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    Cadáveres insepultos

 

       Itamar Perenha *
       
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       22, Outubro/2004

 

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Atualizado em 08, Novembro/2004

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Soldado Mario Kozel

O episódio recente de uma possível fotografia de Vladimir Herzog tirada momentos antes de seu "suicídio" - até hoje não se provou que tenha sido suicídio de fato, até induzido pela precariedade de suas condições psicológicas pós-tortura, ou execução disfarçada (duas hipóteses repulsivas) reacende uma antiga discussão: a anistia.

A anistia, intrinsecamente, quer dizer esquecimento. É uma decisão política e de caráter pacificador afinal, não é possível desconsiderar que os dois "extremos" tiveram suas vítimas. Se a esquerda (será que é tão esquerda assim já que o próprio Lula quando confrontado com essa postura se declarou "sindicalista" e até Maluf quando rotulado de "direita" já disse que "esquerda ou direita é sinal de trânsito") quer chorar seus mortos é bem verdade que os "militares" também têm seus mártires. A diferença é que as "baixas" nas Forças Armadas e Auxiliares foram denominadas "baixas em combate" e, como tal, tratadas.

O comissário Dirceu, treinado em guerrilha em Cuba, sabe muito bem que as "tomadas de poder" que a história registra nunca foram pacíficas. Na Nicarágua, para ficarmos num exemplo da América, a esquerda chegou ao poder pela força das armas. Fez vítimas. Retornou-se à democracia, as instituições militares foram recompostas e contidas nos limites de uma Constituição. A Costa Rica optou por dissolver o Exército. No pós-II Guerra Mundial o Japão abdicou de ter Forças Armadas, apenas Forças de Auto-Defesa e é até hoje dependente do guarda-chuva nuclear americano.

Os "bons moços" treinados em Cuba sabiam disso. Tentaram movimentos guerrilheiros em Caparaó, Vale da Ribeira e Araguaia. Com certeza não tinham intenções pacíficas. Combateram e foram combatidos. Por erros estratégicos (entre eles: a falta de apoio externo para a questão logística pois guerra se ganha com arma munição; base de recrutamento - levar gente da cidade para combater no campo o que nunca permitiu a criação de uma "zona liberada", falta de unidade de comando, brigas entre facções trotiskistas, leninistas e stalinistas, entre outras) as insurgências foram debeladas. Com mortos e feridos e depois exilados.

Algumas "baixas" foram notórias; o soldado Mário Kozel — Clique para ver imagem do soldado Kozel —que fazia guarda no turno de plantão no Quartel General do II Exército (na época) morreu com a explosão de um "carro-bomba" lançado contra aquela unidade. Ninguém fala dele mas é bem provável que seus familiares sintam sua falta. Um Tenente PM teve o crânio esmagado no Vale da Ribeira - caso é tão remoto que até seu nome foi esquecido (à exceção seus familiares, é claro) e outros mais na "lista de baixas" que o próprio Exército não informa.

Fica claro - e o comissariado petista sabe - que os "anos de chumbo" foram uma espécie de "guerra nas sombras" com seus mortos e feridos. Dos dois lados. Um lado "vestiu o pijama" e outro ascendeu ao poder pela via do voto.

Volta e meia "cadáveres insepultos" freqüentam o noticiário. Rubens Paiva, Herzog, Lamarca, Marighela freqüentam o panteão da iconografia da esquerda. É justo quando se considera o ideal que os motivou e até as mortes que praticaram na "guerra não declarada". A pátria lambeu suas feridas, o Brasil se redemocratizou, decretou-se a anistia e os antigos ódios se sedimentaram pois a tarefa de construir uma grande nação exige o esforço de todos e nesse esforço cabe o espectro ideológico da esquerda à direita, até em seus limites extremos.

O que um presidente não pode ignorar é que as instituições militares, das quais ele é o Comandante Supremo, são verticalizadas, hierarquizadas e, até por necessidade de coesão interna para o cumprimento de suas missões, devem manter espírito de corpo.

Notas e subnotas, "desautorizações" e quejandos, não cabem neste ambiente onde ordens devem ser "claras, precisas e concisas" e há soluções de regimento interno para "excessos", até os de "exação" se não se chegar à dureza do Código Penal Militar e respectivo Código de Processo.

É assim que funcionam essas organizações, com seus valores internos, que devem ser respeitados e é prudente não escorregar nessa área.

Não é demais lembrar que a anistia foi para todos; tem princípios e não uma nominata pois ninguém está acima da lei.

 

 

Itamar Perenha, Jornalista Administrador de Empresas Pós-graduado em Gestão Estratégica

Domínio Feminino agradece a gentileza do jornalista Itamar Perenha, pelo artigo exclusivo.

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