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    Arquivos e mitos
    desfeitos

 

       Itamar Perenha *
       
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       07, Dezembro/2004

 

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Mais Opinião de Itamar Perenha

Foi na redação da "Isto É", quando alguns surpresos colegas de ofício souberam de minha condição de ex-capitão do Exército (a ditadura criou meios de excluir "corpos estranhos" e ceifou mais carreiras dentro das Forças Armadas do que no meio civil) que ouvi a frase: "há muita coisa que não aflorou nos "anos de chumbo" mas esta, com certeza, é uma das poucas "guerras" em que a história até hoje só tem a versão dos "perdedores" e que, por outra via, conquistaram o poder".

Não seria capaz de contar a outra "versão" pois, quando na ativa, não fiz parte da "comunidade de informações". Era "infante combatente" e, como a maioria dos quadros na época, treinados fundamentalmente para o combate convencional ainda que a "guerrilha" também se inscrevesse na grade curricular.

Militares de diversos graus de hierarquia (número indizível) foram recrutados para a Escola Nacional de Informações e, depois, encaminhados para os famosos DOI-CODI", entes subordinados ao Comandante Militar de Área e "estranhos à tropa" pois não integravam os QO (Quadros de Organização) das unidades. As S/2 (2ª Secções) eram "áreas restritas" e um engenhoso "sistema de filtros" fazia os "informes" percorrerem os diversos escalões da hierarquia. A atuação dessas Secções tornou-se mais abrangente com planos de coleta e vigilância "estendidos".

A estrutura estadual desembocava nos Departamentos de Ordem Política e Social, com desdobramentos nas comunidades sob sua influência.

No topo, o SNI (Serviço Nacional de Informações), com diversos canais, trabalhava todos os informes para selecionar aquilo que era ou não relevante ou os "antagonismos" ao regime de exceção vigente para designar "missões aos Centros de Operações de Defesa Interna".

Em linhas gerais (e superficiais) era assim que funcionava. As S/2 vigiavam a própria tropa e seus integrantes em estrito controle interno (não sei com que critérios mas que influenciavam decisivamente nas promoções e até na permanência) também proviam, eventualmente, operações de contra-informação.

Havia, ainda, as estruturas regionais do Serviço, as Divisões de Segurança e Informações e as Agências, dependentes do grau de importância e objetivos.

O Sistema era "estanque" na base e sua integração só acontecia nos mais elevados escalões.

Daí discordar de muitas generalizações e até de muita baboseira que leio, ouço e vejo por aí. Uma delas são os "arquivos".

Todos conhecem o "hábeas-data" como instrumento legal consubstanciado na Constituição de 88 que permite a qualquer cidadão saber o que "órgãos de informação têm a seu respeito". O cidadão dispõe de um mecanismo para saber em que medida e grau o Estado o perseguiu, atrapalhou, influenciou e o que mais for correlato para se valer da legislação que previu, depois da Anistia, as reparações devidas. E assim tem sido; muitos dos pedidos (no futuro serão mais do que dois ou três mil) estão chegando na Comissão criada para esse fim.

Agora, o outro lado

Tivemos outras revoluções, tão ou mais sangrentas do que esta no Brasil. No Rio Grande do Sul, na Farroupilha, era comum deceparem-se cabeças. Tanto chimangos quanto maragatos agiam dessa forma.

A "Balaiada" não foi diferente.

Canudos — de Antonio Conselheiro — expulsou tropas diversas vezes. Não foram poucos os "espiões" sacrificados até que o Exército reuniu meios e efetivos suficientes para a conquista da fortaleza e todos sabem o espírito que animou os combates.

Na Guerra do Paraguai tivemos o primeiro caso, talvez, na humanidade, do uso da guerra bacteriológica. Os meios de transmissão do cólera não eram suficientemente conhecidos mas de uma forma intuitiva sabia-se que corpos cortados lançados nos rios à montante contaminavam as tropas à jusante. Em "A Retirada da Laguna" o Visconde de Taunay relata os sofrimentos da tropa contagiada pela doença o que inspirou até Augusto dos Anjos a retratar: "se a cólera que espuma a dor que nasce, o coração no rosto se estampasse..."

