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Antropologia social do perfume

Por Maria da Penha Veira

 

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         Americanizada  [ 1 ]                         [ 2 ]
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        Milla Kette
        08, Julho/2002

Carmem Miranda transformou em sucesso musical a acusação pueril de estar Americanizada. Como fui acusada do mesmo, quando estive no Brasil em 2001 e afirmei que não há pobreza nos EUA (além de ter sido taxada de não-cristã), resolvi escrever meu texto de estréia em cima dessa afirmação. As mesmas críticas que eram antes ecoadas por todos quando ainda vivia no Brasil, quando ditas por mim hoje, são taxadas de americanização, revolta, fanatismo.

Com seis anos vivendo nos EUA, onde acompanho a política diariamente, acredito que sei mais que os que vivem no Brasil. Não sou a dona da verdade, mas a pobreza aqui é um mito e baseei minhas palavras em dois fatores práticos. Primeiro, na cadeira de Economia que cursei na Faculdade (nos EUA), onde a pobreza daqui foi detalhadamente estudada. Segundo, minhas conversas com um americano muito bem informado, que vive nos EUA há mais de 40 anos: meu marido.

No período em que passei no Brasil, observei que a mídia dá tantas voltas quantas necessárias, às notícias sobre a guerra no Afeganistão, para fazer o governo dos EUA ficar mal na foto. Folheando por quase dois meses O Globo, observei claramente como esse diário tenta conduzir as pessoas a acreditarem nas coisas mais absurdas sobre o país mais poderoso do planeta. Conclui que assimilar coisas terríveis sobre os EUA, torna mais aceitável a situação que hoje avilta o Brasil.

Dia 01 de Janeiro de 2002, O Globo trazia o seguinte título em letras garrafais: "Ataque americano mata 107 civis afegãos". Um líder tribal acusou os EUA de atacar uma cidadezinha (Qalaye Niazi), causando a morte de 107 civis inocentes; por coincidência, Haji Saifullah é contra a ação militar dos EUA no país. Mas o pior, que deixa bem clara a intenção do Globo, é que, em momento algum, o autor do artigo procurou um representante do governo norte-americano para obter uma declaração. De volta aos EUA, descobri que o tal ataque jamais aconteceu. Escrevi para O Globo, pedindo que se retratassem; jamais o fizeram.

Voltando ao assunto inicial, defino pobre nos EUA, como aquele que tem dificuldade em pagar a conta do telefone. Os pobres têm amparo do governo e de centenas de instituições (privadas) de caridade. Quem tem renda inferior a U$9.000/ano, tem direito a

Welfare (ajuda do governo), como, por exemplo, U$37/semana em cupons a serem trocados por alimentos.

Uma família de três pessoas receberá, então, uns U$400/mês para alimentar-se, sem preocupar-se com moradia (com ar condicionado e calefação) ou Imposto.

Grávidas recebem alimentação especial e tratamento pré/pós-parto bem como os bebês.

Crianças em período escolar têm escola (com computadores disponíveis), transporte, livros, café da manhã e almoço.

Idosos carentes têm, além da moradia, remédios.

O prazo para beneficiar-se de Welfare era indefinido até que os Republicanos conseguiram reduzi-lo para cinco anos. Centenas de programas ajudam os menos agraciados (física e monetariamente): há incentivo para formação de empresas, estudo universitário, pós-graduação, doutorado, etc.

Affirmative Action garante às chamadas Minorias (basicamente qualquer um, exceto, homens brancos) vagas nas Universidades e 10 pontos de vantagem nos testes para trabalhar para o governo – como se tivessem menos inteligência que os demais! Ao contrário do que acontece no Brasil – quem está passando fome no nordeste vai para a cidade grande, iludido, e se perde por lá — quem está passando fome em Nova York pode conseguir emprego em outra cidade.

Está aqui um assunto que acompanho e vivo, desde a mais tenra idade, através da profissão do meu pai. Dizem pelo Brasil, que os EUA regulam os preços do petróleo no mundo. Mas se os EUA compra a maior parte de seu petróleo fora, como pode fazê-lo? A OPEC e as leis de mercado (oferta/procura) é que regulam tal preço e todos os países compradores pagam o mesmo que os EUA.

Ultimamente tomei conhecimento do pavor que têm alguns* brasileiros de que os americanos estão querendo apossar-se da Amazônia. Até o momento em que escrevo, ninguém apresentou evidências desse absurdo. Alguns baseiam-se num fato ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial, quando o então presidente Getúlio Vargas pensou em ficar ao lado dos alemães e italianos. Roosevelt, num gesto extremo, ameaçou invadir o Brasil. Aos que se revoltam ante essa situação, pergunto: prefeririam ter nos livros de História documentação sobre a colaboração que o Brasil prestou para o nazismo e o fascismo?

