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Por que do conto ao miniconto
Edilberto Coutinho

 

' Numa conversa em 1979 com Jon Tolman, que me ajudava na revisão de uma série de texto traduzidos por estudantes norte-americanos, da Universidade de Iowa, como exercício de um Translator´s Workshop, ele me disse: " Esses seus pequenos contos parecem tão...súbitos." Depois, num encontro com alunos do professor Malcolm Silverman, na Universidade de San Diego, um deles corroborou a mesma impressão: sudden fiction, aí estava uma denominação de que gostei.

E adotei. O conto tinha que ser isto mesmo: súbito, veloz. Seco - sem deixar de ser lírico - e urgente. Ficção súbita. Pouca gente nos Estados Unidos, àquela época, fazia contos tão curtos. " Aqui se prefere o contão", observou Jon Tolman, a propósito.

Claro que o texto existirá ( se...) independentemente da denominação que a crítica atribua a ele. Se de boa qualidade, permanecerá ( até sem batismo literário ).

O certo é que sempre me senti seduzido por qualquer tipo de texto bem curto, quer fosse chamado de ficção, poesia ou gênero não catalogado ( ó preceptistas da vida, arredai ).

Tenho sempre feito o elogio do conto. Vejo-o como a forma mais intensa, densa, essencial e eficaz de comunicação literária em prosa. Num conto o autor tem que estar lá, marcando sua presença, fortemente, em cada palavra, procurando situar o pormenor que fixa, que fica e marca sua maneira de ser ficcionista. É um trabalho exaustivo. Cada verbo tem que ser exato e vigoroso. O supérfluo não tem vez. O conto não admite excrescência verbal alguma.´

Texto extraído do Prefácio do Livro Práticas Proibidas - minicontos

Valor das crenças

Edilberto Coutinho

Todos os sinos repicaram, chamando os homens com alguma crença para se reunirem no pátio da Igreja. Olhei pra os altos da cidadezinha de casas baixas, onde fica a Casa do Perdão. Pensei com um certo desagrado que estava excluído daquele chamamento.

A verdade é que, nos últimos anos, desde que cheguei aos 30, fui perdendo todas as crenças. Como, assim, participar daquela importante reunião? ( Com tanto repicar de sinos, coisa e loisa.)

Procurei então um homem mais novo, possuidor de muitas crenças e lhe pedi uma emprestada.

Mas não pude participar da Grande Reunião, pois me barraram dizendo que só valia crença própria. Fui então, com uma certa tristeza, devolver aquela crença de empréstimo ao homem mais novo. Mas ele não a quis de volta, dizendo-me que tinha outras e melhores.

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Comunicação

 

Edilberto Coutinho

Houve um tempo em que falávamos colorido, mas fomos perdendo, uma uma, as cores do nosso verbo. E só nos resta agora um roxo silêncio amarelo.

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Memorialistas, ah

 

Edilberto Coutinho

Le suvenir est un poète, n´en faites pas un historien.

No mais, tem que haver indulgência à má memória. Daí nem nós nem Fernando Pessoa termos jamais conhecido quem tivesse levado porradas.

Memorialistas nenhum; todos príncipes, neste mundinho plebeu de deus-nos-acuda.

 

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