MINISTROS SINISTROS
Ubiratan Iório
(JB, publicado em 29/03/04)

 

Lord Calaghan, primeiro-ministro trabalhista, em discurso no Parlamento inglês, profetizou só haver dois tipos de ministros: os que saem a tempo e os que saem depois do tempo. Foi cuidadoso, pois poderia ter incluído os que não deveriam ter entrado em nenhum tempo...

A profecia mos remete a diversos casos atuais, mas, neste artigo, queremos nos referir apenas à proposta recente de um dos 35 ministros do obeso governo Lula, o da Previdência Social, Amir Lando (do PMDB), de aumentar em 3% a contribuição previdenciária para o governo pagar o que deve aos aposentados. Exemplo perfeito de obscenidade explícita, perversidade ilícita e incompetência implícita: obscenidade, porque, face à extorsão tributária que sufoca a economia do país, propor novo aumento é pura falta de pudor; perversidade, porque vai empobrecer mais ainda o setor produtivo, para despejar recursos em um sistema falido, ultrapassado e ditatorial, como soe ser o nosso sistema previdenciário, compulsoriamente estatal e sob regime de repartição e, finalmente, incompetência, porque repete graves erros do passado.

Os encargos incidentes sobre os salários, hoje, são de 103%, ou seja, cada R$ 100 recebidos pelo trabalhador custam à empresa mais R$ 103. Por isso, é inacreditável e revoltante que alguém ainda chegue sequer a aventar a possibilidade de recorrer a esse exaurido cofre. Depois, não sabem porque temos uma taxa de desemprego tão elevada...

O leitor precisa saber que nossa carga tributária como proporção do PIB era — antes do recente aumento da Cofins — de 37,5 %, o que significa que trabalharíamos 136,9 dias de graça para o governo, ou seja, nós, brasileiros, em média, só começaríamos a ganhar dinheiro por volta de 1 hora e 20 minutos da manhã do dia 16 de maio de cada ano! Começaríamos, mas não começamos, uma vez que, se somarmos os auto-serviços (gastos com saúde, educação e previdência privadas), que somos levados a pagar porque não confiamos nos serviços prestados pelo estado proxeneta, a relação sobe entre 10 % e 15% do PIB e, se adicionarmos a carga legal (a que decorre da lei, mas não é recolhida, por fatores como inadimplência, sonegação e corrupção), chega-se a um acréscimo de cerca de 15%, no mínimo, à carga real. Portanto, a carga total está entre 62,5% e 67,5% do PIB! Um escândalo mundial, um autêntico caso de extorsão, de rapina oficial e legal, apesar de profundamente imoral!

Constitui obrigação de todo cidadão e toda empresa pagar os impostos e taxas existentes, mas é dever inalienável do estado utilizar a receita daí decorrente em prol do bem comum. Lembrando São Bernardino de Sena, quem é conivente com a imoralidade também está sendo imoral. Assim sendo, as pessoas de bem têm o dever de exigir que os governantes mudem esta situação, sob pena de estarem compactuando com a imoralidade. Pouquíssimos brasileiros dão-se conta do nível de rufianismo que o estado exerce sobre nós: trabalhamos, em média, 235 dias por ano para sustentar o estado-rufião, o que significa que, para nós e nossas famílias, restam apenas 130 dias por ano, ou 4,3 meses. Destarte, só começamos a usufruir o fruto dos nossos esforços a partir da meia noite do dia 20 de agosto de cada ano!

É mais do que tempo de adotarmos o imposto único. É mais do que tempo de nos livrarmos da profecia de que só há ministros sinistros. Como este sr. Lando, o nefando.

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