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Culpa
para quê serve?
Maria Luiza Curti ( *
)
Psicóloga clínica – crp. 14/01733-1
Comunique-se
30, Agosto/2002
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A culpa é
essencial para o ser humano viver em sociedade.
Não é
próprio em animais; alguém já viu um
gato ou uma galinha torturados pelo sentimento de culpa?
Para Freud (1856-1939),
a culpa aparece da elaboração do complexo
de édipo, por volta dos três anos; a criança
sente culpa por sentir raiva do pai, que desvia para si
as atenções da mãe.
Quando sentimos
culpa, geralmente, percebemos esse sentimento como uma sensação
de remorso misturada com impotência e, dependendo
da extensão da culpa, a sensação é
ímpar e devastadora. O que mais tortura é
saber que não se pode voltar atrás e mudar
a situação.
Antes, quando
a Igreja tinha um grande poder e influía efetivamente
na sociedade, o homem levava seus pecados para o julgamento
sagrado (confissão), ela distribuía punição
(penitências) e o absolvia (indulgências) deles.
Geralmente, ele saia leve e livre de remorsos.
A sociedade
moderna fez o homem responsável pelas próprias
culpas. Ele pode até ir à Igreja, mas tem
que se haver primeiro consigo mesmo pelas suas escolhas.
Sendo o senhor
das próprias escolhas, compromete-se também
com os resultados. O nível de exigência da
sociedade atual é muito alto, atinge patamares de
tirar o fôlego, portanto, é um dínamo
gerador de culpas.
Remói-se
culpa por: estar acima do peso; não atingir metas
esperadas no trabalho; não passar no vestibular;
não poder estar dando muita atenção
aos pais idosos ou doentes; por não conseguir impor
limites aos filhos ou por achar que está dizendo
não demais a eles; deixar os filhos em casa, para
mãe que trabalha fora; não ter tempo para
se dedicar aos filhos (pai); trair o(a) parceiro(a); por
dedicar tempo a si mesmo julgando-se egoísta, enfim,
as fontes de remorsos são inesgotáveis...
Existem os
grandes e pequenos remorsos, contudo, o que vai determinar
a medida da culpa sentida são os valores morais e
éticos de cada um. Por exemplo, duas pessoas que
acreditam haver prejudicado alguém, uma pode ter
crises de consciência que a deixa muito mal, outra
pode sentir apenas um leve desconforto..
Segundo a Organização
Mundial de Saúde 1% da população mundial
sofre de psicopatia que é um distúrbio de
caráter onde há uma ausência de culpa.
Essas pessoas não sentem arrependimento por nada,
e esse distúrbio é resistente a qualquer tratamento.
Por um outro
lado, há pessoas demasiado exigentes consigo mesma
que acabam desenvolvendo sentimentos de remorsos que se
transformam em doenças. Outros, são mestres
em suscitar nos outros sentimentos de culpa; são
os chantagistas emocionais que, com freqüência,
são encontrados entre os próprios familiares.
É necessário
identificar os sentimentos de culpa. Analisar as causas,
as razões. Reconhecer seus próprios limites,
identificando o que pode ou não pode fazer. Estabelecer,
para si, metas mais realistas eliminando, assim, ansiedade
e frustração. Reconhecer a necessidade de
cuidar de si mesmo. Identificar eventuais chantagistas emocionais
e não entrar no seu jogo.
Para vivermos
em sociedade o remorso é um sentimento que serve
para evitar infringir regras sociais e morais. Quando deixamos
ao remorso a condução de nossas vidas ele
se transforma em uma neurose patológica e nessa inversão,
é ele quem se serve de nós.
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