Limpeza
ou Compulsão
Maria Luiza Curti
Psicóloga clínica – crp. 14/01733-1
Comunique-se
27, Junho/2003
omo reconhecer
numa mulher, quando sua limpeza para com a casa e a família
é um ato normal ou patológico? Ouço essa pergunta com freqüência.
Ser cuidadosa
com a limpeza da casa e com os familiares, é um dever e uma
necessidade da dona-de-casa preocupada com a saúde e o bem-estar
dos seus. É saudável que nossas roupas sejam limpas e bem
passadas, que nossos alimentos sejam feitos e também cheguem
à mesa com asseio, assim como o ambiente doméstico precisa
de indispensáveis cuidados no dia-a-dia. A pessoa da gestora
familiar e de todas as mulheres seja lá em que profissão atuar,
necessita manter sua limpeza pessoal, isso todo mundo sabe.
A patologia
está instalada quando se verifica o excesso e a repetição.
A mulher que limpa, limpa, o que já está evidentemente limpo,
está tentando limpar uma sujeira que só ela enxerga, ou pensa
que vê.
Os exemplos
de casos reais se sucedem interminavelmente, como o da mulher
que mantinha a casa numa limpeza extrema e lavava os filhos
até feri-los, mas descuidava da sua limpeza pessoal.
A que lavava
as verduras com detergente.
Outra, quando
ficava menstruada, introduzia a mangueira de água do jardim
na vagina, para lavar toda “sujeira” de uma vez.
As crianças
que têm que brincar na rua ou na casa dos amigos, porque a
mãe os proíbe de brincar ou receber os amiguinhos em sua própria
casa, para, segundo ela, “não sujar nem desarrumar a casa”.
Maridos que
evitam receber amigos, só para não agüentar a reclamação da
mulher sobre a “bagunça” que fica a casa quando isso acontece.
Outros que ficam boquiabertos quando, mal terminam o ato sexual,
vê sua parceira partir em disparada para o banheiro e tomar
banho dos pés à cabeça, se esfregando furiosamente.
Os casos de
mulheres compulsivas por limpeza que compõem a clínica da
obsessão, ao mesmo tempo que variados, são repetitivos. As
maneiras de externar o sintoma são variadas, mas, geralmente,
se traduzem em idéias obsessivas, compulsões e rituais que
se repetem como para se defender de impulsos.
Nem sempre
se percebe quando a mulher está acometida pela compulsão de
limpeza, pois no princípio ela até recebe elogios por ser
tão primorosa com ela mesma e com seus afazeres. Somente depois
é que as pessoas começam a notar que há algo de estranho naquele
excesso de limpeza.
Com o tempo
ela mesma percebe que não está bem, pois aquele excesso de
repetição acarreta um desgaste muito grande, tanto físico
quanto emocional e é nessa hora que algumas vão buscar a psicoterapia.
Há as que até
admitem que estão doentes, mas não procuram ajuda. Quando
se dão conta, o tempo passou, as crianças cresceram e elas
constatam que, apesar de tudo estar sempre impecavelmente
limpo, não teve uma família feliz, pois sua doença não deixou
que marido, filhos, nem ela se sentissem à vontade, desfrutassem
do ambiente familiar e a vida social também foi prejudicada.
A pessoa que padece dessa compulsão vai se isolando cada vez
mais.
Se não é uma
sujeira real, o que tanto limpam essas mulheres?
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