaso, ingratidão, ou simples
traição.
Enquanto isso,
dos Estados Unidos vem lição de democracia. Conforme praxe
daquele País, o candidato derrotado, John Kerry, cumprimentou
o vitorioso George W Bush, que respondeu: “você foi um oponente
admirável e honrado”.
Bush, em que
pese a torcida brasileira contra, venceu uma das mais acirradas
eleições à Casa Branca, com a maior votação popular já recebida
por um líder norte-americano. E apesar dos cumprimentos
do presidente Luiz Inácio, essa foi outra dura derrota para
o PT em âmbito mundial. Nesse caso, não obstante o antiamericanismo
gritante e provocativo do atual governo, seus mandarins
foram mais cautelosos. No âmbito doméstico, entretanto,
é lamentável a pequenez política que se observa no Brasil.
Estamos precisando de grandeza, caso contrário, seguiremos
como um país apenas grande, um picadeiro onde são encenadas
mil trapalhadas pelos “donos do poder”, uma nação mal resolvida
onde o futuro nunca chega.
Maria
Lucia Victor Barbosa é formada em sociologia e administração
pública e tem especialização em ciência política pela Universidade
de Brasília. Nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais. Começou
a escrever em jornais aos 18 anos. Tem artigos publicados
no Jornal da Tarde, O Globo, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil,
Gazeta do Povo, O Estado do Paraná e Valor Econômico, entre
outros.
É autora de cinco
livros, incluindo “O Voto da Pobreza e a Pobreza do Voto
– A Ética da Malandragem” e “América Latina – Em busca do
Paraíso Perdido”.
Artigo originalmente
publicado no site de Diego Casagrande. Rebatido no Domínio
Feminino cm a gentil permissão da autora.
via e-mail.
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