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 o melhor da poesia brasileira -the best of brazilian poetry

O passante invisível - por Lêdo Ivo

Texto constante do convite de noite de autógrafos. Clique para ver o convite

 

Lêdo Ivo, Acadêmico, poeta e amigo escreve sobre Manuel Cavalcanti

 

Ilustração de Santa Rosa, para capa do livro

A veste do tempo

Há poetas visíveis, e até demasiadamente visíveis, cuja persistente visibilidade se exaure num despojado dar-se e ver. E há poetas invisíveis, que se escondem do leitor e atravessam a cidade das letras como ectoplasmas. Eles não querem ser vistos e, situados fora do alcance da identificação canglorosa, comprovam a evidência de que a poesia, como a lua, tem o seu outro lado oculto e obscuro.

Entre nós, os dois exemplos fulgentes e recentes desses poetas voltados para o silêncio e o pudor de uma aventura secreta, e imunes ao respaldo do rumor e da tonitruência, são Dante Milano e Joaquim Cardozo. A eles cabe acrescentar o pernambucano Manuel Cavalcanti que, em 1946, permitiu que a sua voz sigilosa fosse ouvida por alguns de nós em a Veste do Tempo. Ele estava atrás e adiante da veste que ao mesmo tempo esconde e revela o passar dos dias que passam; e dos dias que não passam.

 

                                        Chove sobre os carvões, chuva que não canta,
                                        
não geme, não chora, não sofre, não tem fim.

 

Essa visão dura e todavia líquida da realidade era o seu belo distintivo poético, a sua visão irredutível das coisas e das horas, dos homens e do tempo, a respiração da vida na página enegrecida pelo carvão do poema.

Enquanto os dias passavam e não passavam, e a chuva chovia e não chovia, Manuel Cavalcanti, no silêncio e na solidão, protegido pelo seu escudo de caracol, foi acumulando uma nítida e consistente obra poética, que, agora, aparece em toda a sua nitidez e inteireza. É uma voz poética diferente - dessa diferença que é a razão da poesia. A voz de longe vem ao nosso encontro, antecipada e antecipadora, para ser ouvida hoje e amanhã.

Manuel Cavalcanti: há mais de meio século que o conheço ( ou o desconheço ) e guardo o seu nome e aguardo a sua passagem.

Manuel Cavalcanti sabe que a chuva cai sobre os carvões. A vida e a arte, o sonho e a morte são essa chuva incessante. O ocultamento radioso que é a poesia, a lanterna que ilumina a escuridão do mundo.

A invisibilidade de Manuel Cavalcanti honra a poesia brasileira do nosso tempo - do nosso tempo coberto pela sua própria veste.

 

Lêdo Ivo

Obra poética reunida - 1940 - 1946 - ISBN 85242-16-7
Para adquirir a obra envie e-mail para: Corpo da Letra Editora

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