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A MÁSCARA DE CAPELLE

W. Gelbcke

 

 

Capítulo 22

 

— Pandora! — exclamou o negro, levantando-se da pesada poltrona de couro. Sentiu as pernas dormentes ao dar alguns passos trôpegos em direção à janela. Olhou para fora e viu as primeiras luzes da cidade se acendendo. O antigo relógio da Estação Rodoviária marcava exatamente sete horas e, com elas, o início de mais uma noite.

Quando ele se virou, Ralfo J. Masseau tentava uma última baforada. O advogado olhou para o cachimbo apagado e o pôs na mesinha ao lado da poltrona. Haviam passado a tarde toda conversando. O advogado sentiu uma pontada nas costas, mas não fez menção de parar. Ele sabia muito bem como as pessoas reagiam, quando se lhes era dado tempo para estarem a sós com seus pensamentos. Era preciso arrancar tudo de Marasquino enquanto ele ali estivesse, envolvido com o passado e rebuscando recordações com um preciosismo que deixava Masseau fascinado. Se parasse agora, Marasquino teria toda a noite para pensar sobre o que já contara; e Masseau não podia correr o risco de ter uma história incompleta. Agora, uma luta com a consciência poderia ser fatal.

Sabia que o negro estava cansado, talvez bem mais do que ele, e podia sentir isso pela interrupção da narrativa. Ou pelo olhar perdido de Marasquino. Ele poderia estar ainda no passado, ou de volta ao presente, comprometido com seus hábitos e obrigações... Era preciso reanimá-lo. Fazer com que continuasse a falar.

— Pandora, você disse? Marasquino reagiu com rápido estremecimento que sacudiu seu enorme corpo. Voltou devagar, para a velha poltrona de couro e se sentou pesadamente, deixando escapar um suspiro prolongado. — Jullien sabia com quem estava lidando — continuou, em voz calma e grave. — E isso ficou bem evidenciado quando mencionou, pela segunda vez, o nome de Pandora.

Magda Barberini havia conseguido plantar a semente da discórdia entre os Capelle, como a mitológica e bela Pandora; e todos haveriam de pagar um alto preço para que a união fosse restabelecida e, com ela, a sobrevivência da poderosa Organização.

O velho banqueiro estava com o orgulho ferido. Magda Barberini o havia traído. Eles tinham um acordo para trazer Jullien de volta ao clã. Ele fora meticuloso, paciente e até calculista, para consegui-lo. O filho do condor haveria de voltar para o lugar que lhe estava reservado, não porque ele o estava forçando, mas em nome do amor. Do sublime amor de seu filho pela bela Psique. Era um bom plano... Por que ela havia de falhar com ele? Tinha sido uma demonstração de fraqueza e isso Justus Capelle não podia tolerar. Ele sabia, desde o início, que poderia estar cometendo um erro ao confiar naquela gata de olhos verdes que já mostrara suas aguçadas unhas, ao trocar Benjamim por Jullien. Mas tinha de tentar. Em nome do amor... Agora, tudo parecia tão claro. Sobre o muro, o tempo todo, a gata pulara para o único lado que lhe interessava — onde havia posição e prestígio à sua espera. E, certamente, muito dinheiro. Tudo lhe parecia, de repente, mesquinho e sem sentido. Não fora assim que Justus Capelle fizera crescer a sua Organização. Não fora com trapaças, planos escusos ou golpes sujos... mas com muito esforço e horas mal dormidas; com justiça e a confiança inabalável no legado deixado pelo pai. E agora, de pé à sua frente, ali estava seu filho predileto a lhe falar de justiça e de moral.

— É minha vida, pai! Você não tinha o direito de jogar com ela, como se lhe pertencesse. Meus sentimentos, são meus! Tinha meus planos, e neles você não estava. Nem Benjamim, ou a própria Magda. E o que é feito deles... de meus planos, de meus sentimentos, de minha vida? Por um simples dever de justiça, você não tinha esse direito...

— Basta! — gritou Justus Capelle. Sua voz ecoou como um rugido por toda a mansão, qual animal selvagem a fazer respeitar seus domínios. — Não me fale em direitos, Jullien, ou em justiça. Você nasceu nesta casa e nada quer com ela. Em suas veias corre o sangue dos Capelle e você não o sente. Não me fale de direitos, de justiça, ou de seus planos... Que planos? Um médico maluco chega a esta casa e você faz planos com ele. Uma mulher bonita chega a esta casa e você tem planos para com ela. Por que devo me interessar pelos seus planos, Jullien? Quando você nasceu, um homem tinha planos para com seu filho. Pode imaginar isso, Jullien? Seu pai, com planos para com você?

— Sempre fomos honestos um com o outro, pai. Podemos ter nossas diferenças, mas sempre houve verdade entre nós. Onde está ela agora?

— Diga-me você! Onde está a verdade, Jullien? Em Campinas? No Guarujá? Onde?

 

Jullien sentiu o chão desaparecer debaixo de seus pés. Fora um erro supor que pudesse manter aquele estado de coisas para sempre. Ele havia menosprezado a inteligência de um astuto homem de negócios que fingia desconhecer os planos do filho, na esperança de um dia tê-lo de volta.

