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   Os Remediados
 

    

    Maria Luiza Curti ( * )
    Psicóloga clínica – crp. 14/01733-1
    Comunique-se
    27, Julho/2004

Ela retornou!!

 

Carlos Heitor Cony, no seu artigo "O Leão e o Porco", mencionou a palavra "remediado". Esta palavra me fez dar um salto há anos atrás (muitos).

Quando criança, começando a perceber que nesse mundo não havia apenas eu e minha família, notei que também existiam diferenças entre os viventes desse planeta: havia ricos e pobres.

Minha avó, foi presença fundamental na minha vida; geralmente, era com ela que procurava esclarecimento para minhas dúvidas de criança que está descobrindo o mundo. Então, nessa fase de natural curiosidade, estava sempre lhe perguntado se fulano ou sicrano era rico ou pobre. Ela que nunca deixava sem resposta as minhas "especulices", respondia. Mas, algumas vezes ela - para meu espanto! - respondia que fulano era remediado.

Com os olhos muito arregalados, ante a descoberta dessa nova (para mim) classe social, queria mais informações.

" — Mas, o que é ser remediado?"

Daí ela tentava explicar, munida daquela sabedoria popular, que era tão característica nela: "São os que têm, mas não têm muito". Para mim, isso não esclarecia muito, mas para não irritar com tanta "perguntação", segundo ela, aceitava sua definição, porém, ficava ensismemada, dando tratos aos meus parafusos, sobre aquele tal de... remediado.

Com o tempo, a palavra caiu no desuso popular e na escola nunca ouvi referência à mesma. Ouvi, sim, sobre pirâmide social; classes a, b, c, d....; classes média, alta e baixa; burguesia, proletariado, etc... Mas... remediado ?

Agora, depois de ler Cony, voltou minha curiosidade. Busquei no velho e bom Aurélio e estava lá: "Que possui alguns bens. Que não é pobre nem rico, mas tem recursos bastantes para subsistir".

Foi aí, só depois de apelar ao meu particular tira-teima ou dúvidas, é que começou a me esclarecer, quem é o remediado em nosso país. O remediado aqui é quem paga o maior tributo para o governo. Paga muito e paga mal. Dizem que quem paga mal, paga duas vezes e é isso que acontece com nossos remediados.

No mínimo, esperava-se era que esse mundo de impostos, contribuições, taxas, etc. que é pago aqui revertessem efetivamente em saúde, educação e segurança de boa qualidade. São serviços básicos pelos quais todos pagam e se decepcionam com o que é, e o que não é apresentado.

Pois é, o remediado paga entre impostos e contribuições, diretos e embutidos, segundo estudos, 66,4% da renda familiar e ainda tem que pagar uma escola particular para seus filhos se quiser uma educação melhor. Tem que pagar um plano de saúde particular, se não quiser arriscar morrer esperando numa fila, pelo atendimento do serviço público (de péssima qualidade). Tem que pagar a segurança do condomínio ou do quarteirão para correr um menor risco de ter sua casa assaltada.

Poupança do remediado? Nem pensar! Poupar o quê, se o que sobra é conta para acumular no mês seguinte?

Só vejo duas saídas para minorar a opressão sobre os remediados: mudar a política tributária ou mudar os remediados para o Peru, onde a carga tributária é de 14%.

Já que comecei falando dos ditados e frases de minha avó, quando ela queria dizer a uma pessoa que tal situação não tinha perigo, dizia: "Senta, que o leão é manso". Aqui, se os remediados sentarem, correm o risco de serem esmagados pela pata do leão, que não é manso coisa nenhuma. O melhor a fazer é "colocar a boca no trombone" se quiser sobreviver.

Ultimamente, os remediados estão economizando até sonho, com medo de serem taxados.

Outros artigos da autora

A volta para casa
Os remediados
A bandeira da descriminalização das drogas
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