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Ela retorna! Foto de Maria Luiza Curti


    Arrancando os cabelos

 

    Maria Luiza Curti
    Psicóloga clínica – crp. 14/01733-1
    Comunique-se

    24, Julho/2003

 

Q

Quando a enfermeira trouxe minha filha do berçário e a entregou para que a levasse para casa, há 27 anos, ela estava roxa de chorar, pois agarrada aos próprios cabelos, puxava-os e não conseguia soltá-los mesmo sentindo dor, porque ainda não possuía os controles necessários para abrir e fechar as mãozinhas. Daí em diante, até que seus reflexos estivessem formados, vira e mexe, era o maior sufoco; não podia colocar força para abrir seus dedinhos porque corria o risco de quebrá-los. Solução: ia acariciando sua mãozinha até que ela desse uma relaxada e ai soltando os próprios cabelos.

Costumo brincar, dizendo que, simbolicamente, ela continua puxando os cabelos, porque tem uma tenacidade incrível em perseguir seus próprios objetivos sem esperar que alguém faça por ela.

Bem... esse episódio me veio à mente ao lembrar da época da campanha que culminou com a eleição do Presidente Lula. Ao mesmo tempo, a Argentina amargava o seu pior “fundo de poço”, com direito às famosas piadinhas brasileiras sobre o modo de ser do povo argentino.

Néstor Kirchner, agora presidente daquele país, quando candidato disse que a Argentina se colocaria novamente de pé “puxando os próprios cabelos”.

Um país que pouco ainda tinha a perder e que já havia comido o pão que o FMI pisoteou, Kirchner, juntou os brios e disse que em seu governo, não haverá “relações carnais” com os EUA, nem auto-alinhamento. E não é que nossos hermanos estão se reerguendo e já conseguindo resultados expressivos e positivos?

Confesso, humildemente, que pouco ou quase nada entendo da economia de um país (como a maioria dos cidadãos), daqueles meandros de sobe e desce de balança comercial e de pagamentos, câmbio, superávits, déficits, indexação, IGP-DI, IPCA, IPC, etc... e outras palavras próprias dessa língua estranha chamada “economês” (creio que é de propósito, para o povão não entender mesmo).

Digo que não entendo, mas “sinto” a economia do país como qualquer dona-de-casa e creio que o “sentir economicamente” doméstico já passou a ser importante para o mundo, na medida em que a arcaica “prendas-domésticas” passou a ser quantificada no ambiente econômico: quanto custa cuidar dos filhos, educar até a pré-escola, lavar, passar, cozinhar, manter a ordem da casa e a integridade psíquica de seus habitantes, além das funções gerenciais, gasolina para levar os filhos na escola e a própria escola, a farmácia, enfim todos os gastos de uma casa.

É com essa “sensibilidade econômica” que percebemos, como se dizia antigamente, que a coisa está “russa”. Acho que não estou me expressando direito, “russa”, estava no governo passado, agora está pra lá de “russa”. Se antes o dinheiro estava difícil, agora sumiu de vez...

Tudo bem... Poderão dizer que o novo governo tem apenas seis meses e que as coisas não funcionam assim da noite para o dia, que é preciso dar mais um tempo, etc...

Sem querer julgar um governo que apenas começou, mas... se em seis meses não dá para mostrar grandes serviços, também não precisava piorar tanto assim, não é?

Esse princípio de governo está lembrando uma das fábulas de Jean de La Fontaine (1621): “O velho, o menino e o burro”, aquela em que um velho, um menino e um burro seguiam por uma estrada. O velho procurava seguir a opinião de todos que encontrava pelo caminho e conseguia desagradar a todos.

Talvez, faria melhor se o Governo resolvesse retomar os próprios objetivos, aqueles com os quais convenceu a maioria dos eleitores e por isso o elegeu e, não seria uma má idéia, nós também nos levantarmos “puxando nossos próprios cabelos”. Pode não ser original, porém não ficaríamos expostos à sanha do FMI e dos capitalistas internacionais que entendem muito da economia dos EUA. Da nossa, entendemos nós.

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