Ainda são "arquivos secretos" embora se saiba que a Tríplice Aliança reduziu a população masculina do Paraguai a pouco mais de 400 "meninos" (a poligamia chegou até a ser incentivada naquele país para recompor seu contingente demográfico e dar uma razoável equidade de gênero).

As últimas declarações (talvez as únicas) do general Felix, Chefe do Gabinete de Segurança Institucional, sobre os "arquivos da ditadura" é que neles "há muita coisa feia".

Com certeza há.

É a "guerra" que eles escreveram.

Os arquivos podem estar dispersos no CIEx, CISA, CENIMAR e nos Departamentos de Operações Políticas e Sociais (alguns até em museus estaduais) ainda que os mais relevantes devam estar centralizados.

A obtenção de informações é norteada por outros "valores" que não são os habituais da tropa regular. Os procedimentos distanciam-se da tropa na medida em que a própria ética é substituída pela lógica do poder-Estado.

As "células de coleta" dispunham de "negociações e meios (controlados) para estimular delações". Muitos tiraram proveito de suas relações com a esquerda ainda que só tivessem rótulo. Havia "infiltrados" (Cabo Anselmo é o caso mais emblemático e tanto lá como cá, diga-se), alguns dos quais estão vivos e, segundo as respectivas compreensões, serviram à "sua causa". Houve a "corrupção consentida" segundo a relevância do informe e outras condutas humanas das mais reprováveis. As mazelas do gênero humano se revelam, de forma perversa, nesse submundo. A "tortura", um dos elementos condenáveis na coleta de informações, foi praticada mas a maior parte (cerca de 90%, segredava-se) dos informes era obtida ostensivamente, em troca de vantagens. Não é raro alguém proeminente, hoje, ter sido apenas um pseudo-esquerdista.

Devem vir?

Sim, é preciso cuidar do "como" e, no que concerne à segurança do Estado, serem de conhecimento apenas de quem interessa e o grau de confidencialidade liga-se, por dispositivo legal, à competência de quem classifica o nível do sigilo segundo a relevância do assunto.

Difunde-se que nos EUA e até em outros países não há documentos cujo sigilo transcenda ao período de 30 anos.

Depende.

Alguém, por acaso, encontra nas Bibliotecas Públicas americanas os relatórios de Openheimer ou algo mais substancioso sobre o "Projeto Manhattan" que resultou na bomba atômica?

Gases letais, bi-combinantes, estão com suas fórmulas disponíveis na internet?

Existem há mais de 30 anos.

Os casos: "Irã-contras" e o fornecimento de armas a rebeldes na Nicarágua, ajuda ao Afeganistão para enfrentar a Rússia, etc... são de acesso comum?

Há, portanto, documentos e documentos.

Voltemos ao caso.

Assunto da moda: arquivos da ditadura. A anistia foi providência política de caráter pacificador.

Há leis em vigência regulando indenizações e acesso. A Comissão de Mortos e Desaparecidos vem realizando seu trabalho. Poderia ter mais facilidades? É provável.

É possível abrir os "tais arquivos"; o difícil será conter a curiosidade mórbida e sensacionalista e se, por acaso, houver a pretensão de ir às questões estratégicas de fundo não é demais lembrar que a "divisão das esquerdas", habilmente fomentada nos tempos da abertura lenta e gradual, criou lideranças que, sem o "apoio indireto" da própria ditadura, interessada em fracionar a esquerda, não teriam emergido e se popularizado.

Os atuais ocupantes do poder sabem disso.

Daí a cautela com a abertura dos tais arquivos pois, no limite, não se deve resvalar para o revisionismo de um lado ou revanchismo de outro até para não arrancar a casca da ferida e vê-la sangrar com os mitos desfeitos.

 

 

 

Itamar Perenha, Jornalista Administrador de Empresas Pós-graduado em Gestão Estratégica

Domínio Feminino agradece a gentileza do jornalista Itamar Perenha, pelo artigo exclusivo.

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