O episódio recente
de uma possível fotografia de Vladimir Herzog tirada momentos
antes de seu "suicídio" - até hoje não se provou que tenha
sido suicídio de fato, até induzido pela precariedade de
suas condições psicológicas pós-tortura, ou execução disfarçada
(duas hipóteses repulsivas) reacende uma antiga discussão:
a anistia.
A anistia, intrinsecamente,
quer dizer esquecimento. É uma decisão política e de caráter
pacificador afinal, não é possível desconsiderar que os
dois "extremos" tiveram suas vítimas. Se a esquerda (será
que é tão esquerda assim já que o próprio Lula quando confrontado
com essa postura se declarou "sindicalista" e até Maluf
quando rotulado de "direita" já disse que "esquerda ou direita
é sinal de trânsito") quer chorar seus mortos é bem verdade
que os "militares" também têm seus mártires. A diferença
é que as "baixas" nas Forças Armadas e Auxiliares foram
denominadas "baixas em combate" e, como tal, tratadas.
O comissário
Dirceu, treinado em guerrilha em Cuba, sabe muito bem que
as "tomadas de poder" que a história registra nunca foram
pacíficas. Na Nicarágua, para ficarmos num exemplo da América,
a esquerda chegou ao poder pela força das armas. Fez vítimas.
Retornou-se à democracia, as instituições militares foram
recompostas e contidas nos limites de uma Constituição.
A Costa Rica optou por dissolver o Exército. No pós-II Guerra
Mundial o Japão abdicou de ter Forças Armadas, apenas Forças
de Auto-Defesa e é até hoje dependente do guarda-chuva nuclear
americano.
Os "bons moços"
treinados em Cuba sabiam disso. Tentaram movimentos guerrilheiros
em Caparaó, Vale da Ribeira e Araguaia. Com certeza não
tinham intenções pacíficas. Combateram e foram combatidos.
Por erros estratégicos (entre eles: a falta de apoio externo
para a questão logística pois guerra se ganha com arma munição;
base de recrutamento - levar gente da cidade para combater
no campo o que nunca permitiu a criação de uma "zona liberada",
falta de unidade de comando, brigas entre facções trotiskistas,
leninistas e stalinistas, entre outras) as insurgências
foram debeladas. Com mortos e feridos e depois exilados.
Algumas "baixas"
foram notórias; o soldado Mário Kozel
Clique para ver imagem do soldado
Kozel que fazia
guarda no turno de plantão no Quartel General do II Exército
(na época) morreu com a explosão de um "carro-bomba" lançado
contra aquela unidade. Ninguém fala dele mas é bem provável
que seus familiares sintam sua falta. Um Tenente PM teve
o crânio esmagado no Vale da Ribeira - caso é tão remoto
que até seu nome foi esquecido (à exceção seus familiares,
é claro) e outros mais na "lista de baixas" que o próprio
Exército não informa.
Fica claro -
e o comissariado petista sabe - que os "anos de chumbo"
foram uma espécie de "guerra nas sombras" com seus mortos
e feridos. Dos dois lados. Um lado "vestiu o pijama" e outro
ascendeu ao poder pela via do voto.
Volta e meia
"cadáveres insepultos" freqüentam o noticiário. Rubens Paiva,
Herzog, Lamarca, Marighela freqüentam o panteão da iconografia
da esquerda. É justo quando se considera o ideal que os
motivou e até as mortes que praticaram na "guerra não declarada".
A pátria lambeu suas feridas, o Brasil se redemocratizou,
decretou-se a anistia e os antigos ódios se sedimentaram
pois a tarefa de construir uma grande nação exige o esforço
de todos e nesse esforço cabe o espectro ideológico da esquerda
à direita, até em seus limites extremos.
O que um presidente
não pode ignorar é que as instituições militares, das quais
ele é o Comandante Supremo, são verticalizadas, hierarquizadas
e, até por necessidade de coesão interna para o cumprimento
de suas missões, devem manter espírito de corpo.
Notas e subnotas,
"desautorizações" e quejandos, não cabem neste ambiente
onde ordens devem ser "claras, precisas e concisas" e há
soluções de regimento interno para "excessos", até os de
"exação" se não se chegar à dureza do Código Penal Militar
e respectivo Código de Processo.
É assim que
funcionam essas organizações, com seus valores internos,
que devem ser respeitados e é prudente não escorregar nessa
área.
Não é demais
lembrar que a anistia foi para todos; tem princípios e não
uma nominata pois ninguém está acima da lei.
Itamar
Perenha, Jornalista Administrador
de Empresas Pós-graduado em Gestão Estratégica
Domínio
Feminino agradece a gentileza do jornalista Itamar Perenha,
pelo artigo exclusivo.
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