|
|
|
Lanternas
pela noite
|
| |
|
Manuel
Cavalcanti
|
| |
| |
|
Os caminhos da noite levam
a toda parte.
|
| Igualitária de contornos,
a noite contém |
| direções em
todos os sentidos. |
| Caminhos de surtos e de
ascensões |
| caminhos de quedas e caminhos
parados, estacionários. |
| Há os caminhos da
volta serena |
| e os íngremes da
ida umedecidos com ácidos. |
| Os dos rios, submissos ao
destino cambaleante das margens. |
| Caminhos nascendo de outros
caminhos |
| e outros estertorando com
coruscações de fogo negro. |
| As pedras encerram linhas
harmoniosas |
| por onde um dia passarão
mãos criadoras |
| distinguindo-as e revelando-as
na tessitura de tantas outras. |
| Caminhos de melodias e de
cores e de vozes |
| também à espera
de cavalgadas ou de pastores. |
| Caminhos que espreitam à
flor da terra |
| o que traz o broto da terra |
| e que, vão batedores,
rasgar o espaço |
| para a glória madura
de uma árvore. |
| Caminhos de pensamentos,
de vistas perdidas. |
| |
|
| A noite diluiu a distância, |
| uniu o céu à
terra e trouxe nuvens para o solo. |
| Vamos com o mundo em procissão. |
| |
|
| Lanternas caminham pela
noite... |
| |
|
Sobe
Biblioteca Sobre
Manuel Cavalcanti
|
|
|
|
|
|
|
|
A
veste do tempo
|
|
|
|
Manuel
Cavalcanti
|
|
|
|
|
| Há de ser com a veste
do tempo |
| que eu chegarei à
presença do Senhor. |
| Diante do Seu silêncio,
conturbado em respostas antecipadas, |
| assentirei nas minhas culpas
quando em silêncio me perguntar |
| que fiz da túnica
alva, que vestia minha inocência, |
| que fiz dela, esquecida,
quando atravessava o frio rio da vida, |
| quando ferido e em desespero
vi-me lançado às praias da Eternidade. |
| Será com a túnica
em andrajos, único despojo que me restará, |
| com manchas de lodo e sangue,
de saliva da minha cólera, |
| de sêmen desperdiçado,
a exalar perfumes de adultério, |
| gasta dos meus sonos de
vagabundo furtados à vigilância dos guardas-noturnos, |
| e de aconchegos proibidos
pela lei eterna e a lei dos homens, |
| será vestido com
essa túnica, que era branca e pura como a neve, |
| que eu me apresentarei face
a face com o Senhor. |
| Olham-me, é uma insígnia
de ouro falso pregada no meu peito |
| e só por si um dístico
do ouro que me veio às mãos |
| sem esforço, sem
suor, sem dignidade, sem padecer. |
| É uma transparência
que deixa ver o sexo, as nádegas, os últimos
pensamentos, |
| as palavras que menti ao
mundo e sinto morder-me como piolhos, |
| a hipocrisia, que foi uma
grande arma e o meu segredo, |
| tudo exposto, porque de
repente transformei-me num imenso cristal. |
| Olham-me, sou uma vitrina
diante do imenso ajuntamento, |
| e me cobrirei de vergonha,
que de contrições já estou coberto. |
| Pelo pouco de amor que pude
realizar em vida, perdoai-me. |
| Pelo pouco de fé
que nunca me abandonou, perdoai-me. |
| Pelo pouco de esperança
que consegui manter em Vossa misericórdia, |
| pelo pouco que fui esmagado
sob montanhas de sofrimento, |
| pelo pouco que soube cantar
em Vosso louvor, perdoai-me. |
| Perdoando, permiti que me
banhe nas águas do Vosso amor, |
| que nas pedras da Fonte
eu lave com as minhas mãos a veste do tempo, |
| para que possa ser também
uma testemunha da Eterna Face. |
|
|
|
Sobe
Biblioteca Sobre
Manuel Cavalcanti
|
|
|
|
|
|
|
|
Dignus
semper
|
|
|
|
Manuel
Cavalcanti
|
|
|
|
|
| Salve a composta grandeza
dos arruinados |
| e o heroísmo da resistência
furiosa miséria. |
| A pé, o carro ocupa
agora apenas um lugar |
| um vão no fundo escuro
das recordações. |
| O próprio bonde vai
se tornando inacessível. |
| A pé, na larga rua
democrática |
| onde se pisa com força,
igual para todo mundo. |
| Salve a dignidade que ainda
está por desaparecer, |
| a esforçada importância
do colete surrado |
| e o gravatão inútil
mas absolutamente indispensável. |
| Salve este passado perambulando
vivo por aí. |
| As botinas, oh salve as
botinas descambaadas, |
| circuncisas para a comodidade
dos joanetes, |
| e bem como o anfíbio
destino de rastejar no pó |
| ou mergulhar com valentia
nas enxurradas. |
| Salve as botinas que acompanharam
com fidelidade |
| o dono na sua descida para
a indigência, |
| servindo-o sempre com tamanha
dedicação |
| que os amigos em confronto
se sentem diminuídos. |
|
As botinas primeiro, depois
os amigos, salve! salve!