— Magda deve ter enchido sua cabeça.

— Nobre e puro Jullien Capelle, cavaleiro da verdade! Tua lança fere os que te amam — bradou o velho banqueiro, levantando o magro braço, como se tal arma empunhasse. — Mas... que importância isso pode ter, se feres em nome da tua verdade?

O braço de Justus Capelle ainda fremia no ar quando a outra mão partiu em direção ao peito. Seus olhos pareciam saltar das órbitas. Deu dois passos cambaleantes e deixou cair o corpo sobre Jullien, que o amparou.

— Santo Deus, papai! — Desta vez... — balbuciou, abraçado ao filho, aquele seu amigo... nada poderá fazer...

— Pandora! — gritou o moço louro, abraçado ao pai, as lágrimas escorrendo-lhe pela face.

***

Ralfo J. Masseau estava comovido. Os anos haviam passado, deixando para trás páginas de uma história que ainda estava bem gravada na memória daquele generoso homem. Os olhos intumes-cidos de Marasquino mostravam todo o sentimento que ainda ia dentro dele. De certa forma era, também, a história de sua vida. Em nenhum momento da narrativa o advogado vira aquele homem tão extenuado. Masseau sabia que o silêncio era importante naquele momento. Esperou, pacientemente, até Marasquino voltar a falar.

— Ele morreu dois dias mais tarde. — E você o apreciava muito.

— Era meu pai — respondeu o negro, quase num sussurro, como se estivesse falando consigo mesmo.

— Acha que pode continuar? Marasquino olhou para o advogado e o brindou com um inesperado sorriso.

— É claro, doutor. Mesmo porque, já não há muito o que contar. Masseau retribuiu o sorriso:

— Ou porque os fatos já não lhe parecem tão interessantes, após o desaparecimento de Justus Capelle.

— Muito perspicaz, doutor. Muito perspicaz... Marasquino estava novamente à vontade para rebuscar o passado.

***

Quando Hans Reutermann deixou a Unidade de Tratamento Intensivo do Hospital das Clínicas, amparando Donna com os braços, lá estavam Jullien, Benjamim, Antonius, Margarida e Marasquino, aguardando do lado de fora por um novo milagre. Eles podiam sentir que a aparência firme de Donna, sem lágrimas no rosto forte, era apenas parte de uma atuação, a melhor e a mais difícil de sua vida.

— Ele quer falar com você — disse Reutermann, tocando o braço de Jullien. — Dadas as circunstâncias ele não deveria receber ninguém, mas não vejo como deixar de atendê-lo. Seu pai está morrendo, Jullien.

Ninguém nunca soube o que se passou naqueles minutos finais, na UTI. Quando Jullien deixou a Unidade de Tratamento, Justus Capelle já estava morto.

Dois dias mais tarde, Benjamim Capelle reunia todos os membros do Conselho de Administração e da Diretoria da Bancária Capelle S.A.. Reclamava para si o direito de contar com o apoio de todos para sua nomeação como virtual novo presidente; e teria conseguido não fora a chegada imprevista e incômoda de Jullien na assembléia, acompanhado pelo advogado da própria Organização.

A presença do jurista Raul Aureliano Nogueira deixou a sala em silêncio, enquanto Jullien se dirigia até a cabeceira da grande mesa de reunião, de onde Benjamim não tirava, por um instante sequer, os olhos da figura jovem e calma que dele se aproximava. Podia sentir o cheiro e a ameaça no ar. E o suor frio a lhe umedecer a testa.

— Sinto muito, Benjamim — disse Jullien, encarando-o. — Mas não é o que ele queria.

— Ele está morto — respondeu Benjamim, procurando manter a posição de liderança que havia mantido até aquele momento. — Todos nós sentimos muito, Jullien... mas a Bancária Capelle está viva! E assim deve continuar, dentro do mesmo espírito dinâmico que Justus Capelle vinha lhe impondo com sua vontade, sua força e sua filosofia de trabalho.

Jullien notou que todos olhavam para ele, questionando sua presença. Ao mesmo tempo, pareciam concordar com as palavras de seu irmão, pelos acenos silenciosos que já não deixavam dúvidas.

— Há verdade no que você diz — continuou, por fim, Jullien. — Mas não era você que ele queria na presidência.

Benjamim sorriu, sentindo a situação sob controle.

— Uma empresa não se dirige apenas com palavras ou intenções, caro irmão. Se Justus Capelle tinha a intenção de torná-lo um dia presidente da Organização, não conseguiu fazê-lo enquanto vivo. E você sabe a razão. Agora temos uma dura realidade a enfrentar, Jullien. E ele não está aqui para opinar e fazer valer o seu voto.

— Respeitaria o voto dele, se ele aqui estivesse?

Benjamim voltou a sentir o frio na testa. Havia mesmo alguma coisa no ar. Por que seu irmão parecia tão seguro em dizer aquilo? E por que estava acompanhado do advogado da empresa? Era uma posição difícil, para quem almejava conquistar a confiança do mais representativo escalão da empresa. Ali estavam homens e mulheres que acompanhariam Justus Capelle, incondicionalmente, aonde quer que ele fosse. A resposta só poderia ser uma... e ele a deu.

 

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