PENSANDO A GLOBALIZAÇÃO,
A VIOLÊNCIA E O SER HUMANO
Marina S. Rodrigues
Almeida
Psicóloga e Psicopedagoga
marina@iron.com.br
21, Janeiro/2002
O presente artigo
tem como objetivo compartilhar algumas reflexões, sobre
a conexão entre a globalização, o aumento
de violência e o ser humano.
Na realidade, encontramos
entre os três elementos alguma forma de interligação,
porém é um engodo pensar numa forte causalidade
entre elas, onde a violência seria conseqüência
final.
Somos acostumamos
a ir por raciocínios de modelos de explicações
causais, e o que é pior geralmente são generalizadas
para outras situações, realidades, pessoas, etc...
Um exemplo disso: Um maior consumo de álcool na Alemanha
não é a causa de maior acidentes de trânsito
no Brasil. Contudo, ambos aumentam com o tempo e com o tempo aumentam
a renda mundial que permite consumir mais álcool e comparar
mais carros.
A GLOBALIZAÇÃO
E SEUS EFEITOS EM NÓS
A globalização
trouxe principalmente os progressos (desejáveis) nos meios
de comunicação, a melhor circulação
de pessoas, de mercadorias, de capitais e opções
para todos.Todos se beneficiam com a globalização,
entretanto o beneficio não é igual para todos. Quanto
maior a estruturação da sociedade maior o benefício,
quanto menor for a estruturação maior "prejuízo".
Como conseqüência encontramos as desigualdades sociais
cada vez mais visíveis.
Para minimizar precisamos
de uma estruturação social, política, econômica
e financeira, o que encontramos como variável interveniente
é a velocidade da globalização frente ao
desenvolvimento dos setores citados em cada estrutura social.
A globalização
não é uma opção de sociedade, é
inevitável, é imposta pela própria evolução
de mundo, precisamos ter uma visão um pouco mais ampliada
para poder entendê-la.
Poucos conseguem
perceber as influências da globalização em
todos os níveis de nossas vidas: pessoal, familiar, na
cidade/estado ou país. Neste novo contexto sócio-econômico-cultural,
a informação passa a ter um papel central, constituindo-se
atualmente no maior poder de inter-relação existente,
tendo inclusive, suplantado o poder econômico e tecnológico.
O poder da informação
se faz através de livros, revistas, jornais especializados,
TV a cabo em escala mundial e internet - a qual se quadruplicou
em um ano e continua crescendo. A informação duplicando-se,
em progressão geométrica, a cada 3 a 5 anos, logo
se constituirá em um universo esmagador.
A capacidade de saber
onde, como, com quem e a forma mais rápida de adquirir
informações, analisá-las e aplicá-las
adequadamente será o grande diferencial competitivo.
A globalização
não vem trazer soluções para os problemas
do mundo, contudo podemos ter a esperança de que alguns
problemas sejam resolvidos que é muito diferente de esperar
por algo mágico, onipotente e onisciente.
A globalização
não se propõe a nada, é apenas uma "fatalidade"
que deve ser pensada e compreendida para não sermos pegos
de surpresa pelas forças de desestruturação.
A própria desestruturação pode ser um fator
de progresso, para repensarmos a realidade, mas também
de violência e sofrimento humano.
Precisamos estar
atentos para não achar que a melhor maneira de enfrentar
a globalização seja a unificação,
a perda de culturas regionais próprias de cada lugar, como
a dissolução das características individuais
e particulares, ficaríamos sem nossa história, cultura
e identidade! Isto é muito sério. Desta forma a
humanidade, em sua história já passou por diversas
revoluções e sempre se beneficiou dos seus progressos,
o que sabemos é que alguns grupos humanos se beneficiaram
mais do que outros.
A VIOLÊNCIA,
ESPETÁCULO MIDIÁTICO, COM PÚBLICO E TORCIDA
ORGANIZADA...
Outro aspecto que
precisamos pensar é sobre a violência, que virou
espetáculo midiático, com público assíduo
e torcida organizada!
A violência
é inerente ao ser humano, entre outras coisas é
uma forma que o homem utiliza por força exercer controle
e procurar introduzir mudanças.
A palavra violência
vem do latim vis que significa "força",
também dá origem aos vocábulos "vigor",
"vida" de vis, "vita", e "vitalidade".
Segundo o psicanalista David Zimerman (2001), explica que a transição
de um estado mental de vigor para o de uma violência
é a mesma que se processa entre o de uma agressividade
sadia para o de uma agressividade destrutiva.
A violência
faz parte de nosso cotidiano, e estamos hoje em mais segurança
do que em tempos longínquos, embora não pareça.
Ela é o preço
que estamos pagando para usufruir alguns benefícios, mas
consideramos também que são profundas e abrangentes
as causas etiopatogênicas responsáveis pela eclosão
da violência da forma atual.