|
| O paletó não
acompanhou as transformações do corpo. |
| Os ombros se encurvaram,
o peito antes saliente |
| aos poucos foi murchando
até tornar-se côncavo. |
| As costuras com o tempo
se abriram, a dura sorte |
| pesava muito para que velhas
linhas a suportassem. |
| Com isso os forros a princípio
se entremostravam |
| mas acabaram vindo todos
para o ar livre. |
| Abainhados se descoseram
e logo após vieram |
| os fiapos, denunciadores
da miséria definitiva. |
| |
|
| As pernas não val
mal dentro das calças frouxas. |
| Verdade é que existem
joelheiras inconvenientes |
| onde as listas de casimira
se acabam numa ilha ruça. |
| Há por certo uns
remendos, e alguns serzidos atrás, |
| mas não estando à
vista é como se não existissem. |
| Assim as mangas da camisa,
quanto tempo faz |
| que as transformou em lenços
onde com discrição |
| e bons hábitos de
antanho inda pode assoar-se! |
| Não seria por esses
expedientes de acomodação |
| que nele iriam reconhecer
de chofre o decaído. |
| |
|
| Muito do que os andrajos,
bem mais do que o corpo |
| vergado e cada vez mais
roído, pela constipação; |
| mais que o andar arrastado,
os dois braços pendidos |
| e aquele olhar preso a algum
ponto no passado; |
| mais do que o ar de mártir
flutuando no rosto |
| e da pena que dá
vê-lo entre farrapos ao vento; |
| ou empurrando pelas mãos
invisíveis de um destino, |
| mais do que tudo, fala nessa
dor monstruosa |
| sabê-lo um homem vencido
e afogado em suor |
| os gestos que ainda resistem
terrivelmente na queda. |
| |
|
Sobe
Biblioteca Sobre
Manuel Cavalcanti
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Intermezzo
|
| |
|
Manuel
Cavalcanti
|
| |
| |
| Chove sobre os carvões,
chuva que não canta, |
| não geme, não
chora, não sofre, não tem fim. |
| Chove uma chuva rude sobre
os carvões, que coisa! |
| nunca choveu assim, uma
chuva assim, numa hora destas. |
| |
|
| Chove sem cor, chove impiedosamente,
loucamente, |
| talvez sobre os telhados,
sobre árvores, nas vidraças, |
| talvez chova em cima dum
monte de terra fresca |
| e vá molhar um corpo
novo nas galerias do campo-santo. |
| |
|
| Pode ser essa chuva que
não cai no pátio das prisões, |
| a que comove um instante
a alma dos encarcerados, |
| como pode ser também
a que lava os rochedos, |
| ou que ensopa o velame dos
brigues e das escunas. |
| |
|
| Pode ser a do desespero,
a que afoga as esperanças, |
| a que se infiltra e cava
nos seres o desengano, |
| a que entra pelos ouvidos
e toma conta de tudo, |
| carne, pensamento, gestos,
pode ser, pode ser... |
| |
|
| A certeza, porém,
é que chove sobre carvões. |
| Chove sobre brasas mortas
antes de viverem. |
| Chove morte sobre o áureo
destino das fagulhas |
| que não chegaram
a resplandecer no coração das forjas. |
| |
|
| Chove fantasticamente sobre
pilhas negras, |
| chove preto e escorrido
nos canais do quintalejo, |
| chove misterioso, chove
bárbaro, chove sadicamente, |
| sobre carvões desfeitos,
chove, continua chovendo. |
| |
|
