A
mulher distinta em hipótese alguma saia de casa
sozinha, era conveniente que contasse com a companhia
do marido, filho, de uma senhora idosa, etc...
Seu
comportamento era controlado por manuais de etiqueta que
indicavam que: rir, falar alto, usar gírias, balançar
os braços ao caminhar, cruzar as pernas ao sentar-se,
não eram maneiras de "bom tom" (era assim
que diziam).
No
campo da moda, o espartilho estava mais para armadura
medieval, além de não permitir que ela se
curvasse, lhe comprimia o aparelho digestivo, atrofiava
as costelas, espremia os rins e o fígado, as levando
por muitas vezes ao desmaio. Mas, elas eram convencidas
da felicidade de ser escravas da moda, então, se
submetiam com um sorriso nos lábios e muita palidez
no rosto.
Não
podiam tomar sol porque a "tez" apreciada era
alva como a neve, os lábios rosados, os cabelos
finos e longos eram modelados por ferro quente; o olhar,
meigo e atento.
Ela
era considerada bastante instruída quando sabia
ler corretamente suas orações e escrever
receitas de bolinhos e outros quitutes; mais que isso
era desnecessário e perigoso para o lar.
Tinha
como algumas de suas funções: supervisionar
o trabalho das serviçais da casa, conferir o rol
das roupas, compor o menu semanal, bordar monogramas nas
roupas da casa...
Recebia
amigas para o chá à tarde. Quando o marido
tinha visitas, cuidava do silêncio das crianças
e permanecia calada, pois, assim como as crianças
"eram para ser vistos e não ouvidos".
Segundo
Rousseau: "a mulher é feita especialmente
para agradar ao homem". Sua missão na vida:
"fazer grandes homens".
Paralelamente
a esse esteriótipo de mulher (a maior parte delas
aceitava de bom grado o modelo de "Rainha do Lar"),
sempre houve mulheres inconformadas , que, claro, eram
execradas tanto por homens como por mulheres doutrinadas.
Desmerecer
a mulher é uma tradição antiga. Na
França em 1877, ao noticiar uma manifestação
feminina pelo direito do voto, o jornal Le Figaro perguntou
em editorial se, depois disso, até o gado se tornaria
eleitor?
Ainda
hoje ouvimos coisas como na entrevista de Hélio
Gracie concedida à revista Playboy de fevereiro:
"O aluno inteligente dá mais trabalho para
aprender jiu-jítsu, porque fica pensando antes
de fazer o golpe. Uma criança, uma moça,
um burro vão aprender mais depressa do que o inteligente".
Apesar
da resistência, conquistas foram realizadas ao longo
do tempo.
No
Brasil, também tivemos nossas sufragistas. Em 1890
o assunto incendiou o Congresso, a emenda não foi
aceita, a maioria dos congressistas considerou a idéia
"anárquica, desastrada e fatal".
Bertha
Lutz, bióloga paulista, liderou movimento decisivo
para a conquista do voto em 1918. Influenciou milhares
de brasileiras. As pressões foram num crescendo
e finalmente, em 1933 o presidente Getúlio Vargas
concedeu o direito do voto, que foi garantido pela Constituição
de 1934. A mulher só pode votar pela primeira vez
em 1945 com a queda da ditadura.
Os
espartilhos e cintas apertadas foram aposentados. Passamos
a usar calças compridas. A maquiagem já
não é um hábito reprovável.
Podemos nos matricular em cursos superiores e para isso
não precisamos mais de autorização
por escrito de pai ou marido. Não precisamos também
de autorização para ser contratada no emprego,
para comprar e vender imóvel e para dar queixa
em delegacia.
Se
a mulher não for virgem, não corre mais
o risco e nem o constrangimento de ser devolvida ao pai
pelo marido, e nem o pai deserdar sua filha por isso.
Podemos
decidir se queremos adotar o nome do marido ou não.
A
justiça não aceita mais a tese da "legitima
defesa da honra" para inocentar homens que matam
a mulher por ciúmes ou traição. Aliás,
em 1981, o crime praticado pelo cantor Lindomar Castilho,
matando sua ex-mulher Eliane de Gramont, foi um divisor
de águas. Houve pressões das organizações
feministas para que se fizesse justiça.
A
lista das conquistas das mulheres é grande; muita
coisa mudou, muitas atitudes discriminatórias foram
superadas, mas, as reivindicações não
terminaram, há muitas questões ainda não
solucionadas, diria que percorremos apenas uma parte do
caminho, alguns exemplos:
Salários diferenciados para o mesmo serviço:
nos EUA as mulheres ganham 95% do que ganham os homens,
aqui chegamos a apenas 67% (dados do IBGE).
A dupla jornada de trabalho é um caso ainda a ser
resolvido. Há homens que protestam porque a aposentadoria
por idade para a mulher é aos 60 anos e para o
homem aos 65 anos. Acontece que, com a dupla jornada de
trabalho que é submetida, a mulher trabalha muito
mais que o homem. Enquanto houver esse excesso de trabalho
nos ombros das mulheres não há como equiparar.
Por
outro lado, a mulher precisa também facilitar a
entrada do homem nas atividades do lar. Ela, ainda é
muito ciumenta quando se trata de abrir espaço
onde antes era domínio seu. Ela o critica sem piedade
quando ele tenta se ocupar dos serviços domésticos.
Existe a maneira dela e a maneira dele de fazer a mesma
coisa. A critica é por ciúme do território.
A violência contra a mulher ainda faz da sua casa
o lugar mais perigoso para ela, assim como para as crianças.
Ela sofre nove vezes maior risco de ser agredida do que
na rua. 23% das mulheres brasileiras estão sujeitas
à violência doméstica, segundo levantamento
da Sociedade Mundial de Vitimologia, sediada na Holanda.
Na
violência contra a mulher grávida, poucos
falam, por que está encaixada como um todo na violência
contra a mulher? Ou talvez seja particularmente doloroso
admiti-la? O senso comum vê a gravidez como um estado
santificado de paz e beatitude. Quando a violência
está presente numa relação é
errado pensar que ela não acontece durante a gestação,
pode até aumentar. Essas agressões podem
resultar em deslocamento da placenta, rotura do útero,
fígado ou baço, fratura de pélvis,
parto prematuro, rotura prematura das membranas e infecção
e fraturas fetais. O Coletivo Feminista de Sexualidade
e Saúde que desenvolve esse estudo diz que esse
tipo de violência (pré-natal) mostrou uma
prevalência de 19% de violência moderada ou
severa, comparado com 25% no período de até
6 meses depois do parto.
É
da própria mulher que tem de partir o começo
da solução. O silêncio sobre a violência
reforça a impunidade. Das autoridades espera-se
a elaboração de políticas públicas
que gerem o fim da impunidade. O agressor tem horror à
exposição pública.
Enfim, há muito a
ser realizado para que a mulher consiga ser inteira no
mundo. Mas, há o que festejar, sim. Já estamos
deixando de ser cidadãs de segunda classe. Nossas
conquistas merecem ser comemoradas.
Parabéns mulheres!
A luta continua!