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"Antes que algum aventureiro
lance mão"
Chore por si Argentina
HAJA REZA!
O dedo indicador
no seu devido lugar
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O inocente na terra da vaca louca
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O Imposto da Morte: Lá e aqui
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"Antes que algum aventureiro
lance mão"

 

Suzana Bertioga
08 de Janeiro, 2002

Sua Opinião

Já conheci uma Argentina em início de declínio intelectual, me diziam os argentinos quando da minha primeira viagem para lá, em 1968. O nível de ensino estava em franco declínio, na opinião eles. Tudo isso para meu total espanto.

Na minha cabeça era o maior dos absurdos ouvir aquilo. Sem contar que eu vivia em um mundo que há muito não tinha direito: o de falar sobre política, abertamente.

Sofria de um complexo persecutivo. Estava sempre olhando para os lados para ver quem estava perto de mim. Numa dessas crises de paranóia avistei um sujeito segurando um capacete de motociclista. Era o mesmo sujeito que eu havia visto na Polícia Federal quando fui fazer meu passaporte. Aí entrei em pânico achando que estava sendo espiada.

Conhecer a Argentina e os argentinos naquela ocasião em que vivíamos situações políticas opostas foi uma oportunidade única para conhecer aquele povo.

Quando a camareira referiu-se a Evita Perón, o fez usando o mais baixo calão e o mais incrível que havia a maior dignidade na fala daquela mulher vinda do povo, da classe trabalhadora mais sensível às incertezas políticas e econômicas. A conversa com motorista de táxi era sempre um achado, atentar para o quanto eu conhecia um povo politizado. Eles sabiam mais sobre o Brasil do que nós brasileiros. E isto estou dizendo sobre um motorista de táxi. O varredor de rua, o vendedor de loja, a camareira, todos conheciam o Brasil político e econômico. Naquela época se perguntasse à classe média brasileira, sobre o povo argentino e sobre a Argentina, no máximo conseguiríamos ouvir um bom brasiloche falando sobre como foi a viagem de lua de mel passada em Bariloche ou sobre as compras na Florida, o máximo, na época.

Só para entender:

Um povo educado e, não importa se eles se pensavam ingleses ou não. O fato é que eram extremamente civilizados e politizados e elegantes. O cavalheirismo do homem argentino era coisa de espantar. Nesta viagem fomos visitar a seguradora, a maior delas, da família Whitney, a Sud Atlântida. Apenas eu de mulher presente com a presidência e diretoria da empresa e meu marido. Notei que ficamos de pé por muito tempo e cochichei para o meu marido que estava na hora de irmos embora pois se não nos convidavam para sentar era porque desejavam nos ver longe o mais rápido possível. Meu marido rindo muito do meu mico me avisou que o presidente já me havia convidado a tomar assento com um gesto por duas vezes.

Passei a ficar atenta e, de verdade, na terceira vez notei a elegância do oferecer o assento o que atendi de imediato pois estava morta de cansada. Nunca me esqueço que quando sentei-me imediatamente, como numa orquestra obedecendo ao spalla, todos tomaram seus assentos nos sofás e poltronas.

A elegância e o bom gosto dos argentinos era alguma coisa de inigualável. Tão refinados que espantava qualquer brasileiro. Atendimento em lojas, aí, nem precisa comentários. Serviços em geral eram perfeitos.

Em outra viagem resolvi caminhar por bairros menos nobres de Buenos Aires. Parei num "botequim" e pedi um café. O que se passou na minha cabeça foi uma coisa incrível tal meu espanto. Uma pequena bandeja que abrigava uma jarra de água, creme de leite, guardanapos, açúcar e o pequeno bule de café. Tive que rir ao olhar para o meu marido. Rimos em silêncio, cada um mais abestalhado do que o outro era como se disséssemos — "igualzinho no Brasil. Aquilo estava acontecendo na América Latina e não em Londres ou França. Choque descobrir que, quanto mais distantes do nosso país, mais confirmação de que o que consumíamos internamente era da pior qualidade: o nosso café, por exemplo.

Para nós, um casal jovem vivendo num país pobre e sob um regime ditatorial foi um choque. Choque de civilização e liberdade. Choque tão forte é ver e imaginar o sentir do povo argentino hoje. Choque de latinidade recém-descoberto.

Política e economicamente, os argentinos, de fato, não tiveram o que nós tivemos, uma oposição persistente que conseguiu espaço político e com isso estimular as camadas mais pobres da nossa pirâmide, sensibilizar o alto do vértice e caminhar pressionando aqui e acolá, um calo em dia de chuva.

Queiramos ou não nossos partidos de oposição que eram chamados de esquerda, foram corajosamente atuantes e estão sendo o fiel da balança. Aqueles que, de oposição que passaram a ser situação, têm pago o preço de ter sido oposição. Este alternar saudável é necessário para que não nos aconteça voltar ao passado e reviver a dor das velhas feridas.

Nós ultrapassamos o Getulismo protecionista mas os argentinos não conseguiram ultrapassar o peronismo.

Com certeza, isso faltou ao povo argentino. Beni Veras, Tarso Jereissati, Leonel Brizola, PT nos calos em constante dia de chuva. Até a mediocridade do PSTU. Valeu!

Valeu também Antonio Carlos Magalhães, valeu Jáder Barbalho, valeu a Telegangue, valeu todas as gangues, valeu equipe econômica, valeu FHC!

Desse caldo o povo brasileiro está tentando aprender a praticar democracia. Haja sofrimento e reza forte, mas estamos indo para algum lugar e não é para o buraco.

Desse caldo, também, saiu uma nova mentalidade que deve extrair visão de convivência e ajuda mútua entre os países da América Latina, providencialmente, poderíamos iniciar neste momento argentino. A Europa que desde a Segunda Guerra costurou o Euro agora firma o Continente Europeu ainda que os "brimos" de língua inglesa se protejam.

A união da América do Sul — não precisa ser vidente — irá desagradar aos troianos e aos gregos não pela visão do momento mas pelo que representará no futuro, um Continente rico como o nosso, uma ameaça aos G8 e G7. Será dificultado o fatiamento e o saque das nossas riquezas. Nós, povos sul-americanos não compreenderemos num primeiro momento, aprofundados que estamos em nossas necessidades e colaterais.

Campanhas, e muitas se farão necessárias para que as populações conjuguem esforços na direção dos entendimentos. Colaborar para que a Argentina ultrapasse sua crise é vital para o futuro dos países sul-americanos. Agora ou nunca seremos um Continente respeitado.

Será preciso dividir a côdea do pão com os irmãos argentinos e todos os outros que precisarem de nós. Ao fazer isto, o Brasil se fortalece politicamente. Resultado deste fortalecimento na liderança da América Latina, não deverá ser motivo de disputas, pois o Brasil tem feito por onde merecer tal posição. Tendo em vista nossos avanços políticos, sociais, econômicos, tecnológicos, à parte. Por outro lado, com uma liderança reconhecida quem tem a ganhar é a própria América Latina." Antes que algum aventureiro lance mão" do nosso Continente.

 

 

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