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   Este é um
   Estado Democrático?

           

      Adriana Vandoni Curvo ( * )
      
Comunique-se

      18 de Dezembro/2004

 

   
 

Leia: Editorial

 

               A quem deve caber a ordem pública? Em vários veículos de comunicação nacional, vi uma declaração de um dos coordenadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Paulo Rodrigues, que é mais um exemplo de escárnio à ordem pública, um ultraje ao Estado democrático deste país.

               Sem a preocupação de punição ou mesmo repressão, o coordenador nacional do MST afirmou que caso a meta deste ano não seja atingida (e não foi), 2005 será marcado "por grandes lutas", inclusive de outras organizações. Disse ele: "podemos dizer que o ano que vem será não um ano vermelho, mas um ano colorido, porque as outras organizações, que têm as bandeiras brancas, vermelhas, verdes, azuis, possivelmente todos irão para a rua para cobrar do governo os compromisso assumidos".

               Isso foi dito durante um encontro realizado em Brasília, que contou com a presença de 10 mil pessoas. A novidade desse encontro ficou por conta do apoio financeiro do governo. A Conferência Nacional Terra e Água foi patrocinada pelos ministérios do Desenvolvimento Agrário e do Meio Ambiente, além de oito empresas do governo, entre elas Petrobrás, Correios, Caixa Econômica Federal, Itaipu Binacional e Eletrobrás e custou aos cofre públicos algo em torno de R$ 2 milhões.

               Em seu discurso, João Paulo Rodrigues fala: 2005 será marcado "por grandes lutas". Eu pergunto, o que quer dizer grandes lutas? Quando o MST prometeu um mês vermelho, foram realizadas invasões, violência e até morte.

               A frase do líder do MST se caracteriza, claramente, em uma ameaça. Não sou advogada, mas o bom senso me leva a acreditar que isso é uma violação aos princípios legais deste país.

               Volto à pergunta do início: a quem cabe zelar e manter a ordem neste país? A soberania se manifesta através do Legislativo, Judiciário e Executivo. Entendo que a ameaça foi genérica, mas, se tivesse sido ao contrário? Se um produtor rural tivesse aparecido no Jornal Nacional dizendo que o ano de 2005 será marcado por grandes lutas, que o governo que faça a escolha, ou protege a propriedade privada ou eles vão para as ruas. Como iria agir o MST e o governo?

               No artigo 5º da Constituição Federal diz: "Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade...". Observem, inviolabilidade do direito à propriedade, à segurança. O produtor vive a insegurança de ter uma propriedade.

                Não pára por aí, seguindo a leitura do artigo 5.º, podemos ver: "A lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais" (XLI). Ora, se eu fosse proprietária rural me sentiria ameaçada no meu direito à liberdade. Mais abaixo: "A lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura, ...o terrorismo... por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem" (XLIII). No meu laico entender, o ato de manter pessoas como reféns durante uma noite toda, como o caso ocorrido em Mato Grosso este ano, onde proprietários de uma fazenda ficaram reféns sem energia, sem telefone, enquanto do lado de fora conversavam sobre atear ou não fogo na casa, é tortura, da forma mais cruel, tortura psicológica, terror.

"Constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático" (XLIV). Minha dúvida: quando as invasões são feitas, os integrantes do movimento trazem nas mãos flores? Foice é arma? Levar a instabilidade no campo, ameaçar de infernizar, não é um atentado à ordem constitucional e ao Estado democrático?

Não sei o que nos reserva 2005, não podemos mensurar a sanidade mental muito menos o poder bélico do grupo. Não sei o que quer dizer "um ano de lutas" para essa organização. O fato é que está na Constituição, bem claro, que deverão responder "os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem". O presidente da República e o ministro da Justiça são constitucionalmente responsáveis pela manutenção do Estado de Direito e da ordem pública e deverão ser responsabilizados por omissão caso a ameaça do MST se concretize.

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