Mãos
estragadinhas
Maria Luiza Curti
Psicóloga clínica – crp.
14/01733-1
Comunique-se
05, Junho/2003
incrível como certas
pessoas revestem de uma importância desmesurada, coisas que
se revelam completamente insignificantes no “frigir dos ovos”..
Uma revista
nacional e semanal, encerrou sua reportagem de capa, sobre
dona Marisa Silva, dizendo que, uma socialite da capital federal,
ao ver seu convite para uma festa, recusado pela primeira
dama, desabafou sua frustração assim: “Marisa é simpática
e elegante, mas tem as mãos estragadinhas”.
Bem, depende
do que ela entende por “estragadinhas”.
Seriam as mãos
de dona Marisa marcadas pelo duro trabalho diário no lar,
dando respaldo ao marido, cuidando dos filhos, batalhando
para formar uma família digna, ou seriam “estragadinhas” por
levantar copos em festas vazias de conteúdo e repletas de
significado fútil?
Claro que existem
mãos bem cuidadas e que trabalham duro, como as mãos da digitadora,
da cirurgiã, dentista, cabeleireira, jornalista, etc. Mas,
o tom discriminatório é pelo tipo de serviço, porque se fosse
uma pintora de quadros com as mãos sujas de tinta, ou mãos
de uma escultora marcadas pelo cinzel, não seriam discriminadas.
A mulher que
se dedica ao serviço doméstico, trabalhando para manter um
lar limpo e aconchegante, para o bem estar e prazer de sua
família, não percebe valorização alguma aos olhos de uma maioria.
Já vi maridos que usam e se lambuzam do trabalho doméstico
da sua mulher, que o mantém bem alimentado, vestindo roupas
impecáveis, dormindo em lençóis cheirosos e que têm vergonha
de dizer que ela “só” trabalha em casa. Como também, já vi
filhos adolescentes muito bem cuidados, constrangidos em dizer
que sua mãe não trabalha fora, mas sim em casa, como se isso
fosse uma humilhação.
Esse desvalor
acontece porque o serviço da dona-de-casa não é remunerado.
Se esse trabalho fosse um dos mais bem pagos, a história seria
outra, pois na cultura capitalista em que vivemos, o valor
de cada um de nós se mede pelo quantum de capital que se pode
produzir. Ou pelo menos aparentar ter acumulado, pois se vive
também de aparência.
Como, para
a mulher do lar, sua remuneração é constatar que criou uma
família saudável, formou cidadãos de bem, pessoas satisfeitas,
respeitosas e que, com essa constatação ela não compra um
“pequi roído”, portanto, está fora do mercado e por isso as
marcas das mãos dela, para muitas pessoas, sinalizam (com
horror), que ela não gira o deus mercado de capitais.
Suas mãos trazem
a marca da intensa manipulação de detergentes, desinfetantes,
alvejantes, do rodo, da vassoura e numa casa elas estão também
no frio da geladeira, no calor do forno, do ferro de passar
e nos carinhos que proporciona aos filhos e marido.
Não é humilhante
nem vergonhoso trazer nas mãos a marca de uma vida de dedicação
e amor, pior é ter os “miolos estragadinhos”.
Alto Index
Maria Luiza Curti Artigos
Temático
|