Bareback
Maria Luiza Curti
Psicóloga clínica – crp. 14/01733-1
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30, Agosto/2002
Bareback é um estilo de montaria em cavalo,
que teve sua origem nos Estados Unidos. Os fãs de rodeio a
vêem como uma das modalidades mais bonitas das competições.
O peão monta o cavalo sem a sela convencional e se prende
ao animal através de uma alça (bareback) colocada em sua cernelha
(entre a crina e o dorso). No primeiro pulo, as esporas, sem
pontas, são posicionadas no pescoço do cavalo, simultaneamente
puxa as esporas, fazendo com que as pernas alcancem a alça
do bareback. A posição do peão é horizontal, batendo
as costas na anca do animal. Ganha quem não cair dentro de
8 segundos.
Mas, o que liga essa técnica de montaria aos negros escravos
do Brasil, aos índios Guarani-Kaiowá e a uma parte da comunidade
gay?
Para aclarar é necessário falar brevemente de cada
um deles.
Os primeiros escravos negros desembarcaram no Brasil por volta
de 1548. Desde que eram capturados na África começavam a apanhar.
Apanhavam durante toda a travessia do Atlântico que durava
em torno de três meses; apanhavam no mercado à espera dos
fazendeiros compradores e continuavam apanhando por toda sua
vida de escravos.
Toda essa pancadaria tinha uma finalidade: anular a faculdade
do negro ser humano e instalar-lhe a sensação de coisa ou
bicho.
Os feitores faziam-nos sofrer exigindo deles o máximo no trabalho
pesado e contínuo. Pelas ordens recebidas não cumpridas e
as fugas, eram severamente castigados. A tortura era uma prática
normal.
Foram várias as formas de resistências do negro à escravidão:
fugas, abortos provocados pelas negras escravas, banzo (nostalgia
que fazia o negro cair em profunda depressão levando-o à morte),
os quilombos e o suicídio.
Parece difícil para nós (ditos civilizados) entendermos o
apego do índio à sua terra. Entre outros valores, culturalmente,
a terra lhes é sagrada porque é onde estão enterrados seus
ancestrais.
Há 200 anos, os índios Guarani-Kaiowá ocupavam quase 9 milhões
de hectares no sul do Mato Grosso do Sul. Hoje estão confinados
a menos de 5% de seu território original.
Na reportagem "Ninguém sabe com certeza por que tantos Kaiowá
se matam", Spensy Pimentel diz que nas últimas décadas entre
uma população de 25 mil Guarani-Kaiowás naquele Estado, houve
mais de 300 mortes, por enforcamento ou envenenamento.
"Nos últimos anos, dezenas de cientistas sociais, jornalistas,
políticos e religiosos visitaram a região em busca de uma
explicação para o fenômeno."
Várias hipóteses foram levantadas para o "deduí", o suicídio
ritual, ou o rito de "apagar o sol". Motivação é que não lhes
falta: agrupados em reservas improdutivas, limitados, submetidos
a um regime de trabalho semi-escravo, despojados de suas tradições,
vivem na humilhação e miséria.
Para o historiador José Carlos S. Bom Meihy, autor do livro
"Canto de Morte Kaiowá", por meio do suicídio, os Guaranis
estão passando um recado: "se a voz e a palavra são o mesmo
que a alma, é bastante significativo que os suicidas morram
pela garganta (enforcamento) e pela boca (envenenamento).
Seria um movimento coletivo "uma forma de diálogo vivo com
a nossa sociedade".
Segundo
o doutor em Antropologia Luis Mott em "Homofobia na América
Latina (I)", na virada do século XVI para o XVII, Espanha
e Portugal viviam um período de maior intolerância contra
homossexuais ou sodomitas, como diziam. Naquela época foram
instalados na Península Ibérica mais de uma dezena de Tribunais
do Santo Ofício da Inquisição que equipararam a sodomia aos
crimes mais graves como o regicídio e a traição nacional.
No Brasil, visitadores do Santo Ofício faziam inspeções regulares
à colônia, denunciando e prendendo os homossexuais.
A sodomia era um dos poucos crimes que os primeiros capitães-mores
do Brasil tinham a autoridade de aplicar a pena de morte sem
necessidade prévia de consultar o Rei de Portugal.
Há documentos que comprovam duas execuções de homossexuais:
em 1613, em São Luís do Maranhão, um índio Tupinambá, foi
amarrado na boca de um canhão, seu corpo foi estraçalhado
com o estourar do morteiro "para purificar a terra de suas
maldades". Em 1678, outro homossexual foi executado na Capitania
de Sergipe: um negro escravo, "foi morto de açoites por ter
cometido o pecado de sodomia".
Com o Código Napoleônico, a sodomia foi discriminalizada na
maior parte dos novos países latino-americanos, desaparecendo
os respectivos Códigos Penais. Deixou de ser crime, porém
ficou o preconceito e a discriminação. Ao longo dos séculos
XIX, XX e ainda hoje, os homossexuais continuam sendo detidos
sob alegação de atentado ao pudor, prática de prostituição,
falsidade ideológica no caso de travestis. O suicídio, baixa
auto-estima, marginalidade, clandestinidade total, assassinatos,
rejeitados pela própria família, humilhados nas ruas, barrados
no acesso ao trabalho é a realidade para milhares de homossexuais,
no Brasil e em outros países.
Bareback, é o nome de uma nova e assustadora
"onda" que está conquistando um número cada vez maior de homossexuais.
Começou nos Estados Unidos e Europa e chegou ao Brasil. Consiste
em relações sexuais sem o uso de preservativos, ou seja, montar
o cavalo sem sela.
Alguns dizem que o objetivo não é contrair o HIV; apenas aumentar
o prazer. Outros consideram excitante o risco de contrair
o vírus. Sem dúvida é uma "roleta russa".
Para algumas pessoas, a ansiedade pelo medo de contrair o
HIV é tão intensa que elas adquirem uma conduta de desafio,
enfrentando o que mais temem. É a "fuga para frente", ir para
cima do perigo.
Os negros foram escravizados, mas não se tornaram "coisas"
como pretendiam os brancos. Esse período foi marcado por rebeliões,
fugas coletivas dos engenhos, formação de quilombos, e quando
perdiam a esperança suicidavam-se.
Os índios kaiowás, privados da terra dos seus ancestrais,
das suas crenças e com religiões estranhas impostas, submetidos
a preconceitos, humilhações e falta de oportunidades, preferem
a morte, principalmente os mais jovens.
Os homossexuais têm em comum com os negros escravos e os índios
Kaiowás a falta de esperança, a baixa estima e o tratamento
humilhante por parte de uma sociedade preconceituosa.
O bareback é para o homossexual, o que suicídio
foi para o negro, o enforcamento e envenenamento ainda é para
o Kaiowá, uma forma encontrada por oprimidos, inconsciente
ou não, de protestar e enviar uma mensagem à sociedade opressora
para que reconheça e interprete esses sinais.
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