| Fugir, esquecer, arrancar
estes olhos pregados, |
| matar essa chuva que molha
a carne martirizada, |
| essa chuva inconvulsa, que
não soa nem finda. |
| Mas chove, ainda e sempre,
chove sobre os carvões. |
|
|
|
Sobe
Biblioteca Sobre
Manuel Cavalcanti
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
 |
Pássaro
Pássaro
|
|
| |
| |
| |
|
Prefácio
|
| |
|
Pousa
o Pássaro
|
| |
|
Cândido
Mendes
|
| |
|
`Pássaro,
pássaro. A chamada se repete, como um sibilar
certeiro. Aérea armadilha de Manuel Cavalcanti,
cativa a rota do vôo. O autor sabe de sua
presa. Soltou-a na tranqüilidade da trajetória
desimpedida, e da volta inflexível. De
permeio, a vida toda de quem se calava há
43 anos, na côgrua e na brevidade, já,
de um recado perene. Sucedia à Veste
do tempo e ao dotar todo da faena do lírico
pernambucano e de sua presença incisiva
no movimento Orfeu, ao lado de Fernando
Ferreira de Loanda e Wilson de Figueiredo. Começara
a peregrinação pelas Lanternas
pela noite, e na intensa atividade do Jornal
de Letras de que foi, Manuel Cavalcanti, um dos
fundadores. Marcava o poeta o seu perfil na intimidade
e na atmosfera dos irmãos Condé
e via a obra a repercutir nas críticas
de Álvaro LIns, Tristão de Ataíde,
Adonias Filhos, Willy Levin, Luis Delgado e Guilhermino
Cesar. A terceira obra ficava, de texto inteiro,
desfechado, íntegro, no esmaecimento do
papel, na urdidura das linhas, sem limalha ou
mossa da memória. Nem epitáfio nem
bouteille à la mer. Senha, sim,
exata, em que o poeta viu e esperou mais que o
trabalho interno da obra. Aguardou o cumprimento
dos dias e dos labores para desligar-se; para
compartilhar o vôo, balizado por todos os
quadrantes de sua peregrinação interior.
Nessas décadas de convívio com Manuel
Cavalcanti o pássaro perpassava em
nossa conversa, na trama mais sutil da presença
do amigo perfeito. Não sabia mais se o
texto era projeto, publicação exaurida,
original de circulação restritíssima,
como o era, obra guardada no mais profundo dos
seus recônditos. Vazava-se o texto, como
boa filigrana, a uma tatuagem da lembrança,
e à desnecessidade de um dizer passado
todo ao arcano no recado rematado. Os versos de
46, finalmente agora dados à publicação
pelo desvelo da Editora Corpo da Letra, liberado
e não reencontrado ou descoberto, só
comportou, em todo o seu teor, a alteração
de um único verso. Inscrito o risco do
imginário ...´
|
| |
| |
|
O
pássaro
|
| |
|
Manuel
Cavalcanti
|
| |
|
I
|
| |
| Pássaro, onde
é teu ninho? |
| Em que paragem se
oculta que ninguém pode vê-lo? |
| Nas ignotas regiões
do pólo ou do sonho? |
| Num oásis desconhecido
ou aqui perto de minha vista? |
| Pássaro, não
encontrarei teu ninho? |
| |
|
| Já me fiz ao
largo num veleiro, |
| certo de que tua morada
era atrás dos mares. |
| Fui à Terra
do Fogo, à Kamtchatka, |
| à Papuásia,
às cabeceiras do Nilo. |
| Por toda parte ouvia
teu canto |
| e nos ares o risco
de tua passagem. |
| |
|
| Em todas as cidades
novas e antigas |
| sempre me falaram
