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             Mendacidade

             Maria Luiza Curti*
             Psicóloga clínica – crp. 14/01733-1
             Comunique-se
             29, Agosto/2003

 

Quem tem um discurso todo depurado de preconceito contra o negro e quando lê notícias sobre injustiças sofridas por pessoas dessa raça, também acha um absurdo e uma indignidade qualquer atitude preconceituosa, mas fica furiosa e inconformada se seus filhos ou outro membro da família namora ou casa-se com negros, está sendo mendaz. O dicionário diz que mendacidade é hipocrisia, falsidade. A sociedade é pródiga em mendacidade. Ao longo da história, e no dia-a-dia, atitudes hipócritas proliferam em todos os segmentos sociais. Exemplos de falsidade é que não faltam.

Quando os seguidores de Hitler diziam aos judeus que eles iam tomar banho por uma questão de higiene e saúde e soltavam gás pelos chuveiros, estavam sendo, além de mendazes, criminosos. O que dizer do governante que se elegeu prometendo proteger a poupança do povo e como primeira atitude, depois de empossado, confiscou toda a poupança de um país? O marido e pai ao exigir, dentro de sua casa, que a própria família se paute por atitudes dignas, retas e, no entanto, lá fora, trai descaradamente a mulher e trata seus negócios com total falta de escrúpulos, também é mendaz. A mãe que mantém um louvável e saudável diálogo contra o uso de drogas com os filhos, mas não passa sem suas anfetaminas para manter a forma e não dorme sem seus “abençoados” barbitúricos, é outra mendaz.

A criança que prefere brincar a fazer seus deveres escolares ou de casa e mente dizendo que já fez ou simula estar doente para não cumprir sua obrigação, está incorporando os rumos da mendacidade com seus familiares, já que a família é sua primeira experiência social e certamente essas distorções serão ampliadas na sua futura vida amorosa e profissional.

Muitos pais, nem se dão conta de que, estão passando para os filhos, subjetivamente, os caminhos da hipocrisia, pois também apreenderam dos seus próprios pais esse jeito incoerente de ser no mundo, que por sua vez, também, se apropriaram dos moldes dos seus, portanto, mesmo que às vezes sintam um mal-estar por estar atuando em freqüências diferentes, não conseguem identificar onde está a incoerência. Fica tudo muito normal porque, em princípio, não conhecem outro modo de ser. É assim que se transmitem os preconceitos e as hipocrisias sociais. Digo subjetivamente, porque ninguém ensina aos filhos: pense de uma forma, fale de outra e faça de outra; isso é assimilado por percepção subjetiva.

Quem se encontra desarmônico nas faculdades de pensar, falar e fazer, está num desequilíbrio que o faz injusto, infeliz e suscetível a doenças psicossomáticas.Quanto mais nos aproximamos da coerência entre nossos pensamentos, discursos e maneira de agir, mais verdadeiros e saudáveis seremos conosco e com os outros. Só assim, harmonizando uma linguagem sincrônica para o eu, a sociedade vai se tornar menos mendaz! .

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