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Antropologia social do perfume

Por Maria da Penha Veira

 

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        Milla Kette*
        30, Julho/2002

Muitos americanos, quando sabem que fui criada no Brasil, contam que têm vontade de conhecer o país. Estranhei a principio que ninguém jamais me perguntava sobre o Brasil – o que rotulei de descaso, alienação. Meu marido explicou-me que a curiosidade existia, sim, mas as perguntas não vinham, porque tinham receio de ofender-me...

Logo que retornei de minhas longas férias no Rio, em fevereiro de 2002, observei uma platéia silenciosa e atenta, enquanto narrava a minha cabelereira tudo que vi. Claro que a maioria do pessoal aqui não têm a mínima idéia do nome da nossa capital, do presidente, ou da língua que falamos. Tenho certeza que os sabichões brasileiros, que agitam-se ante a ignorância Yank, responderão (1) sem pestanejar: 1) qual é a capital de Saint Lucia; 2) qual é o nome do presidente da Moldova; 3) que língua é falada no Djibouti? Já os americanos singelamente confessam sua ignorância! E ficam fascinados quando descobrem que falo mais de um idioma, quando, então, acusam-se de serem ignorantes e mal e porcamente falarem apenas inglês.

Essa humildade contrasta com a imagem de ufano orgulhoso que a Esquerda se empenha em manter. Alienados? Alguns. Mas a maioria com a qual converso sobre política internacional, por exemplo, está muito mais bem informada que os lunáticos que derramam seu ódio e anti-americanismo nos Fóruns da UOL.

Os americanos são extremamente dedicados ao trabalho, muito organizados e têm um incrível talento para trabalhar em grupo. Isso começa na escola, onde são incentivados a trabalhos de grupo, apesar do indivíduo ser muito prezado. O período da universidade me parece, também, outro fator. Minha filha, por exemplo, muda-se em agosto para Bowlling Green; ela já combinou com sua room-mate quem vai levar a tv, o micro-ondas, ou seja, já interagiram de forma a complementar-se nas necessidades de ambas no dormitório que dividirão no próximo ano.

Impressiona-me também a imensa tolerância que o povo americano demonstra ante a violência e amplitude da crítica internacional, que tem se abatido sobre os EUA. Eles tentam explicar o que não tem explicação, pois desconhecem que esse ódio não nasceu de um dia para o outro: é o mesmo que acompanha os que têm algum sucesso.

Sobre isso, desenvolvi uma teoria — deveras simplista para os de paladar mais refinado, muito certamente. Há muitos anos, quando ainda morava em Gramado, na Serra Gaúcha, tive um desentendimento com uma doméstica (2); no calor da peleia (3), a referida me acusou de arrumar-me toda, me perfumar e sair por aí, deixando-a em casa, trabalhando... Ela ignorava completamente que o salário que recebia toda semana justificava exatamente o que fazia em minha casa? Creio que ela simplesmente (e muito humanamente) invejava o pouco que eu possuía e não via as opções que se lhe apresentavam ante o nariz: aceitar suas limitações ou sobrepujá-las. Escolheu uma terceira: a de alimentar sentimentos de frustração e inferioridade que auto-desculpavam e a eximiam da necessidade de tomar uma atitude realista e ativa frente ao quadro que a vida apresentava. Acusar-me de explorá-la, exonerava-a de analisar e, assim, ter que modificar sua situação. É assim que vejo esse ódio aos americanos. Obviamente, não incluo aí bin Laden, al-Qaeda ou suas ramificações, pois não passam de fanáticos possessos.

O que desafina na mídia

Como exemplo da ignorância que grassa no mundo da notícia, a Revista Claudia ( Novembro (2001, pág. 29), trouxe uma entrevista com Atiya Inayatullah — primeira ministra do Paquistão — onde ela afirmou que: "A paz mundial só será possível com o fim das diferenças", tendo esquecido de mencionar que nenhum milionário árabe jamais tentou minimizar essas tais diferenças. "Bin Laden e seu exército de suicidas é uma resposta extremada à indiferença dos países civilizados para com o Terceiro Mundo [...], uma reação virulenta à arrogância das grandes e poderosas nações, que invadem as menores, colocam armas nas mãos até de crianças e jogam uma tribo contra a outra toda vez que interesses particulares são ameaçados".

