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A Máscara de CapelleCorpo da Letra Editora

 

 

 

 

 

 

Uso de espaço para outra editora, sob permissão da Corpo da Letra Editora.

 

 

   Maitena
               A alma feminina em quadrinhos

 

                    Por Flávio Calazans *
                    17, Fevereiro/2003

 

Em 1998 fui convidado a apresentar uma palestra sobre “Tecnologias Telemáticas e Realidade Virtual Subliminar” no LATU, Laboratório de Alta Tecnologia do Governo Uruguaio (perto do aeroporto Carrasco ao lado da capital Montevidéu), na abertura de um evento internacional de pesquisa; como convidado internacional representando o Brasil, tive tudo pago, e a seqüência do evento foi em um hotel Meliá em Punta del Este, onde fomos hospedados.

Punta del Este é um istmo luxuoso, ao lado de outro istmo-Punta Balena, onde fica a Casa Pueblo de Vilaró, a imperdível escultura de habitar.

Nos intervalos das palestras dos outros convidados Chilenos, Mexicanos, Ingleses e Norte-Americanos, passeava pelas lojas de grifes caríssimas, guiado por pesquisadores argentinos e paraguaios freqüentadores de Punta no Uruguai, e fomos em todas as livrarias de Punta del Este.

Nesta livraria, entre ricos livros de arte, surpreendi-me com alguns álbuns de histórias em quadrinhos de uma autora que eu desconhecia, era o Volume 3 da série Mujeres Alteradas que tinha na capa um aviso-Terceira Edição-23 mil exemplares vendidos (álbum é um livro de arte com quadrinhos para adultos, vendido em livrarias, existe em países onde os quadrinhos e o cinema são considerados como arte, é o cinema de autor e o quadrinho de autor).

Perguntei-me como tamanho sucesso em um país vizinho do Brasil podia ser tão desconhecido, e comprei todos os álbuns de Maitena; mas a maior surpresa foi constatar que meus colegas Chilenos, Paraguaios e Uruguaios já a conheciam muito bem, e os Argentinos (como sempre) gabavam-se de que Maitena era uma artista argentina exportada para todo o mundo, tão famosa como o autor Quino, o criador da Mafalda, e foi Quino mesmo que escreveu o prefácio de um álbum, outro álbum tinha prefácio de Fontanarrosa! Sem dúvida era uma artista consagrada e de muito prestígio reconhecida e elogiada pelos melhores autores de quadrinhos argentinos!

Maitena Inês Burundarena nasceu em Buenos Aires em maio de 1962, numa família de classe média; a mãe arquiteta a estimulou a desenhar; Maitena casou-se cedo, e aos 19 anos já era mãe de dois filhos. Mas já aos 24 anos divorciou-se, e toda sua vida , cada idade da mulher, foi sendo registrada em um tipo de diário em quadrinhos onde documentou suas alegrias e angústias de criança- publicando em revistas de quadrinhos alternativas-underground, as agruras da adolescência, o noivado, casamento, gravidez, filhos, divórcio, empregos, noitadas e baladas, e também observou atentamente suas tias e avós, as mulheres mais velhas; Maitena também assina roteiros de vídeos e de programas de televisão na efervescência cultural de Buenos Aires ( A Argentina tem uma tradição de livrarias enormes com livros de excelente qualidade, e as histórias em quadrinhos são consideradas como patrimônio cultural nacional, igual às artes plásticas, arquitetura, literatura e cinema; há pessoas que amam os livros lá, como o poeta Jorge Luiz Borges serve de exemplo deste amor argentino aos livros).

Em sebos de Buenos Aires ainda encontram-se raridades disputadas pelos colecionadores de Maitena, como “En este rincón...Las Mujeres” de 1992, com tiras verticais em preto e branco, e outras revistas independentes - fanzines com pequenas obras dela, uma autora Cult internacional!

Os quadrinhos, coloridos, eram inteligentes e divertidíssimos, e é muito difícil arrancar gargalhadas de mim, como autor de quadrinhos e leitor colecionador, conheço os truques dos roteiros e já vi muita gag visual e verbal desde “Asterix” , “Mortadelo e Salaminho”, Reiser, Wolinski, Henfil, até “Monty Python” e “Hermes e Renato da MTV”, sou meio exigente pois vi muito humor de todo o tipo; ....pois Maitena cativou-me, ela faz algo diferente, sutil, refinado e delicado, com um humor meio psicológico, meio de costumes, Maitena ia dissecando a alma feminina, minuciosamente rindo de si própria e das amigas encalhadas, da colega gordinha, da tia solteirona, da sogra, da mãe, das sobrinhas, do tédio, dos namorados argentinos machistas e ciumentos exigindo fidelidade mas que saem com outras mulheres, das conversas masculinas sobre futebol e política, da vida noturna em Buenos Aires, da moda, do corpo feminino, etc..tudo extremamente divertido e até revelador (principalmente para nós, os homens que gostam de mulher: vamos reconhecer as namoradas, primas, amigas, irmãs, sobrinhas, cunhadas, noras, mãe e tias, e principalmente, vamos perceber como elas nos vêem, é como olhar a gente pelos olhos delas!).

