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   TATUAGENS


    Maria Luíza Aparecida Curti
    Psicóloga Clínica
    Comunique-se
    12, Abril/2002

"Quero ficar no seu corpo feito tatuagem...
Eu quero pesar feito cruz nas suas costas..."

Chico Buarque e Rui Guerra

Para o jovem, tudo o que ele está vivendo na sua adolescência tem o sabor de definitivo e absoluto.

A paixão que ora curte é intensa, e na sua opinião, "é para sempre". Os conceitos que formula nessa fase parecem imutáveis.

A necessidade de se identificar com um grupo (tribo) faz o adolescente viver o paradoxo do igual/diferente: quer ser diferente para a sociedade, porém, igual a seus pares.

De uns anos para cá a tatuagem (tattoo) virou moda a ponto de parecer uma invenção atual, mas não é.

Foi encontrado sob um iceberg, perto de uma montanha nos Alpes Europeu, o mais antigo tatuado. Sabe-se que morreu há aproximadamente 5.000 anos. Outro corpo encontrado em 1948 foi de um chefe (haviam riquezas enterradas com ele) esquimó que morreu, aproximadamente, há 2.500 anos. Um antropólogo dinamarquês reconstituiu totalmente suas tatuagens.

Os instrumentos e as técnicas de tatuar, ao longo do tempo têm pouca variação, o que muda de nação para nação são as motivações, os significados e o porquê o homem imprime imagens em sua pele.

Imprimir pinturas e símbolos na pele, no Egito, tinha um significado altamente religioso. A sacerdotisa Amunet possuía vários pontos de tatuagens, como símbolo de fertilidade e longevidade.

O povo Maori, nativos da Nova Zelândia, famosos por ter desenvolvido um tipo incomum de tatuagem (no rosto), após a morte dos chefes cortavam-lhes a cabeça e as famílias as preservam com muito orgulho.

Nas Ilhas do Pacífico Sul, os europeus, no século XVIII encontraram os habitantes tatuados com desenhos geométricos elaborados, , que ao longo da vida do indivíduo iam sendo estendidos até cobrir todo o corpo. Os guerreiros acreditavam que as tatuagens os fariam batalhar com maior ferocidade e também achavam que atraiam mulheres. As mulheres, por sua vez, também eram tatuadas, porém não tão elaboradamente como os homens.

Entre os índios Sioux, da América do Norte, as tatuagens eram usadas para honrar guerreiros que se distinguiam por bravura em combate e, misticamente, como passaporte pós-morte. Acreditavam que os guerreiros depois de mortos empreendiam uma viagem até o paraíso, mas no meio do caminho, uma mulher velha os interceptava; se não tivessem nenhuma tatuagem eram mandados de volta ao mundo dos vivos como fantasmas errantes. Usavam-nas também como rito de passagem em cerimônias de puberdade.

No Japão foram encontrados túmulos contendo tatuados que datam 2.000, 3.000, 5.000 a.C. ou mais. Acredita-se que a tatuagem teve significado religioso ou mágico.

Os chineses consideravam a tatuagem um sinal de barbarismo e somente a usavam como punição. Lá pelo século VII o Japão adotou muitas atitudes e parte da cultura dos chineses e a tatuagem caiu no desgosto oficial. Passou a ser usada apenas para marcar e identificar criminosos. A variedade de símbolos designava os lugares onde o os crimes foram cometidos. Esses indivíduos eram renegados pelos familiares e comunidade.

Apesar da proibição, a tatuagem floresceu na extremidade mais baixa da escala social. Até hoje, no Japão, a tatuagem é vista como símbolo de marginalização.

Quando os portugueses chegaram ao Brasil, em 1500 os índios já se tatuavam, costume que sobrevive até hoje em algumas tribos. É famosa a arte refinada dos desenhos geométricos da tribo Kadiwéu, remanescente da Nação Guaikuru. As tatuagens eram feitas entre 14 e 16 anos, quando o jovem já tinha força para suportar o sofrimento. Os kadiwéus diziam que a pintura no corpo era feita para diferenciar o homem do animal.

No Ocidente a Igreja Católica proibiu a tatuagem em 787 d.C. alegando que a prática estava associada à supertição e ao paganismo. Por esse motivo houve um hiato entre esse ano até o fim da Idade Média em que a tatuagem ficou quase esquecida.

Em 1691 o príncipe Giolo das Filipinas foi feito escravo, seu dono o trouxe a Londres e o exibiu como uma atração exótica, pois era tatuado da cabeça aos pés. No final do século XIX, a tatuagem se espalhou na Inglaterra como febre. A "tattoo" como passou a ser chamada fez adeptos em todos os segmentos sociais, até o rei Edward VII tatuava o corpo com freqüência. Enquanto, psicólogos e advogados como Lombroso insistiam em associar o ato de se tatuar à propensão à criminalidade e marginalidade, a realeza se tatuava.

Nos EUA, até cerca de 1985 a tatuagem estava ligada às classes sócio-econômicas mais baixas e aos criminosos. Num espaço de 20 anos o número de estúdios de tatuagens saltou de cerca de 300 para mais de 4.000.

No Brasil, em São Paulo, a lei estadual nº 9.828, proíbe desde 1997, a aplicação de piercings e tatuagens em menores de idade, mesmo sob o consentimento dos pais. Há também na Câmara Federal, lei a ser votada, proibindo também a prática para menores em todo território nacional.

Nós não possuímos uma cultura de tatuagens para expressar religiosidade, bravura ou status do cidadão, mas a moda de ostentar a tatuagem como adorno está em alta, apesar do preconceito e sua aplicação ser extremamente dolorosa.

Entretanto, na mesma medida que aumenta a procura de estúdios para fazer tatuagens, numa outra mão, aumenta a corrida dos arrependidos a consultórios de dermatologistas para livrarem-se delas . Há várias técnicas, mas qualquer processo de remoção é longo, doloroso, caro e a pele não volta a ser como antes.

Penso que a tatuagem, seja ela qual for, encerra mensagens e quem a "comete", a faz para o outro. Se fosse para si mesmo, ninguém a faria nas costas, no pescoço ou em qualquer outro lugar onde ela própria não pudesse ver, porém, se está apenas transmitindo mensagens, não há necessidade de enxergá-la.

Qualquer pessoa tem o direito de carregar em seu corpo para o resto da vida o que quiser, mas, precisa estar absolutamente certa disso, pois não é fácil livrar-se da tatuagem se bater o arrependimento.

A adolescência é um tempo de passagem para a vida adulta. As certezas de hoje podem não ser as mesmas de amanhã, por isso é necessário pensar e avaliar seriamente sobre os riscos que uma posterior retirada implica, ou mesmo se decidir pela não retirada, aquele símbolo imprimido na pele que, antes era "tuuuuudo" o que queria, não passe a pesar "feito cruz nas suas costas...", como diz a música "Tatuagem".

Geralmente tendemos a pensar na tatuagem apenas como adorno, mas atualmente há a utilização da tatuagem terapêutica. A medicina corrige irregularidades congênitas do corpo e mesmo as provocadas por doenças; exemplificando: para corrigir áreas sem pigmento (coloração), para pigmentar áreas atingidas por vitiligo, disfarçar áreas com falhas de cabelos e cílios nas pálpebras.

Se seu caso não é corretivo, é bom refletir bem antes, se vale a pena seu corpo emoldurar uma pintura definitiva...

Maria Luiza Curti

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