Há pouco tempo recebi E-mail de um amigo gaúcho, perguntando se era verdade o que uma brasileira, que mora nos EUA, em carta ao Estadão disse – que os livros de Geografia Americanos mostram a Amazônia como reserva internacional, como parte dos planos dos Imperialistas americanos para tomá-la. Alguém tem dúvida de que se os EUA quisessem a Amazônia, não teriam plenas condições de absorvê-la? O grupo Ternuma (tenho o E-mail que enviaram) pesquisou e confirmou que tal livro não existe. Num cantinho espremido do caderno de Informática do Globo do dia 3 de Dezembro de 2001, apareceu um comentário: "O mapa e o livro não existem. No dia 18 de Novembro [2001] saiu uma notinha no Globonews.com desmascarando a farsa". O Estadão de 6/10/00 publicou texto de desmentido:

Roubo da Amazônia: o boato que não morre

(http://www.estadao.com.br/agestado/nacional/2000/out/06/258.htm). Mas a mensagem que meu amigo me enviou continua circulando na Internet há dois anos.

Após o terrível ataque às torres gêmeas em Manhattann, minha sobrinha (que estudava no Colégio Bahiense, no Rio) contou que sua professora de História comentou que os EUA estavam enviando apenas negros para lutar no Afeganistão e que mereceram o ataque. Mais assustador que o anti-americanismo da professora, é que dentre os mais de 30 alunos dessa turma, apenas dois não acreditaram nessas absurdas palavras: minha sobrinha e um colega. Os soldados que vi pela Fox TV (nos EUA) embarcando para a guerra, eram brancos; os dois únicos negros, foram entrevistados, pois eram comandantes dos batalhões... As pessoas engolem esse tipo de fantasias paranóides sem pestanejar.

Outro exemplo de notícia que não interessa a mídia brasileira veicular : Hillary Clinton foi ruidosamente vaiada quando tentou apresentar um concerto beneficente em Nova York para as famílias das vítimas do ataque terrorista. Por que essa notícia foi tão pouco veiculada no Brasil? Hillary é candidata de extrema esquerda; minha conclusão é que a mídia Brasileira, como a daqui, é predominantemente de esquerda.

Até hoje o brasileiro crê que a CIA ajudou a instalar o governo militar no Brasil.

A este respeito, recentemente revelou-me o filósofo e jornalista Olavo de Carvalho que, em conversa com Dr. Paulo Egídio, este desfez essa crença. O ex-Ministro das Minas e Energia do governo Castello Branco relatou que tal ajuda jamais foi obtida, pois ele mesmo foi aos EUA, sendo-lhe a mesma negada.

 

Racismo

Também já ouvi muitos (1) acusarem os americanos de racismo. Racismo é algo que não se pode controlar, como não se controla a inveja que os EUA despertam. Ouvi sobre o recentemente inaugurado piscinão de Ramos no Rio, que o mesmo manteria "eles" longe das "nossas" praias, comentário esse feito por uma pessoa que me considera racista, pois afirmei que os negros não são destratados aqui. Parece-me que no momento que se aponta algo negativo sobre uma raça, cultura ou classe, esse fato é isolado e visto como desmerecendo o conjunto – como a tal famosa homofobia, que tem acometido qualquer um no Brasil e nos EUA que ouse erguer a voz contra as manifestações homosexuais! Conheço fatos, não especulações.

Outro exemplo, no período de recrutamento para a Guerra do Vietnam, os negros em idade de lutar somaram 13.5% do total da população Americana e apenas 9.7% das forças militares eram formadas de elementos dessa raça. No entanto 88.4% dos que serviram eram brancos e apenas10.6% negros; 86.8% dos mortos em batalha eram brancos, mas apenas 12.1% negros. Enquanto a percentagem de negros em idade de servir era de 13.5% da população, eles somaram 12.1% das mortes no Vietnam (http://frontpagemag.com/horowitzsnotepad/2001/hn11-05-01p.htm). Para um país cheio de racistas, eles não tiveram muito sucesso em dizimar a raça por eles tanto odiada...


Apesar de muitos (1) detestarem os EUA, segundo a Revista Veja, a fila do visto para lá continua engrossando. O ser humano é cheio de defeitos e os americanos não são exceção. Todavia, alguns brasileiros formam opinião pela leitura de uma só fonte, efetuando um julgamento extremamente parcial sobre um povo que conhecem de filmes, visitas a Disney e Nova York; não se dão conta que para formar opinião, é preciso leitura diversificada, comparar, pesar, deduzir, raciocinar e não ater-se a um só noticioso ou jornal.

Já li menções a filmes Americanos — Wag the Dog e Apocalipse Now — como sendo retrato verídico da sociedade Americana. Crer que a fala de um ator em Apocalipse Now é verdadeira (algo como: "cheiro de napalm pela manhã tem gosto de vitória") é infantil. O mito do egoísmo Yank também gera muita revolta. No entanto, de acordo com o mais recente estudo do Independent Sector (uma coalizão com mais de 700 organizações e fundações voluntárias:http://www.independentsector.org/media/volunteering.html), no ano de 2000, 84 milhões de pessoas foram voluntários numa organização formal, numa média de 3.6 horas por semana por voluntário. Não me parece o perfil de um povo egoísta.

(1) Para evitar confusões, atente o leitor para o fato que muitos e alguns não significa todos

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Nossa colaboradora

 

 

 

 

Milla Kette, 43 anos, casada e mãe de uma jovem de 19 anos. Apaixonada por política, especialmente política dos EUA. Nasceu em Palo Alto/CA . Viveu no Rio de Janeiro até a idade de 9 anos, residindo também em Salvador e no Rio Grande do Sul. Hoje, reside em Ohio, onde é pequena empresária.

As opiniões aqui emitidas são de inteira responsabilidade da autora.

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