Paraíso vermelho.
Lula chegou lá!
Angela Riore
05 de Novembro/ 2002
"Vou votar numa puta,
pois já votei nos filhos dela e não deu certo "
( frase de parachoque de caminhão )
" Après moi, le deluge"
( Depois de mim, o dilúvio)
( Atribuída a Luiz XV )
"Certas coisas devem
mudar. Para que permaneçam as mesmas."
( Tomasi Di Lampeduza )
Nunca
imaginei que no espaço de apenas 13 meses, pudesse registrar duas
datas, agora inesquecíveis, para mim e para o mundo. Falo do 11
de setembro de 2001 a da queda das torres gêmeas e do último 27
de outubro de 2002. Na primeira vi ao vivo e a cores pela TV,
o antes inimaginável ataque ao simbolo do capitalismo americano
e mundial, no coração de Manhattan. Na segunda, vi de perto e
como participante a ascensão ao mais alto cargo da república,
de uma pessoa vinda das classes menos favorecidas, um líder operário
sem título de doutor, sem maneirismos e traquejo social, ( sem
preconceitos por favor ) mas com uma certeza e uma vontade de
chegar lá invejáveis.
Chegar
lá, entenda-se como a vontade e o objetivo de mudar algo e situações
que em sua opinião e do seu partido, teriam que ser mudadas e
não poderiam mais esperar. Como se viu, 53 milhões de eleitores
comungavam da mesma opinião, certeza e vontade. Então, qualquer
outra opinião ou tentativa de questionar sua legitimidade e até
mesmo sua capacidade de governar o país, cai por terra e entra
na categoria do mau perdedor ou, o que é pior, na categoria não
ganhei, sou contra e torço e faço qualquer coisa para dar errado.
São aqueles que fazem a política do "quanto pior, melhor" Ë triste,
mas já tivemos isso em nossa política e eles até se reelegeram..
Fiquei
emocionada e cheia de orgulho com a lição de democracia que demos
ao mundo e com a festa petista em todos os cantos do país. Mais
orgulhosa ainda com a civilidade dos candidatos e do povo, que
exerceu seu direito ao voto sem nenhum constrangimento , provocação
ou distúrbio. As urnas eletrônicas proporcionaram que no mesmo
dia da eleição o país e o mundo já soubesse quem o povo brasileiro
havia elegido para dirigir seu destino nos próximos 4 anos. Al
Gore deve estar morrendo de inveja e remorso pois, tivessem solicitado
nossa tecnologia, ele seria o presidente americano e não Mr. Little
Bush.
Mas,
orgulhosa mesmo, fiquei foi com a lição de estadista do Presidente
Fernando Henrique, ao tomar a iniciativa da transição da forma
mais transparente e limpa, jamais vista no Brasil e até mesmo
no mundo. Demonstrou que pensa no País e não no seu futuro político.
Foi mais adiante ainda ao declarar-se emocionado em passar a faixa
presidencial ao adversário do seu candidato e frisar que por ser
um operário, só demonstrava o nosso amadurecimento político e
as nossas sólidas instituições. Muito diferente de outros tempos,
não muito longínquos, quando tivemos até governantes que saíram
pela porta dos fundos para não passar a faixa presidencial para
seu sucessor.
Um tapa
com luvas de pelica no próprio Lula que em 94, mesmo com os 53%
de votos de Fernando Henrique não reconheceu a derrota e fez declarações
ressentidas e pouco elogiáveis. Em 98, logo após sua reeleição,
Fernando Henrique convidou Lula para o diálogo e Lula recusou-se,
alegando que ele (FHC) não tinha legitimidade e avisou que seria
oposição implacável ao governo dele. Bem, o que passou, passou
e vamos ao futuro que é o que importa, principalmente num País
como o nosso, onde até o passado é duvidoso.
O agora
Senhor Luís Inácio Lula da Silva, Presidente da República Federativa
do Brasil, tem a oportunidade de realizar seus sonhos e a de milhões
de brasileiros.
A primeira
providência é descer do palanque , sentar na cadeira do presidente
e começar a encarar a realidade do Brasil e do exercício do poder
nele, que é completamente diferente da retórica eleitoral. Ë fácil
ser pedra, mas muito duro ser vidraça o tempo todo. Inteligente
e perspicaz como é, logo aprenderá que "governar é fazer escolhas
e escolher é excluir " como ensinou Ludwig Ehardt o arquiteto
da reconstrução alemã do pós-guerra.
O problema
de Lula ,como ele mesmo já disse , é que não pode errar. Acho
que está enganado. Pode sim. Desde que seja tentando fazer o certo
(ainda que só em sua opinião). Errar, será não reconhecer o bom
trabalho feito por seu antecessor em várias áreas, principalmente
a social, ou querer mudar programas que estão dando certo, mas
podem ser aprimorados, apenas para não dar crédito ao antecessor.
Errar, errar,..., é muito mais certo errar do que acertar, até
porque ,só erra quem tenta, e quem não tenta, já errou.