no itinerário, |
| na tua presença
rápida e nervosa |
| por cima das torres
e minaretes, |
| por sobre telhados
e chaminés. |
| |
|
| Mar Vermelho, |
| Mar de Coral, |
| Mar Amarelo, |
| os verdes mares. |
| Desde Galápagos |
| às Sakalins, |
| do Tiberíades |
| a Nova York. |
| (
parte do Iº canto ) |
|
|
|
Sobe
Biblioteca Sobre
Manuel Cavalcanti
|
|
|
|
|
|
Todos
estão sós
|
|
|
|
Manuel
Cavalcanti
|
|
|
|
|
| Na comunidade dos
cegos, cego deve ser quem os guarda, |
| dos loucos, louco;
dos reis, um imperador. |
| No retiro dos aflitos,
quem manda deve ser um deserperado. |
| Na casa das vidraças
partidas, onde vivem os que perderam tudo, |
| o primeiro a espiar
de dentro deve ser um nu. |
| |
|
| Na procissão
dos sós é o caminhar sozinho, |
| consigo mesmo, sem
lembrar que a sombra vai, |
| que a cadência
vi, com o recolhimento e a paisagem. |
| que os outros sós,
consigo mesmos, também vão. |
| Na procissão
dos sós ir todo e apenas ir. |
| |
|
| No portão dos
orfanatos permanecerá toda vida |
| sentado atrás
das grades o velho gordo e lascivo. |
| Nos longos corredores
ainda ronda o chefe de disciplina, |
| que de dia castiga
o corpo das pequeninas órfãs |
| e à noite vai
violar inocentes carnes de cama em cama. |
| |
|
| Veremos nas ameias
dos altos muros das prisões |
| a sentinela, para
cá e para lá, o quepe, a carabina, |
| dando guarda aos que
já estão guardados em suas celas. |
| Pela segurança
dos prisioneiros velam por todo o sempre |
| os que não
conhecem a solidão na vida dos encarcerados. |
| |
|
| No cortejo do amigo
morto somente ele é o morto. |
| Todos recusam segui-lo,
tendo a morte à sua mão. |
| Nõ pensam no
próprio morrer quando o levam em despedida, |
| com o que apressariam,
solidários com o que se vai, |
| a hora única,
que a cada um encontrará sozinho. |
| |
|
| Na alegria, como no
sofrimento, todos estão sós, |
| terrivelmente sós,
nas suas dores, nos seus enlevos. |
| Sós, como os
que orando na escuridão, sem murmurar, |
| não sabem se
o que os cerca são lajes de sepulcro |
| ou arpejos de mar,
se estão em transe, se de joelhos. |
| |
|
| Sós como quem
dorme pesadamente, sem sonhar. |
| Como quem traz no
desnudo corpo a alma desnastrada |
| de todas s recordações,
como quem começa a nascer |
| e pensamentos nem
de leve tocaram a memória nova. |
| Tão sós
quanto os espelhos ainda virgens de refrações. |
| |
|
| Sós como a
palavra o diz, todos se encontram sós. |
| Os que se transviaram
e vêem a noite cair nas encruzilhadas. |
| Os que não
se reconhecendo mais donos das próprias mãos |
| ouvem os próprios
passos como sendo dos outros no calçamento, |
| e sabem com tristeza
que o humano socorro não existe. |
| |
|
| Sós por sós,
como cegos por cegos, pelas vias do mundo. |
| Inocentes por inocentes,
para que não sofra em desamparo |
| o corpo das pequeninas
órfãs na penumbra dos dormitórios. |
| Mortos por mortos,
para que o adeus seja uma forma de morrer. |
| Sós por sós,
como cegos por cegos, loucos por loucos. |
|