| No
outro dia, num táxi do Centro a Ipanema, apesar do
aspecto de poucos amigos do motorista, rompi o silêncio
para perguntar a ele o que estava achando do trânsito.
A meu ver, pelo menos no Rio de Janeiro, na segunda semana
de dezembro, estava fácil demais. Considerando ainda
que as lojas não andavam cheias, parecia que o Natal
de 2005 não seria pródigo.
Continuei:
“É que acho que este Natal será afetado
pela crise política, mesmo que todo mundo diga que
não.” Ele respondeu: “É, minha mulher
tem comércio. Disse que está jogado às
traças. Eu, mesmo, vou gastar no Natal e esperar o
quê? A gente já tem gasto extra, pagando tudo
mais caro com imposto para esses vagabundos nos roubarem.
Que democracia é essa que me obriga a votar? Eu não
quero votar e quero ter esse direito. Mas sou obrigado. Trabalho,
trabalho, e parte do meu dinheiro vai forçado para
político. Não tenho oportunidades, onde botar
meus filhos para estudar, hospital para ir e sou obrigado
a votar nesses vagabundos — uns ignorantes que não
deixam o povo trabalhar em paz.” E assim foi até
a Maria Quitéria, onde saltei. .
Quase
não falei, pois ele engatou naquele longo desabafo
liberal-democrata, de quem tem deveres e quer direitos, não
me dando chance de argumentar nem a favor, nem contra.
Lembrei-me
disso ao ler a entrevista do senador Jorge Bornhausen nas
páginas amarelas da última “Veja”,
em que ele recusa veementemente um posicionamento do PFL à
direita do espectro político brasileiro. “O PFL
é um partido de centro.” “A direita não
cabe no figurino brasileiro.” “Não há
como existir direita num país que não é
desenvolvido.” Lembrei-me também de FHC, num
artigo, devolvendo a ofensa a Lula: “Liberal é
você!”, e de Arnaldo Jabor, afirmando corretamente
que as propostas da esquerda brasileira se mostraram furadas
e atrasadas, mas defendendo a invenção da nova
esquerda. Opiniões que, no fundo, mostram que o Brasil
está capenga, pulando numa perna só, um verdadeiro
saci-pererê.
Não
é que eu defenda os rótulos — eles têm
sido usados para que se descartem de antemão quaisquer
idéias com que os donos do debate não concordem.
Mas se só há esquerda, para onde se deslocará
o pêndulo que trará renovação política
e modernização das instituições
brasileiras, depois do fracasso da esquerda? Por que os que
defendem uma democracia de mercado moderna e suas instituições,
fortalecendo os direitos individuais e a capacidade do cidadão
de os fazer valer, não podem defender suas idéias
dando-lhes o devido nome? Por que, para defender uma agenda
de modernização inspirada pelo sucesso de democracias
de mercado consolidadas, que possam dar chances reais aos pobres
de sair da pobreza por meio da educação e do trabalho,
é preciso se desculpar e usar eufemismos? O senador Bornhausen
negou ter medo de dizer que é de direita, mas não
explicou que direita é essa que ele não quer ser.
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Corrupção
e outros quejandos
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Jorge Ernesto de
Macedo Geisel |
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| A corrupção é o mal
advindo do poder. Não
há dúvida de
que quanto mais descentralizado
o poder, menor será
a capacidade jurisdicional
de cometê-la. A questão
exige visibilidade pública
e ela só é possibilitada
quando os poderes republicanos
de nomear e de decidir, são
reduzidos pelo continuado
exercício da liberdade,
na amplitude máxima
de subsidiaridade executiva,
legislativa e judiciária
dos Estados-membros da Federação
e na capacidade participativa
das populações
diretamente interessadas nos
problemas públicos
locais e regionais..
Prosseguir |
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Transas
não contabilizadas
Adriana Vandoni Curvo
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Quem pensava que
todas as peripécias desta
gestão já estavam desvendadas,
enganou-se. Tem mais uma,
hilária tanto ou mais que
as outras. Estou falando de
uma bomba que corre por trás
das câmeras de TVs e que se
vier à tona, será uma bomba
muito maior que aquela “sem-graceira”
de comentar sobre os métodos
utilizados pelo o Palácio
do Planalto... Prosseguir
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A
esquerda tradicional, em nome dos interesses do proletariado,
e a direita tradicional, em nome dos interesses da burguesia,
giravam em torno da ditadura. Ambas, curiosamente, davam ao
Estado papel central para a transformação social. As ditaduras
tradicionais foram, acima de tudo, ditaduras estatistas. Sem
mudar o papel atribuído ao Estado, que por isso só faz crescer,
a esquerda e a direita modernas incorporaram a idéia da democracia
O
liberalismo, que por aqui ou não existe ou é
uma espécie de xingamento, nasceu moderno no século
XIX e esta é sua vantagem histórica comparativa
— nunca aceitou a ditadura como organização
social nem o Estado como agente transformador da realidade.
Um
liberal-democrata pode estar mais à direita ou mais
à esquerda, dependendo de como se posicione sobre valores
que organizam a vida social, mas em nenhuma hipótese
a sociedade baseada nesses valores resultará num Estado
opressor. A proposta liberal, que pouquíssimo tem a
ver com as políticas econômicas que levaram esse
nome no Brasil, organiza-se em torno do Estado de direito
e da liberdade e responsabilidade dos indivíduos para
promover seu próprio bem-estar, em contraste com esquerda
e direita tradicionais. A pergunta a ser feita a um político
brasileiro — Lula, Bornhausen ou FHC — é
se ele é um liberal-democrata ou não. Caso diga
não, pouco importa saber se é de esquerda, de
direita ou de centro, já que, como a própria
História recente do Brasil mostra, suas propostas de
organização da sociedade sempre implicarão
o papel central e crescente do Estado.
Um
futuro de crescimento sustentado para o Brasil depende de
que nossos líderes aprendam o que sabe aquele motorista
— que o papel do Estado é garantir e facilitar
a liberdade e a capacidade empreendedora dos indivíduos
e não o de regulá-los e atrapalhá-los
em nome de interesses que se confundem com os dos próprios
políticos. Intelectuais, professores universitários,
jornalistas, líderes políticos têm o dever
de esclarecer para o indivíduo comum, que quer ver
seus filhos com mais oportunidades do que as que ele teve,
que há algo além da esquerda, que foi experimentado
em outras sociedades e tem resultados palpáveis no
caminho para a realização de seus cidadãos,
com liberdade e oportunidade de sucesso. Há fórmulas,
que já deram certo em outros lugares, baseadas na força
do indivíduo para competir e empreender e, assim, galgar
os degraus da escalada social.
PATRÍCIA CARLOS
DE ANDRADE é diretora-executiva do Instituto Millenium.
Publicado em O Globo
14
de janeiro de 2006
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Opinião
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