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A
MÁSCARA DE CAPELLE
W.
Gelbcke
“ Caro Sr. Capelle. Diz o velho adágio, com sabedoria:
Não há crime perfeito!
Que aconteceu em março de 1950?”
P r ó l o g o
Na biblioteca quase às escuras,
naquele cair de tarde abreviado por súbita tempestade uma mão
magra e crispada amarrotou o bilhete entre os dedos, enquanto
outra apertava fortemente o cabo de pontiaguda espátula. Os
olhos negros e profundos do homem esguio, de cabelos grisalhos
e rosto cansado, cintilaram ao novo relâmpago que, uma vez mais,
iluminou o entardecer frio e chuvoso.
—
Blefe! Ele nada sabe... Nada! — vociferou, ao mesmo tempo
em que forte ribombo fez estremecer os vidros da grande janela
e das reluzentes estantes de livros. Olhos sofridos e marejados
encaravam a figura do moço louro, magnificamente reproduzida
a óleo em tela de pouco mais de dois metros de altura. Apoiado
diretamente sobre o chão, entre duas pesadas prateleiras de
livros, o quadro emoldurado em caixilhos maciços de mogno
era como uma porta aberta para a passagem do moço, com sua
larga blusa branca a lhe mostrar parte do peito, calças negras
e justas a lhe contornar os músculos bem delineados. Não era
um Goya ou um Velázquez, mas, com pinceladas de mestre, o
artista que assinara “Arturo” soubera dar ao moço retratado
uma rara expressão de paz e serenidade.
—
Nós sabemos que aquele idiota nada sabe, não é mesmo, moço
louro? — continuou a figura esquelética, de voz rouca e entrecortada.
Um segredo só nosso. Faz tantos anos... No entanto, segredos
são para sempre. Você não contou nada, contou? Olhar afável,
sorriso dócil e semblante jovial, perpetuados na tela de cores
harmoniosas, contrastavam com o definhamento do homem de olhos
embaçados que o fitava e relembrava, amargamente, o que fora
uma vida sem sentido. Pródigo. Sim, ele fora pródigo e cruel
a vida inteira. Tão diferente do moço louro. E daí? O moço
louro vivera tão pouco...
O homem alto não se lembrava ao certo, se vinte e quatro ou
vinte e cinco anos. De uma coisa recordava bem: havia sempre
aquela estúpida alegria onde quer que o moço louro estivesse.
O estranho e cativante poder que aquele idiota tinha, de fazer
renascer esperanças onde houvesse frustrações, era insuportável...
E aquele estúpido sorriso, o mesmo reproduzido no quadro,
sempre tão fácil para ele. Acabrunhado, a sua esguia figura
pareceu envelhecer ainda mais. Baixou os olhos e todo o seu
corpo estremeceu. Os pensamentos continuavam a torturá-lo,
a cabeça querendo explodir. Por Deus, por que fizera aquilo?
Poderia ter compartilhado daquela felicidade. Ou até... aprendido
a sorrir? Sentiu os joelhos fraquejarem e acabou prostrando-se,
pesadamente, braços abertos e tomado de espasmos. O vento
persistente, que fazia trepidar a janela, acabou abrindo-a
de todo, estrondosamente. O homem retesou-se ao sentir o impacto
do chuvisco gelado a lhe salpicar o rosto. Seu corpo todo
vibrou, como que despertado de terrível pesadelo. As costas
da mão magra levaram da face a última lágrima e seus olhos
ficaram ainda mais profundos.
—
Maldição! O moço louro do quadro estava rindo. Rindo dele.
Não podia permitir que risse dele assim. Sentiu a espátula
ainda na mão. Levantou-se com dificuldade e, tropegamente,
avançou para o quadro. A lâmina brilhante cintilou no ar e
desceu com violência, rompendo a tela quase de alto a baixo.
Uma, duas, três vezes a lâmina voltou a subir e descer, violentamente.
—
Obsesso! — ouviu, no mesmo instante.
—
Quantas vezes queres me matar, Benjamim? A espátula lhe escapou
da mão, indo cravar-se junto a seus pés, no assoalho de tábuas
largas. Voltou-se, bruscamente. As mãos crispadas fincaram-se
no peito e seus olhos se esbugalharam numa máscara de pavor.
Recuou alguns passos cambaleantes, deixando escapar um gemido
abafado.
—
Decrépito ignorante... — continuou a voz grave, pausadamente.
—
Não podes me esquecer, não é, Benjamim? Não era a sua consciência,
podia jurar. Ali estava! Uma silhueta impassível, no corredor
escuro que dava para a biblioteca. O vulto ameaçador se aproximou
dentre as sombras, até chegar quase junto à porta. Aquela
mesma roupa, como no quadro...
—
Onde está Magda, Benjamim? — ameaçou o vulto. — Onde está
ela? O homem de cabelos grisalhos recuou ainda mais, petrificando-se
ao encostar na grande janela de vidro, sem encontrar forças
para responder
.
— Onde está Magda? — insistiu o vulto, ao mesmo tempo em que
a biblioteca era novamente iluminada por outro relâmpago,
revelando ao homem grisalho o que ele mais temia. A blusa
branca... as calças negras... os cabelos louros... Sua voz
custou a sair.
—
NÃO! Não é possível! Jullien, por Deus, não... Vidros espatifados.
Com um grito alucinante, o corpo esquelético atravessou o
janelão e foi se estatelar, em baque surdo, no piso de pedras,
um andar abaixo. Um cão começou a uivar e logo depois o silêncio
voltou a dominar a noite. Apenas a chuva se fazia ouvir.
Mais?
Sobe
Biblioteca
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