A primeira questão
nos remete a responsabilidade, um desfio a cada um de nós,
a família, a sociedade e aos órgãos governamentais.
Nestes últimos a responsabilidade da segurança pública,
justiça social, emprego, saúde física e mental,
educação, distribuição de renda ,
etc..
Podemos nos reportar
a vários tipos de violência: violência de natureza
sócio-política-econômica, violência
moral, violência sexual, violência no ensino, violência
na família, além dessas sofremos pressões
externas como é o caso da cultura onde o grupo de adolescentes
está inserido e é o mais afetado, estando sujeito
a modelos estéticos, a mídia, apologia a falsa liberdade,
religiões, etc...
E O SER HUMANO
NISTO TUDO?
Então quais
os fatores que determinariam que um ser humano possa ser mais
destrutivo ou criativo?
Uma tentativa de
entendermos este mecanismo psíquico, será o de considerar
que todo ser humano está vulnerável a forças
externas e internas (chamamos em psicanálise de predisposições
constitucionais e bio-psico-sociais), consideramos também
o estado de angústia do bebê, o desamparo vivido
nos primeiros meses de vida, falhas de maternagem, abandonos prematuros
dos pais ou de um deles , excesso de estímulos de toda
ordem que a psique da criança não tem condições
de processar, etc... Dependendo de como foram vividos determinarão
por toda deste ser humano os seus impulsos agressivos e como serão
canalizados, se mais agressivos, destrutivos ou construtivos.
Enfim,
para falar de violência estamos falando também de
desamparo, do ser humano, das crianças, dos jovens, dos
pais e da sociedade como um todo, portanto é necessário
falar de prevenção, e isto deverá ser começado
em casa, na família, com os pais.
Os pais contemporâneos
não são mais os modelos de outrora, encontramos
hoje várias formações de casais que fazem
parte do novo cenário familiar Pós-Moderno: casais
de homossexuais, mães solteiras, pais solteiros, aumento
crescente de casais divorciados, fertilização assistida,
barriga de aluguel, banco de sêmen e óvulos, adoções
internacionais, etc.
Consideramos a família
atual neste conceito ampliado, e mesmo assim continua sendo o
primeiro grupo de vital importância que o ser humano se
relaciona tendo sua função biológica e social.
Segundo a psicanalista
Ruth Blay Levisky (2001), lembra que a família atual está
modificada, os pais bastante confusos e nos perguntamos se a família
está em crise.
Em psicanálise
estar em crise nos leva a ressignificar conteúdos novos,
é um processo de dor e sofrimento, desequilíbrio,
leva tempo, até que a mente amadureça e suporte
um novo olhar, um novo sentido.
O trabalho com grupos
de pais ou grupos de família, tem ajudado muito a dar suporte
a estas angústias, ao desamparo, buscam encontrar saídas
mais apropriadas para seus problemas, a identificar-se com outras
pessoas que passam por situações semelhantes mas
mantém a esperança viva.
Violência não
se restringe apenas aos assaltos, drogas, transgressões
físicas, morais, sociais, etc... mas é uma conseqüência
de uma falta, de um vazio, que a família e a sociedade
estão colaborando não só para seu crescimento,
bem como para sua cronificação.
MUDANÇA
DE OLHAR E PENSAR PODEM SER A SAÍDA...
Se não encararmos
com seriedade e responsabilidade estes fatos, em busca de pensarmos
a amplitude desta situação que nos apresenta, só
arrumaremos culpados, ficaremos paralisados, empobrecidos, romperemos
os vínculos afetivos, buscaremos isolamentos individuais
com uma aparência de independência e bem estar.
Acredito
que para buscarmos nosso bem estar precisamos aprender a pensar
nossos pensamentos, nossas atitudes violentas, agressivas, amorosas,
etc... só depois conseguiremos entender nosso semelhante
ao invés de julgá-lo ou buscar explicações
causais.
Para
sermos um ser humano digno, precisamos de saúde mental,
respeito, afeto e paz.
Pode
parecer idealizado, mas só parece, pois se começarmos
a refletir deste agora algo já mudou em nós!
Consultório
(Av. Ana Costa, 414 Conj. 15 Gozanga /SANTOS -SP Telefones (13)
3469-2991 ou 3289-2050.
Bibliografia:
COSTA, Jurandir
Freire. Psicanálise, ciência e cultura. Rio de Janeiro:
Ed. Zahar, 1994
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Narcisismo em Tempos Sombrios . in BIRMAN, Joel (org.) "Percursos
na história da psicanálise". Rio de Janeiro:
Taurus Ed., 1988
LEVISKY, David Léo
(org.) . Adolescência e Violência: ações
comunitárias na prevenção. São Paulo:
Ed. Casa do psicólogo, 2001.
WINNICOTT, Donald
W. Natureza Humana. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1990
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Textos Selecionados da Pediatria à Psicanálise.
Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1994