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A poesia de Ney Reis em Depois da meia-noite
Conheça Ney Reis
 
O dono
 
Eu tenho a vocação do lobo,
o desajeitado caçador, o fantasma:
todas as presas me escapam.
O lobo que há em mim
é um animal ensimesmado.
Porque tudo me deixa:
as mulheres que amei e já se foram.
Meu filho me visita e depois também vai.
Aliás, é ele, que sempre volta, o meu elo com o
mundo
com que vou amar ( a futura fugitiva ).
Eu tenho a vocação do lobo
e meu filho é o outro.
Ele é o tempo. É o meu dono.

 

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Sonho de um Outubro eufórico
Arraial do Cabo
Ney Reis
 
Olho pra você, esqueço a cerveja,
trago o cigarro no canto da boca espalhando
fumaça
largo tudo. Meu sonho
é vê-la sozinha nessa mesma praia
onde as barracas apinhadas de gente se
transformem
num exército de espelhos refletindo seu sorriso.
Meu sonho
é bebê-la de canudinho,
mergulhar do Pontal nessa visão do seu
corpo,
derrapar nas suas curvas e me espatifar
nos seus braços,
seus pelinhos descoloridos, sua boca.
Meu sonho
é envolver você nesses dias de seda
e fumar o mundo!
 

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O Anjo distraído
(a todas as musas )
Ney Reis
 
A musa é uma deus caída na Terra,
perdida no mesmo bar, todas as tardes
com um blusa transparente e um sorriso ambíguo;
é um anjo quase embriagado
buscando o norte nos teus olhos
e o porto seguro no crnaval dos teus braços.
A musa é avessa à contemplação eterna
e prefere ser tocada. Com fôlego e rte,
a qualquer hora do dia.
 

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O notívago
A Manoel Gomes e Décio Estigarríbia
Ney Reis
 
Salto sobre o ferro dos canteiros e chuto algumas latas amassadas.
Evito as armadilhas fétidas da calçada em frente ao Catete.
Água parada, lâmpadas apagadas, letreiros de farmácia
com letras desfalcadas em seu "analfabetismo high-tech"
zombam de um poeta que procura musas e inspiração,
assim, ao acaso, como se risse de seus próprios dons.
Desisto: penso em uma garrafa de vinho e um talão de cheques;
tenho uma aliança na mão esquerda e me pergunto:
um poeta pediria trôco numa padaria?
Leria Rimbaud na hora do Jornal Nacional?
Salto sobre um monte de pedras portuguesas
e vejo a escadaria do Metrô vazia.
Só um sujeito com barba mal-feita se agarrar a uma prostituta
e acena para o ônibus ( não há mais trens subterrâneos, só os obscuros vagões da alma humana).
Às onze e quarenta, eu morro de rir dos meus pensamentos.
 
 

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Mulheres demais
 
Ney Reis
 
Mulheres
e seus olhares ensinados.
Mulheres
e seus desejos bem guardados.
Lindas
como pistolas automáticas,
sensíveis
como detonadores de plásticos.
 
Mulheres
e sua fala envolvente.
Mulheres
essenciais e negligentes,
banais
como garotas sonhadoras,
cruéis
comos as primeiras professoras.
Mulheres que nos acertam nas retinas.
Mulheres:
remorso e penicilina.
Lindas
como a primeira descoberta;
duplas:
a mais errada é a mais certa.
 

Leia aqui sobre o poeta Ney Reis

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