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Chore por si Argentina

Angela Riore
04 de Janeiro, 2002

 

Os últimos acontecimentos na Argentina nos levam a algumas reflexões.

Como pode um país que há apenas 50 anos era a décima economia do mundo, com um padrão educacional invejável e status europeu, pode assim em tão pouco tempo chegar ao ponto que chegou?

Ao invés de avançar e alcançar padrões melhores ainda, volta a ser uma republiqueta que em 10 dias tem quatro Presidentes e o último escolhido o foi entre paredes sem a aprovação do povo e mais ainda, assume o derrotado nas últimas eleições com apenas 12% dos votos? O que e que fatos — históricos ou não — levaram os irmãos argentinos a esta situação? Para tentarmos responder e explicar, necessitamos fazer uma pequena viagem no tempo e rememorar alguns dados e fatos ocorridos alguns deles, certamente, históricos. Vamos a eles:

Nas décadas de 40 até a década de 60 a Argentina, ainda exuberante e européia estava nos braços do peronismo, com tudo o que isto tinha de bom e de ruim, principalmente com os sindicatos fortemente ligados a ele e obtendo vantagens e padrões sociais que, vemos agora, eram insustentáveis no tempo.

O principal fato deste tempo, é que fossilizou as estruturas políticas do país, não proporcionando a necessária renovação dos quadros e das práticas. Criou-se um feudo onde até hoje pontificam os peronistas e suas maneiras de fazer política, e até mesmo na oposição, os nomes fortes são de ex-peronistas que por razões diversas — quase sempre- por falta de espaço — abrigaram-se em outros partidos. Nesta época, nós éramos os macaquitos e aqui vivíamos o final do getulismo e a ascensão de Juscelino ao poder com seu projeto desenvolvimentista que queiram ou não deu certo, apesar dos custos. Pergunte a qualquer brasileiro jovem se ele sabe o que é getulismo, peleguismo, e outros ismos? Não, não sabem.

Não sabem, mas até hoje existe na Argentina e principalmente em Buenos Aires, uma forte, influente e atuante Juventude Peronista. No Brasil, o sindicalismo fortemente dependente do poder central da era Vargas não sobreviveu ao seu regime.

Na metade da década de 60 e até 1984 lá como cá e de resto toda a América do Sul, foi varrida por revoluções que acabaram em ditaduras militares. Tais ditaduras com todos os seus horrores e tragédias produziram na Argentina o engessamento da prática política e levou os políticos argentinos a serem populistas e politiqueiros apenas mais sofisticados, que já o eram antes, pois não pensam País, pensam apenas em seu interesse pessoal e de seus apaniguados, usufruir do poder e enriquecer já que ninguém é de ferro. Nada ilustra melhor a inteligência política e a capacidade de liderança dos militares argentinos do que a guerra contra a Inglaterra.

No Brasil vivemos, basicamente, a mesma situação, mas desenvolveu-se de forma um pouco diferente. Conseguimos criar um caldo de cultura onde havia espaço para todos, direita, esquerda, centro e por mais divergências e atritos que estas forças provocavam, causando atrasos em diversas áreas e momentos, o certo é que saímos enriquecidos destas experiências e começamos a encaminhar um processo e um projeto de país com todos os percalços e problemas implícitos em algo de tal envergadura.

Contudo, nós brasileiros temos perseverado e percorrido um caminho, exatamente o que falta aos nossos irmãos argentinos, por culpa exclusiva de seus dirigentes personalistas. Mas ainda dá tempo . Basta iniciar de imediato a renovação política, varrendo definitivamente do cenário político, os salvadores da Pátria de ocasião. Poderiam começar pelo presidente biônico Eduardo Duhalde que já vem prometendo o que não irá cumprir:

Devolver aos aplicadores, na mesma moeda dos depósitos, toda poupança efetuada pelos argentinos. Não o fará porque não haverá dólares suficientes para isto. Nem no Banco Central Argentino, muito menos nos bancos privados, corroborando Míriam Leitão em sua coluna em O Globo, 03 de janeiro de 2002.

 

 

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