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Carlos Heitor Cony,
no seu artigo "O Leão e o Porco", mencionou a palavra "remediado".
Esta palavra me fez dar um salto há anos atrás (muitos).
Quando criança,
começando a perceber que nesse mundo não havia apenas eu e
minha família, notei que também existiam diferenças entre
os viventes desse planeta: havia ricos e pobres.
Minha avó, foi presença
fundamental na minha vida; geralmente, era com ela que procurava
esclarecimento para minhas dúvidas de criança que está descobrindo
o mundo. Então, nessa fase de natural curiosidade, estava
sempre lhe perguntado se fulano ou sicrano era rico ou pobre.
Ela que nunca deixava sem resposta as minhas "especulices",
respondia. Mas, algumas vezes ela - para meu espanto! - respondia
que fulano era remediado.
Com os olhos muito
arregalados, ante a descoberta dessa nova (para mim) classe
social, queria mais informações.
" Mas,
o que é ser remediado?"
Daí ela tentava
explicar, munida daquela sabedoria popular, que era tão característica
nela: "São os que têm, mas não têm muito". Para mim, isso
não esclarecia muito, mas para não irritar com tanta "perguntação",
segundo ela, aceitava sua definição, porém, ficava ensismemada,
dando tratos aos meus parafusos, sobre aquele tal de... remediado.
Com o tempo, a
palavra caiu no desuso popular e na escola nunca ouvi referência
à mesma. Ouvi, sim, sobre pirâmide social; classes a, b, c,
d....; classes média, alta e baixa; burguesia, proletariado,
etc... Mas... remediado ?
Agora, depois de
ler Cony, voltou minha curiosidade. Busquei no velho e bom
Aurélio e estava lá: "Que possui alguns bens. Que não é pobre
nem rico, mas tem recursos bastantes para subsistir".
Foi aí, só depois
de apelar ao meu particular tira-teima ou dúvidas, é que começou
a me esclarecer, quem é o remediado em nosso país. O remediado
aqui é quem paga o maior tributo para o governo. Paga muito
e paga mal. Dizem que quem paga mal, paga duas vezes e é isso
que acontece com nossos remediados.
No mínimo, esperava-se
era que esse mundo de impostos, contribuições, taxas, etc.
que é pago aqui revertessem efetivamente em saúde, educação
e segurança de boa qualidade. São serviços básicos pelos quais
todos pagam e se decepcionam com o que é, e o que não é apresentado.
Pois é, o remediado
paga entre impostos e contribuições, diretos e embutidos,
segundo estudos, 66,4% da renda familiar e ainda tem que pagar
uma escola particular para seus filhos se quiser uma educação
melhor. Tem que pagar um plano de saúde particular, se não
quiser arriscar morrer esperando numa fila, pelo atendimento
do serviço público (de péssima qualidade). Tem que pagar a
segurança do condomínio ou do quarteirão para correr um menor
risco de ter sua casa assaltada.
Poupança do remediado?
Nem pensar! Poupar o quê, se o que sobra é conta para acumular
no mês seguinte?
Só vejo duas saídas
para minorar a opressão sobre os remediados: mudar a política
tributária ou mudar os remediados para o Peru, onde a carga
tributária é de 14%.
Já que comecei
falando dos ditados e frases de minha avó, quando ela queria
dizer a uma pessoa que tal situação não tinha perigo, dizia:
"Senta, que o leão é manso". Aqui, se os remediados sentarem,
correm o risco de serem esmagados pela pata do leão, que não
é manso coisa nenhuma. O melhor a fazer é "colocar a boca
no trombone" se quiser sobreviver.
Ultimamente, os
remediados estão economizando até sonho, com medo de serem
taxados.
Outros
artigos da autora
A
volta para casa
Os remediados
A bandeira da descriminalização
das drogas
Idosos
Mães que amam demais
Mais...
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