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Basicamente
o indivíduo funciona através de sensações psíquicas e físicas
que lhe proporcionam dor ou prazer, o que o faz centrado em
seu hedonismo, em seu egoísmo, características, aliás, intrínsecas
da humanidade que são atenuadas pelos vários controles sociais
os quais “domam”, em grau maior ou menor, as personalidades
para que estas se adaptem às suas sociedades.
Não
se pode, porém, negar que nos sofisticamos perante os outros
animais no sentido de que nos movemos também por medo ou por
esperança, por sonhos que sublimam uma realidade por vezes
difícil de suportar, pela construção de utopias que raiam
ao delírio, mas que servem como justificativas a determinadas
causas.
Muitas
dessas causas idealizam um paraíso que, ao ser posto em prática
se transforma no inferno da tirania, da eliminação da liberdade,
do nivelamento na miséria. Tome-se como exemplo de “inferno”
na América Latina, Cuba, para onde o governo brasileiro, solidário
a Fidel Castro, recentemente entregou em tempo recorde os
dois atletas que sonhavam com outra vida possível, sem conceder-lhes
asilo ou prazos legais para repatriamento que em nosso país
costumam ser concedidos aos piores bandidos.
De
todo modo, sem um alvo para se devotar, sem uma bandeira pela
qual lutar a vida é sem graça. Esse alvos ou bandeiras costumam
ser apenas o desejo da casa própria ou a vontade de ascender
na carreira, mas podem também abranger algo mais complexo.
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Vera Cruz, Santa
Cruz, Brasil
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Outros artigos
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A
questão é que lideranças sabem que raramente seus seguidores
exercitam o raciocínio, sendo movidos mais pelas emoções,
pela necessidade de um chefe que aponte o caminho ou mesmo
pela precisão de sublimar sua mediocridade sentindo-se vencedores
através da causa. E essa constatação faz entender melhor como
são gerados os crédulos das explicações delirantes, das revoluções
equivocadas, das utopias impossíveis.
José
Murilo de Carvalho, em A formação das Almas, mostra que os
republicanos “sonhavam com uma futura idade de ouro em que
os seres humanos se realizariam plenamente no seio de uma
humanidade mitificada”. Todo o entusiasmo era carreado para
a França. O modelo era a Revolução Francesa. “A Marselhesa
o hino de guerra”. E Silva Jardim “não se esquecia de incluir
o fuzilamento do conde D’Eu, o francês a quem destinava o
papel do infortunado Luiz XVI, numa réplica tropical do drama
de 1972”.
Os
republicanos através de seus propagandistas elaboraram símbolos,
mitos e alegorias no sentido de construir o imaginário popular
imprescindível aos que almejam conquistar e manter o poder.
Passamos da monarquia para a República, mas nossa essência
cultural não mudou.
Recentemente
o imaginário popular foi construído pelos “intelectuais orgânicos”
do PT, especialmente para legitimar a figura mitológica do
presidente da República. E se o partido que antes se dizia
único detentor da ética naufragou nas águas turvas da amoralidade,
não faltam justificativas para legitimar seu governo e, especialmente,
Lula da Silva. Neste são projetadas aspirações e interesses
populares, o que faz funcionarem as emoções tão necessárias
aos poderosos.
Aos
militantes petistas, que sustentam a cúpula partidária com
seus dízimos e sua mística, a ordem é defender o neotorneiro
custe o que custar. Seu hino nacional é “Lula-lá”, seu símbolo
a estrela, sua cor o vermelho das esquerdas mundiais. E aos
devotados servidores da causa petista não faltam explicações
o inexplicável, pois assim funciona a fé.
Exemplifico
o modo de ser do militante petista típico com trecho de um
diálogo via e-mail que travei com um deles. Como é de praxe
essa pessoa confunde sociólogo com FHC, pensa que o mundo
se divide em PT e PSDB, inicia sempre seu ataque verbal com
insultos e se diz lulista e não petista. Como seus demais
companheiros não admite que o PT copiou a “herança maldita”.
Ele sentenciou que quem diz isso é “socióloga”, “palhaça”
ou “ignorante”, me enquadrando gentilmente na última definição.
Depois, ao tentar justificar a presença de Henrique Meirelles
no Banco Central e dos homens de FHC que deram sustentação
no Ministério da Fazenda ao Plano Real, saiu-se com essa:
“Leon
Trotski construiu o glorioso e, ainda hoje poderosíssimo Exército
Vermelho, com o apoio de marechais, almirantes, condes e duques
do Exército czarista”. Assim fez Lula, cuja diferença de Trotski
é a seguinte, conforme o lulista: “Trotski (e a História ainda
lhe fará plena justiça), ao final foi um líder derrotado -
e seu solitário assassinato apenas significou isso. Lula,
não! Ele, dando graças a Deus, já pode partir dessa vida como
um líder plenamente vitorioso”.
Não
creio que Lula parta dessa vida a machadadas como Trotski,
mas não tenho nenhuma dúvida de que permanece a intenção do
lulista de me enviar ao ponto mais distante e frio da Sibéria
onde seria fuzilada. Aí, quem sabe, eu faria companhia no
além ao conde D’Eu.
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Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
mlucia@sercomtel.com.br
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