A ministra não teve uma única palavra de repúdio a essa resposta extremada, que causou a morte brutal de 3.000 cidadãos de 80 países! O que ela chama de suicidas, são, em verdade, ferozes homicidas. Bin Laden limitou-se a treinar exércitos de homicidas sedentos de sangue não-muçulmano, com seus milhões, condenando, por extenção, o povo afegão à miséria e morte. Foi o Taliban, e não os EUA, que tomaram o Afeganistão e armaram exércitos assassinos, reprimindo violentamente a população, matando, torturando, segregando, colocando as mulheres no mais baixo nível que a cultura muçulmana jamais fez! Ela esqueceu-se de citar que as tribos árabes têm lutado entre si desde o começo dos tempos. A entrevista também não mencionou que os EUA enviam anualmente milhões de dólares para o Afeganistão. Talvez a ministra responderia a isso cobrando dos EUA a obrigação de zelar para que esse dinheiro fosse usado corretamente. Mas aí, tenho certeza, os EUA seriam acusados de intervir na soberania de um país de Terceiro Mundo, ficando, como sempre, entre a cruz e a caldeirinha. Ou seja, se correr, o bicho pega, se ficar, o bicho come! Na versão americana: You’re damned if you do, and damned if you don’t!

Na National Geographic de Setembro 2001 (volume 200, número 3), li uma reportagem muito interessante, intitulada "Mudando a América" (a tradução é minha):

"A imigração para os EUA partindo de meados dos anos 90, atingiu o nível quase record de um milhão de pessoas por ano. De acordo com o censo de 2000, 10% dos 281 milhões de residentes da América nasceram em outros países, a maior percentagem desde 1930 e o maior número na história dos EUA. [...] Durante os anos 90 a população dos EUA cresceu em 33 milhões; quase um terço [11 milhões] eram imigrantes." Só entre 1996 e 1998, mais de um milhão de latino-americanos imigraram para cá.

Me faz lembrar aquela música: "olha isso aqui tá muito bom / isso aqui tá bom demais / olha quem tá fora quer entrar/ mas quem tá dentro não sai!"

Quanta gente ansiosa para compartilhar esse estilo de vida decadente dos odientos capitalistas americanos! Alguém, por favor, me responda quantos são os que se acotovelam para entrar no paraíso que é a ilha-cárcere de Fidel!

E tem mais, tomei conhecimento de que a Sra. Benedita da Silva, candidata ao governo do Rio de Janeiro pelo PT – Partido dos Trabalhadores, de esquerda, está tendo problemas com uma conta que ela tem aqui nos EUA. A defesa da Sra. Benedita da Silva é de que a conta é usada para facilitar sua vida, ( o que é muito natural e inteligente ) quando vem aos EUA . Vejam só, até a neta de esquerdista do PT vem estudar aqui. Tem alguma coisa que se contradiz nas ideologias das esquerdas brasileiras. A imprensa brasileira considerou um escândalo e o é, do ponto de vista ideológico — mas não do pessoal, do indivíduo que deveria ser respeitado em suas escolhas — pelo fato de que, esta mesma esquerda ser um dos megafones mais potentes contra as Políticas Externas americanas. Contraditoriamente, uma corroboração, um reconhecimento de que alguma coisa pode ser melhor, de fato.

(1) Para os que, como eu, não são sabichões: 1) Castries; 2) Vladimir Voronin; 3) francês (oficial), árabe (oficial), somali e afar.

(2) Oh, yeah! Muito certamente não é Politically Correct chamá-las de domésticas, mas cadê o charme daquela música do Dusek, Doméstica, pessoal? Tough shit, I say!

(3) Termo gauchesco que significa briga – já diz o ditado: Não tá morto quem peleia!

OBS: Recomendo a leitura do excelente texto do filósofo e jornalista Olavo de Carvalho (entre tantos outros não menos excelentes!) no Globo de 3 de Novembro de 2001, Fraude e Inconsciência http://www.olavodecarvalho.org/semana/fincons.htm

 

 

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Nossa colaboradora

 

 

 

 

* Milla Kette, 43 anos, casada e mãe de uma jovem de 19 anos. Apaixonada por política, especialmente política dos EUA. Nasceu em Palo Alto/CA . Viveu no Rio de Janeiro até a idade de 9 anos, residindo também em Salvador e no Rio Grande do Sul. Hoje, reside em Ohio, onde é pequena empresária.

NOTA: As opiniões aqui emitidas são de inteira responsabilidade da autora.

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