Em outra livraria, o dono explicou-me que Maitena vende muito, mas de cada 10 livros, 9 são comprados por mulheres, uma literatura feminina; e que os homens que compram o fazem “Para compreendê-las”; os argentinos metidos a casanova compravam para entender suas mulheres e melhor seduzi-las! Imaginei um dançarino de tango lendo Maitena, depois pensei em um cafetão argentino divertindo-se com as tiradas inteligentes dela! Lembrei de algumas piadas que nós, brasileiros, contamos sobre os argentinos, em especial os portenhos de Buenos Aires...lembrei principalmente ao ler a engraçadíssima série de Maitena sobre os gracejos e cantadas que as mulheres argentinas ouvem na rua de seus homens (elas chamam de piropo a cantada espirituosa) ! Uma outra série memorável é “Como tornar seu filho num machista” ! E a deliciosa série sobre namorados, “Relacionando-se com a EX dele”!

Embora algumas histórias sejam muito argentinas, e outras tão do universo feminino que foram incompreensíveis para mim, necessitando de minha namorada para traduzir o efeito de “breque” causado por um espelho sobre a mulher distraída passeando no shopping, e outras mais psicológicas, a maior parte das histórias de uma página tratam do Eterno Feminino, de situações arquétipas, que as mulheres passam em todo o mundo, como emprego, chefes homens, estudos, professores- homens mais velhos, namorados, gravidez, menstruação, vaidades, moda, liquidação em lojas, a opinião das outras mulheres, as fofoqueiras, sexualidade, religião, culpas, etc.

Depois, pesquisando, descobri que Maitena é internacional, best-seller naArgentina, onde vendeu mais de 300 mil álbuns-livros de histórias em quadrinhos adultas, e que estes álbuns foram também publicados no Chile, Espanha, França, Alemanha e Portugal, sempre com muito sucesso, só na Espanha o álbum Mulheres Alteradas 1 vendeu em tempo recorde 100 mil exemplares!!!

 

Em 2003 MAITENA está chegando ao Brasil, finalmente! Antes tarde do que nunca!!

Está sendo lançado no Brasil, no primeiro semestre de 2003 o primeiro volume da série Mulheres Alteradas, o que foi best seller em todo o mundo, e olha que os outros volumes são muito melhores! O Terceiro volume é meu preferido, Maitena tinha trinta anos quando o escreveu, balzaquiana, e neste volume ela deita e rola sobre todas as fantasias femininas! O quinto volume já é mais reflexivo, uma Maitena Madura passando dos quarenta anos e repensando a vida e vendo os namorados da filha do ponto de vista de mãe, reconhecendo e entendendo sua própria mãe ao ver-se em situações semelhantes agora com sua filha navegando Internet.

Faço votos que o sucesso repita-se, Maitena tem uma obra que merece, e a mulher brasileira precisa ler quadrinhos feitos por mulheres, talvez ajude a inspirar autoras brasileiras a publicar, pois há raras autoras de quadrinhos, a maioria no circuito alternativo das publicações independentes e fanzines, conheci muitas delas, namorei algumas, mas todas pararam, desistiram de fazer quadrinhos, incompreendidas, sem ter encontrado seu público...um desperdício de talentos !

 

Marketing

Somente acho que há um erro de Marketing no lançamento brasileiro, pois na Argentina e nos outros países Maitena foi publicada primeiro em jornais e em revistas femininas, conquistando o público gradualmente para sua temática feminina, muito diferente de tudo a que estamos acostumados a ver e ler.

Maitena foi publicada nos jornais La Natión (Argentina), El País (Espanha), La Stampa (Itália), El Mercúrio (Chile), El Nacional (Venezuela), Le Figaro (França), além de muitos outros e de revistas femininas; caso eu fosse o diretor de marketing responsável por lançar Maitena no Brasil, colocaria um ano antes de lançar os álbuns as tiras dela ou as páginas inteiras em suplementos femininos de jornais ou algo do tipo da Revista de Folha de São Paulo, com grande tiragem, ou em revistas femininas como Marrie Claire, Claudia, Capricho, Criativa, sei lá quais que fossem bem do público alvo: a mulher que trabalha fora e também cuida da casa, que gosta de ler livros, ir ao teatro e cinema, viajar, bem informada e inteligente, sensível e de bom gosto.

Faço votos que minha visão de marketing esteja equivocada e que Maitena estoure num merecido sucesso, e que venda igual ao Paulo Coelho!! Afinal, o tipo de leitora que curte Maitena é meu tipo de mulher... tomara que ainda existam muitas, pois as músicas que vejo-as dançar, desde a coreografia “dança da boquinha da garrafa” até a “egüinha pocotó” fazem até mesmo que eu duvide da existência de mulheres inteligentes no Século XXI ...devem ser raras e estar em extinção...

Maitena vai ser best seller e provar que ainda há vida inteligente no Brasil

E-mail para:cultura@dominiofeminino.com.br

 

 

 

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